Entrevista | Dequete – “Pichador, não! Escritor urbano!”

O grafiteiro mineiro Dequete nos fala dos grandes pintores que o influenciaram e diz que não há diferença entre piche e graffiti.

Comemorando 2 anos(!), o Otageek volta a entrevistar o grafiteiro mineiro Dequete. Entre sprays e ideias, o escritor urbano nos fala do declínio do incentivo à arte e à criatividade ao longo do ensino acadêmico, do descaso do atual governo para com a pandemia e dos grandes pintores que o influenciaram.

Ele diz que interpreta a rua como um personagem, como uma estrada em um roadie movie, e mostra que não há diferença entre piche e graffiti, já que ambos são assinaturas urbanas.

Otageekers, com vocês, o grafiteiro de 7 vidas: Dequete!

Otageek- Na 1ª entrevista ao Otageek, você disse que o desenho é algo inerente ao ser humano. Marcelo Cassaro, da antiga revista Dragão Brasil, que faz mangás brasileiros, disse algo semelhante: “quando crianças, todos desenhamos”. Você acha que o desenho é algo inato, ou qualquer um pode aprender se dedicar-se?

Dequete- Desde que o homem é homem, ele se expressa. Ele desenvolve uma forma de representar simbolicamente o meio em que vive. A gente percebe isso nas crianças. Toda criança desenvolve os processos de desenhos, as garatujas, as fases esquemáticas… isso é um processo natural, que é de todo ser humano

Imagem de um garoto e gradativo close de seus olhos.

Evidentemente, no decorrer da nossa vida, à medida que a gente vai crescendo e adentra no universo da escola, nos primeiros anos do ensino infantil, tudo é arte, cê já percebeu? “‘Vamo’ fazer desenho pra isso, desenho pra aquilo… ‘vamo’ colorir isso, colorir aquilo…” A criatividade é incentivada, ao passo que, quando adentramos nas matérias – ditas – mais importantes, Matemática, Português… esse incentivo à criatividade é podado, é retirado e não mais acontece.

“Nos primeiros anos do ensino infantil, tudo é arte. À medida que vamos crescendo, esse incentivo à criatividade é podado.”

Acredita-se agora que você vai ter que se formar pra ser um cidadão. Aprender a ler, a fazer cálculos. Na cabeça de algumas pessoas ou do sistema, isso é o que de fato tem importância, e a sensibilidade, o desenvolvimento do lado criativo, vai sendo podado e deixado de lado

Então é natural que algumas pessoas que têm habilidade, que têm facilidade, uma certa… aptidão, digamos assim, para o desenho, continuem a desenvolvê-lo, mas a grande maioria segue o fluxo do sistema e vai deixar de lado a questão da representação simbólica, da forma como se veem no mundo ou como sentem o mundo, esse mundo interior. Porque, na verdade, desenhar é isso: é como você se sente e como você vê o mundo.

“Na verdade, desenhar é isso: é como você se sente e como vê o mundo.”

É importante que a gente entenda o quê que é desenho. É impregnado na nossa cabeça desde cedo aquele conceito do desenho perfeito, anatomicamente bem resolvido. Isso não quer dizer que é uma verdade. Ninguém é obrigado a ser um Michelangelo, ou criar um sistema até matemático pra atingir a perfeição do desenho.

Beethoven no traço de Dequete.
Beethoven no traço de Dequete.

Não! Desenhar pode ser um traço, pode ser um risco. Como a dança também, (que) tem o seu próprio movimento. Cada pessoa dança de um jeito. Tem escolas de dança? Tem. Tem pessoas que dançam de uma forma que são ovacionadas? Tem. Mas toda pessoa pode dançar. Toda pessoa pode se expressar no mundo através do seu corpo.

Da mesma forma é o desenho. Desenho é algo simbólico. Não tem algo que possa definir: isso é desenho, isso não é desenho. É muito pessoal. É um universo pessoal. E eu falo isso pra ter uma base do que a gente vai falar mais pra frente, a respeito do graffiti.

Otageek- Além do grafite, com qual estilo/movimento da pintura você mais se identifica? Realismo, simbolismo, surrealismo…?

