E o Oscar vai para… nenhum filme de horror

Para o gênero, a premiação é um lugar silencioso
À esquerda, Pear. Ao centro, Hannibal Lecter. Á direita, Ghostface, de Pânico.
Os icônicos Pearl, Hannibal Lecter e Ghostface. Arte: Isabella Breve

Durante uma entrevista a Jake Hamilton para promover o filme “Infinity Pool” (2023), a atriz Mia Goth, recém vinda de um ciclo de sucesso devido duas interpretações em filmes de horror no último ano, foi questionada acerca da sua não indicação ao Oscar de Melhor Atriz em 2023, pela prequela “Pearl” (2022) de “X – A Marca da Morte” (2022). Em resposta, Goth afirmou que acha as nomeações algo “(…) muito político e não totalmente baseado na qualidade de um projeto em si”. Para a atriz, “há muita coisa acontecendo nos bastidores, muitos cozinheiros na cozinha quando se trata de indicações”. Ela ainda completou: “não sei, talvez eu também não devesse dizer isso, mas acho que é verdade. Acho que muitas pessoas sabem disso e não sei por quê. Eu acho que uma mudança é necessária, que uma mudança realmente deveria ocorrer. Se eles quisessem se envolver com o público em geral, acho que seria realmente benéfico”.

A não indicação da atriz foi surpreendente, sob aspectos qualitativos, para a crítica especializada. No Rotten Tomatoes – website norte-americano agregador de críticas de cinema e televisão – o filme dirigido por Ti West conta com 92% da aprovação da crítica. A.O. Scott do The New York Times escreveu que no filme “há um pouco de sexo e muito sangue, mas principalmente uma atmosfera de melodrama febril e lúgubre, fermentado com piscadelas de humor consciente e sustentado pela performance totalmente sincera e maravilhosamente bizarra de Goth”. Peter Bradshaw do The Guardian apontou que “Mia Goth e Ti West assustam uma tempestade em extraordinário horror pandêmico”.

Em se tratando de aspectos qualitativos, a prequela “Pearl” cumpre com o requisito de qualidade de uma obra. Tal argumento é provado pelas inúmeras críticas positivas de especialistas e, também, do público em geral. Entretanto, entender a forma pela qual as nomeações do Oscar são feitas, vai além do simples quesito qualidade. É como Goth disse: “algo vem acontecendo nos bastidores”. O que é?

Uma volta no passado para entender o presente 

Definir o surgimento do cinema não é uma tarefa fácil. Afinal, a resposta não é única. Foi a partir do surgimento da câmara escura no século XV, que anos mais tarde, Thomas Edison chegava com o cinetoscópio. E, foi assim que, em 1895, os Irmãos Lumière apresentavam o cinematógrafo, considerado por muitos o pontapé inicial para a construção do cinema como o conhecemos hoje. Por meio dos Irmãos Lumière, o cinema nasce como uma representação da realidade. Entretanto, vai se transformando em um meio que proporciona interpretações da realidade.

Hoje, o cinema não serve apenas como um espelho do real, mas também propicia diferentes perspectivas sobre esse real. O jornalista e escritor Rodolfo Stancki, aponta que o cinema é uma forma de registrar as nossas histórias, “quase como se fosse uma roda de fogueira contemporânea, além de dar voz a classes e grupos marginalizados. O cinema ainda pode ser um instrumento político tanto de ideais e ideologias conformistas, quanto instrumento de luta, defesa de poder e representações. Ao mesmo tempo em que ele é uma crítica à sociedade, é um espetáculo”, complementa. 

A doutora em história e pesquisadora nas relações entre história e cinema de horror Gabriela Larocca, ressalta que, antes de tudo, cinema é entretenimento e mercado: “são duas coisas que não podemos esquecer quando falamos de história do cinema e cinema atual. Tem toda uma questão mercadológica, e o papel do cinema enquanto cultura e arte”.

Para o diretor de filmes de horror e professor de cinema Calebe Lopes, responsável pelos curta-metragens “A Triste Figura” de 2018, e “Pelano!” de 2019, o cinema é uma forma de colocar seus medos e angústias para fora. “Eu consigo enxergar o cinema de uma maneira muito romântica. Ele é uma forma de lidar com a vida e a morte, uma forma de brincar de Deus, criando realidades, ao mesmo tempo que é uma via para a gente se expressar. É colocar uma carta de amor ou ódio dentro de uma garrafa e jogar no mar, na esperança de alguém encontrar e se relacionar com aquilo. Tudo isso por meio de imagens e sons”, completa. 

George Méliès, considerado o “pai do cinema”, foi o primeiro a se interessar por essa nova forma de arte, a viabilizar o cinema como técnica, e elevá-lo à categoria de arte. Em 1902, o diretor lançava “Viagem à Lua”, o primeiro filme de ficção científica produzido no mundo todo. Para a época, a produção de pouco mais de 10 minutos apresentava técnicas inovadoras a partir dos conhecimentos de Méliès de ilusionismo. Após ele, D.W. Griffith, conhecido por ser o criador da linguagem cinematográfica é o primeiro a realizar um longa-metragem com “O Nascimento de uma Nação” (1915), filme que apresentava a Guerra Civil Americana. De técnica apurada, linguagem inovadora e conteúdo racista, o filme de Griffith marcou a época e gerou muita polêmica. E é