Dequete- Eu curto muito o conceito do modernismo, dos pintores modernistas: (Pablo) Picasso, (Paul) Cézanne, (Paul) Gauguin, (Vincent Willem) van Gogh… as vanguardas europeias. As pessoas que tavam à frente do seu tempo e que retiraram o artista dessa obrigatoriedade da cópia. Até então, na verdade, nenhum conceito de arte em si era tão bem definido, porque as pessoas que desenhavam ou produziam escultura, estátuas, eram artífices. Não era uma coisa valorizada como a gente conhece ou entende hoje.

Por exemplo, o homem que habitou as cavernas não fazia arte, cara. Não existia esse conceito de arte. Esse conceito surgiu depois, mas o homem das cavernas se expressava. E esses registros ficaram para posteridade, impregnados nas paredes das cavernas, mas não havia esse conceito da arte. Então, esse conceito, essa coisa de definir o que é a arte ou não, isso veio depois.

“O homem que habitou as cavernas não fazia arte. Não existia esse conceito. Esse conceito de arte surgiu depois, mas o homem das cavernas se expressava.”

Com os modernistas, a gente percebe esse desejo pela busca do novo, pela quebra, pela ruptura com o velho, com o tradicional, com a obrigatoriedade… junto com o advento da câmera fotográfica, que surge também neste período, o artista fica livre pra poder pintar o mundo da forma como ele vê, de dentro pra fora.

Cézanne parou de frente pra uma montanha e a desenhou, pintou a montanha várias vezes no seu cavalete. Primeira coisa: eles tiram o cavalete de dentro do ateliê, daquela coisa obscura, escondida, e levam ao contato das pessoas. As pessoas agora podem ver um artista trabalhando, um pintor se expressando.

“Com o advento do modernismo, o artista ficou livre pra pintar o mundo da forma como vê: de dentro pra fora.”

Quando Cézanne pega o seu cavalete e o coloca ali, do lado de fora, ele não tava pintando a montanha, ele tava capturando a luminosidade. Olha que sacada! Se não me engano, foram 9 telas que ele reproduziu diante de uma montanha. Olha que loucura! A montanha era apenas o subterfúgio pra ele poder pintar a luminosidade. Durante um dia inteiro ele pincelou a luz!

Eu me identifico muito com essa coisa que extrapola, que vem de dentro, que rompe com barreiras… e o graffiti tem muito disso. Além do graffiti, eu curto muito esses movimentos artísticos que fazem essas rupturas, que quebram paradigmas. O dadaísmo, a pop arte que vem discutir o conceito das subcelebridades, das celebridades… o Andy Warhol diz que todo mundo tem direito a 15 minutos de fama.

Hoje, mais do que nunca, critica-se a sociedade da imagem. As pessoas estão dispostas a fazer qualquer coisa pra aparecer e a pop arte já fazia a gente pensar a respeito disso. Era a obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica. Se produzia muito porque a sociedade começou a consumir muito. A arte vai pra um outro patamar: um patamar de objetificação. O artista passa a ser consumido. O artista agora passa a ser uma outra coisa diferente daquilo que era, um artífice. Ele cai num sistema, numa máquina, que o consome.

A arte foi para um outro patamar: o de objetificação. O artista passou a ser consumido. Ele caiu numa máquina, que o consome.

(Jean-Michel) Basquiat, por exemplo, foi consumido, porque tinha que produzir, produzir, produzir e não se respeitou a sua individualidade, o seu sentimento. Aquilo que ele tinha dentro de si… suas fraquezas. Você sai de um extremo e vai pro outro e a ideia é achar o caminho do meio. E nisso o graffiti se insere.

O graffiti, assim como esses movimentos de arte moderna, tem um quê de surrealismo, uma coisa que nos leva pra um outro mundo. É um portal que, muitas vezes, tira um jovem da realidade onde ele vive, de abandono, de descaso social, de extrema violência e através dos tags*, através das letras, através de um suporte vivo, que é um metrô, o trem… você vai gritar pruma sociedade que te invisibiliza que você existe, saca?

Que você tá ali, que você faz parte desse processo. Ainda que o sistema te mantenha à margem, alheio, você dá um jeito de burlar, de romper com isso. Cê não precisa tá numa galeria formal de arte, não precisa ser reconhecido como artista por esse meio, esse mainstream.

*Assinatura, rubrica do grafiteiro.

Grafite de Dequete debocha da pergunta capciosa, cê tem passagem?, mostrando uma passagem de ônibus.

Você cria os seu próprio sistema junto com os seus pares. Isso é muito lindo! É um movimento muito legítimo e que tá dentro do hip hop também, que é um movimento de resistência, de luta, de visibilidade do povo preto, do povo pobre, do povo latino, que grita pra essa sociedade que os invisibiliza que eles existem.

Grafite de Dequete mostra jovem negro ergue o punho cerrado. No fundo está escrito, Juventude e Resistência.

O hip hop mostra o potencial que esse povo tem pra dança, pra música, né? Música rap. Pro DJ que toca as batidas, pro grafiteiro pintar, pro b-boy, b-girl dançarem… é muito lindo a junção de tudo isso. Eu sou extremamente grato ao hip hop e ao graffiti por me acolherem e me darem um norte, um sentido de vida, de existência. Isso é muito bom, cara!

Otageek- A Lei 9.605 sofreu alterações em 2011 para separar piche de graffiti. O piche (ou xarpi como chamamos no Rio) é visto como vandalismo e uma forma inferior de grafite. Você o considera uma forma de TAZ (Zona de Autonomia Temporária)?

Dequete- Como eu disse na primeira pergunta: é preciso pensar sobre o conceito de desenho. O graffiti é de um universo particular nosso; é de nós para com os nossos, é de mim para comigo, de mim para com os meus e aí, em terceira instância, a sociedade participa, gostando ou não, dessas nossas manifestações.

O graffiti, na verdade, não necessita de autorização, de liberação. O graffiti é e sempre vai ser uma manifestação subversiva. No dia em que ele perder isso, deixa de ser graffiti. Vira pintura, muralismo, que também são manifestações legais.

O graffiti é e sempre vai ser uma manifestação subversiva.”

Eu, por exemplo, também faço murais, mas graffiti é quando eu pego meus sprays, saio sem rumo e vou achar uma superfície parietal, seja um muro, uma parede, uma placa, uma lixeira, saca? Eu vou me identificar, vou me relacionar com a cidade que também é minha de uma forma muito pessoal, colocando nela a minha assinatura, o meu tag.

O Brasil é o único país que separa graffiti e pichação porque isso na verdade não existe. Tudo é graffiti, saca? Até porque, por conta dessa separação que houve ali atrás, não somos pichadores, somos escritores. É como a gente gosta de se intitular. Eu sou um escritor de graffiti, sou um writer. A gente se intitula dessa maneira.

“Não somos pichadores, somos escritores. Eu sou um escritor urbano.”

O escritor de graffiti, ele quer escrever, cara. Quer escrever o seu nome, o seu tag, o seu pixo*… escrever o seu Throw Up, o seu Wildstyle, o seu 3D Style. E aí, na verdade, é importante dizer que: aquilo que a sociedade entende como graffiti e aquilo que pra nós é graffiti.

*Jargão para piche

Quando a pessoa traduz aquilo que o graffiti é, a começar da sua nomenclatura, do italiano, para “grafite”, ele tá assemelhando a nossa cultura, que é algo maior – maior do que eu, inclusive – com a grafite, que é o mineral.

Quando você joga “grafite” no Google, beleza, vai aparecer algumas imagens, mas também vai aparecer a lapiseira, o lápis, o mineral. E quando você fala graffiti, no mundo inteiro, é uma coisa só: é cultura! E graffiti, pra nós desse movimento, que surge na Filadélfia em meados dos anos 1980 e depois vai explodir nos metrôs nova-iorquinos e dali pro mundo inteiro – alcançando, inclusive, o Brasil – é um ato de escrever nomes. É um ato de fazer assinatura, e é aí que tá o X da questão: a assinatura também é um desenho.

“A sua assinatura é o seu desenho pessoal. Grafitar é assinar na parede. É dizer pro mundo que você existe.”

Quando as pessoas falam pra mim: “Ah, eu não sei desenhar!”. Eu sou educador social, né? Então, eu dou aulas de desenho também. Eu falo pra pessoa: “Tira o seu RG; tira a sua CNH… tem um desenho aí, cara! Isso é um desenho e é um desenho só seu.” A sua assinatura é o seu desenho. Só você faz, mais ninguém. É única e exclusiva e grafitar é assinar na parede; é dizer pro mundo que você existe, de uma maneira simbólica, tá ligado?

E aí, pensando nisso, cara, a assinatura do graffiti, enquanto escrita urbana, enquanto tipografia urbana, o xarpi*, por exemplo, é uma tipografia com características do Rio de Janeiro. Eu vejo um xarpi na rua aqui em Minas, e eu consigo identificar que tem um escritor carioca aqui na minha região, saca?

  • *Xarpi de “pixar”; pichar, com marca de oralidade (o X no lugar do CH) escrito em TTK.**
  • **TTK- Dialeto carioca criado no bairro do Catete, de onde deriva sua nomenclatura, “Tetecá”. Trata-se de falar de trás pra frente, sílaba por sílaba, sempre colocando as palavras em oxítona (tonificando a última sílaba).

Do mesmo jeito que aqui em Minas tem um estilo de se escrever próprio. São Paulo tem o estilo deles, que é próprio. Goiânia, Brasília, Salvador, Manaus… todos têm um estilo próprio. Os escritores dessas regiões ressignificaram. A gente fez com o graffiti o que fez com o futebol dos britânicos: a gente ressignificou a coisa. Deu uma outra pegada; uma pegada tupiniquim, vamos dizer assim.

Indiano, sentado na posição da lótus, segura uma flauta doce na qual pousa um passarinho, no traço de Dequete.

Então, existe o tag nova-iorquino, o graffiti nova-iorquino. Um jeito de se fazer assinaturas monocromáticas, só no preto mesmo, ou no branco, ou na cor que tiver o spray, que nasceu ali, nos Estados Unidos, e se espalhou pro mundo inteiro, inclusive aqui no Brasil.

“É um direito meu me relacionar com a pele da cidade, como se fosse uma tatuagem.”

Mas o Brasil também criou, a partir disso ou simultaneamente a isso, um jeito de se fazer assinaturas que é muito próprio. E aí dá-se o nome de pichação pra essas assinaturas, mas na verdade é uma forma de graffiti também. O graffiti tem vários estilos de letra (como já mencionado): temos o tag, o pixo, o grapixo*, o throw up, o wildstyle, o 3D style e até o Freestyle, que, por exemplo, é o trabalho que eu faço, em proporção maior.

*hibridismo de graffiti com pixo.

Eu tanto saio pela rua e faço pichação, faço tags, throw ups… eu, Dequete falando, faço isso. Independente de autorização, censura ou permissão, eu me expresso. É um direito meu de me relacionar com a pele da cidade como se fosse uma tatuagem

Ninguém invade a propriedade de ninguém. Na verdade, estamos usando o espaço visual que é de todos, que é coletivo. A gente se relaciona com a rua de uma maneira que ninguém mais o faz. Eu costumo dizer isso: que, para a maioria das pessoas, a rua é um entrelugar; um lugar de passagem. Ela sai da casa dela pra facul*, sai da casa dela pro trampo, pra casa do namorado ou da namorada… SAI DA CASA DELA pra ir pra algum lugar e… passa pela rua. 

*Faculdade, claro! Mas nada custa criar o verbete.

A gente, não. A gente sai de casa pra ir PRA rua. A gente VIVE a rua. Como diz o rapper Emicida: “A Rua é nóiz!” Quando a gente diz que “(…) a Rua é nós” é porque a gente vive e respeita a rua. A gente coloca a rua até como um ser. Como quem fala: “A Natureza! A Mãe Natureza!”; é um ser, com N maiúsculo. 

Pra nós, a Rua também é um ser com R maiúsculo, então respeitamos muito esse ser, que é a Rua. Não é qualquer um que chega na Rua e acha que pode fazer o que bem entender, pensando na arte de rua. Se eu for fazer um mural, eu não posso tampar as assinaturas que ali estavam. Eu tenho que dialogar com os escritores. Dar um “Salve!”, saber da galera se é de boa. Se eu posso ou não. E é aí que entram algumas tretas.

Alguns artistas plásticos que não conhecem as regras das ruas, as leis das ruas e se intitulam melhores, acham que são iluminados, que são as pessoas que têm dom e que podem simplesmente apagar a história, apagar toda uma agenda de anos, com vários escritores que ali estavam pra colocar o paisagismo deles, a plantinha deles, o realismo deles. Não, cara. Não podem.

“Se você não respeita a Rua, a Rua não vai te respeitar. A Rua é um ser, com R maiúsculo. E a Rua cobra!”

Aí, o contrário acontece: eles fazem o mural deles, aí vem os grafiteiros, os pichadores, os escritores e passam por cima. Por quê? Porque existe uma lei sagrada pra nós na rua: que a Rua cobra! É como dizia Sabotagem: “Respeito é pra quem tem!”. Se você não respeita a Rua, a Rua não vai te respeitar e vai te cobrar. E a Rua cobra mesmo! 

O que a sociedade diz não interessa muito pra nós nesse sentido, porque a gente pinta de nós pra nós, como eu falei. Pode ser usando um spray ou sem. Podemos ter autorização ou não. A cidade é nossa! A gente tá discutindo o uso do espaço visual urbano, que é de todo mundo!

Por que se pode colocar um outdoor gigante, sei lá, da Coca-Cola, na porta da minha casa sem eu ser consultado e eu não posso colocar a minha marca na rua? A Coca-Cola pode colocar a sua marca, o seu tag, a sua assinatura, mas eu não posso colocar o meu tag, a minha assinatura, saca? É questão de interesses.

“Por que a Coca-Cola pode colocar um outdoor gigante na frente da minha casa e eu não posso colocar a minha assinatura na rua? É uma questão de interesses.”

Uma das coisas que a gente precisa começar a repensar é o conceito do que é graffiti. Nós não separamos graffiti, pixo, tag, throw up… tudo é graffiti, tá ligado? Tudo é escrita urbana. Cada um tem a sua estética, sua forma de trabalhar. Temos diversos escritores que são tidos como vândalos aqui no Brasil e lá fora eles são ovacionados, cara.

A gente tem o Rafael Sliks, de São Paulo, que só trabalha com tags urbanas e faz trabalhos pra galerias, vende diversas telas. Ele vende as pichações que aqui no Brasil são desvalorizadas. O que, pros brasileiros, pra sociedade – hipócrita – é crime, é feiura, é vandalismo, é falta de arte, lá fora os gringo tão valorizando, cara! Os caras vêm pro Brasil ver os murais d’OSGÊMEOS, do Kobra e se deparam com um graffiti visceral, que é o pixo. Então, o pixo é o graffiti original.

Então, o pixo, ele é graffiti. O xarpi, ele É graffiti. Não tem essa de transitoriedade, saca? Eu não deixei de ser pichador pra virar grafiteiro. Eu já era escritor de graffiti, continuo sendo escritor de graffiti, agora com uma consciência, uma experiência e uma bagagem maior, tá ligado? A ponto de poder dizer até para alguns escritores que confundem isso: “Mano:, você é grafiteiro também! Eu não sou melhor do que você.” Não é porque, de repente, eu fiz um projeto pra Qualy, pra uma empresa grande, que eu sou melhor do que o maninho que tá começando agora, sacou? De forma alguma.

“O xarpi É graffiti! Eu não deixei de ser pichador pra ser grafiteiro. Eu já era escritor de graffiti e continuo sendo.”

Ou seja, a gente tem esse respeito para com quem tá chegando e a galera que tá chegando tem um respeito para com quem já tá na caminhada há mais tempo. Isso é coletividade, cara. Isso é cultura e é respeito. E, novamente, respeito é pra quem tem. Então, essas leis não significam nada pra gente a não ser entraves. 

Fabrício Queiroz, no traço de Dequete.

É desperdício de energia ficar reprimindo. Esse espírito de Dória (referindo-se ao governador de São Paulo) não funciona mais, ficou provado. Dória apagou os graffiti de São Paulo, a galera foi lá e fez tudo de novo e vai ser sempre assim. Por que que não investem esse dinheiro que eles utilizam pra tampar os graffiti, que dizem não gostar, na saúde, na educação, tá ligado?

“Vandalismo pra nós é a fila do SUS. Vandalismo pra mim é pessoas morrerem por uma doença que tem vacina.”

Vandalismo pra nós, na verdade, é a fila do SUS, cara. Vandalismo pra mim é ver mais de… quase meio milhão de pessoas morrerem por uma doença que tem vacina. Isso pra mim é vandalismo. Isso pra mim é crime. E com os culpados, os responsáveis… nada acontece. Mariana… não é nem tragédia, o que aconteceu em Mariana. O que aconteceu em Mariana foi assassinato e ninguém faz nada.

Mas aí o criminoso ambiental é o grafiteiro, é o escritor urbano. Essas leis são feitas de quem pra quem? Quem paga o pato? Por que o policial tem uma postura na quebrada, na favela, de um jeito, mas no condomínio, em Alphaville, ele age de outro jeito? Essas leis são pra quem? Deixo aí essa reflexão.

Otageek- Além das 3 cores que você usa, há sempre um risco, um traço, que divide ao meio o rosto dos seus personagens. Há uma estética clown nisso? 

(Risos). Gostei de você falar sobre a estética clown, mas na verdade não, cara. Eu defini uma paleta de cores específicas, né? Desde 2012 eu trabalho com o conceito verde, laranja e azul, que são as minhas primárias. Eu escolhi 3 cores para, a partir delas, fazer qualquer coisa no universo das artes e as pessoas reconhecerem.

Foto de cima pra baixo das latas de tinta e pincel com as três cores escolhidas por Dequete: verde, amarelo e azul.
A paleta de cores de Dequete.

Juntamente com isso tem a minha pegada, o meu jeito de pintar, de escrever, que é só meu. O grande lance é esse: eu não faço só o meu personagem, que é um gato, como eu falei na última entrevista com vocês. Essa divisória que existe, de 3 cores, acontece por conta de que quando eu criei ela foi influenciada por mangás. Eu curtia pra caramba esse universo! Então, criei um felino que era muito parecido com os mangás que eu assistia na saudosa Rede Manchete.

Curtia muito Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco… tudo isso me influenciou na criação de um personagem que era um felino. Quando eu o criei, ele era todo costurado, todo furado de bala. Era bem thrash, devido a algumas coisas pelas quais eu passei e criei um personagem pra falar dessas  coisas, retratar minhas dores internas. Era uma forma de lidar com os meus traumas.

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Criei esse simulacro, vamos dizer assim, que era o meu personagem, meu alter ego, pra falar daquilo que eu senti. Por isso ele era todo costurado, todo dividido. Todas as junções, todas as articulações dele… era como se tivesse sido arrebentado e depois costurado novamente. Era o que eu sentia na época.

Grafite mostra o grafiteiro, de costas, grafitando. Em seu boné, virado pra trás, está escrito seu codinome.

À medida que os anos foram passando, eu, enquanto pessoa, fui lidando, a respeito das violências que eu vivenciei e que foram acarretadas sobre mim. O meu personagem foi evoluindo junto comigo. À medida que os meus traumas foram diminuindo, ele foi ganhando conotações humanas.

Ficou menos felino, mais humanoide e também foi ganhando cores. Então comecei uma pesquisa por cores. Fiz diversas cores, tal como Picasso nas suas fases: azul… fase rosa, eu também tive diversas fases no meu trabalho, até chegar nessa que eu mais me identifiquei. Falei: “Não, é isso aqui que eu quero trabalhar.

Desde então, cheguei numa paleta específica de cor: verde, laranja e azul, trabalhando com o meu personagem, que é um felino. Mas a paleta ultrapassa a questão do persona e vai pra todos os trampos que eu faço: as minhas letras, meus tags, minhas assinaturas de escritor urbano, de grafiteiro, também vão nessa pegada do verde, laranja e azul, pra que todo mundo que se depare com obras minhas, pras “n” coisas que faço, saiba que foi o Dequete quem fez, por conta da paleta e do estilo de pintura. O personagem é um gato, não é um clown não.

Otageek- Dequete vem de The Cat, “O Gato”, e surgiu após a tentativa de homicídio que você sofreu em 2001. Dizem que o gato tem 7 vidas. Além desse atentado, você já gastou mais vidas? 

Dequete- (Risos) Como eu disse anteriormente, o persona é um gato, um felino. Na verdade, me apelidaram de O Gato, não fui eu que me intitulei. Colocaram em mim essa alcunha e, pensando, refletindo sobre isso, o mito do gato possuir 7 vidas, eu abracei essa ideia e comecei a trabalhar em cima dela. A partir disso eu criei uma poética, cara.

Mãe de Dequete, grafitada no muro no traço dele.
Mãe de Dequete.

O meu trabalho fala sobre a vida, a valorização da vida. Mas evidentemente, isso é só uma metáfora, uma forma simbólica. Já passei por diversas outras situações que com certeza já gastaram essas outras vidas que tinham sobrado. Mas vale a mensagem por conta da reflexão, do cuidado, porque essas outras vidas que foram gastas não dependeram de mim. Só ano passado, no meio dessa pandemia, eu passei por três cirurgias. São coisas da vida. 

A mensagem que o Dequete traz é uma mensagem que valoriza a vida. Eu falo muito disso: a vida é efêmera como um graffiti. Hoje existe, amanhã não existe mais, então temos que focar no hoje, focar naquilo que de fato tem valor pra gente, naquilo que importa, saca, mano? Porque agora, nós “tamo” aqui fazendo essa entrevista, batendo esse papo, mas quem garante o dia de amanhã?

Chadwick Boseman, vestido de Pantera Negra, segura uma flor com a mão direita, no traço de Dequete.

O que vale a pena mesmo é o hoje, o agora. Então, vamos respeitar, vamos amar, vamos pensar e fazer coisas boas pro mundo. Vamos contribuir, saca? E o mundo, na verdade, é (o que tá) à nossa volta. A gente não vai interferir numa coisa macro, mas no nosso micro aqui, no nosso mundo, no nosso meio, no nosso coletivo, a gente pode e deve fazer diferença. Eu acredito muito nisso e o Dequete tá aí, PRA isso e POR CAUSA disso. Demorô? Agradeço pela oportunidade e “tamo” junto!

Otageek- Uma última pergunta: já que se passaram dois anos desde a sua última entrevista conosco, como está a sua vida de lá pra cá? O que mudou? Você acha que melhorou no cenário do graffiti? Como está a sua vida de dois anos pra cá? 

Dequete- Acho que mais louco é: ninguém esperava passar por uma pandemia, por um momento como esse. A nossa vida, enquanto brasileiro, nunca foi fácil, ainda mais pra quem é periférico e está sujeito a essas políticas que só nos ferram. Mas nesse contexto atual, tem sido pior, tanto por conta da pandemia quanto pelo cenário político pelo qual a gente tá passando. Costumo dizer que são dois vírus a serem combatidos.

Grafite mostra o próprio grafiteiro, de costas, grafitando no muro a frase: dias melhores virão.

Mas, apesar de tudo isso, contrariando as velhas e as novas estatísticas, “tamos” bem, graças a Deus. “Tamo” em casa, nos resguardando, dentro do privilégio, do conforto que temos hoje, que a arte proporciona. E sou grato nesse sentido porque sei que tem muita gente passando dificuldade. Muita gente não tá mais aqui entre nós e se aqui estamos, temos uma responsa nisso e temos que agradecer por isso também. Então, tô bem, graças a Deus, e tô produzindo.

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Claudio Siqueira
Claudio Siqueira

Escritor, poeta, Bacharel em Jornalismo e habitante da Zona Quase-Sul. Escreve ao som de bits e póings, drinkando e smokando entre os parágrafos. Pesquisador de etimologia e religião comparada, se alfabetizou com HQs. Considera os personagens de quadrinhos, games e animações como os panteões atuais; ou ao menos, arquétipos repaginados.

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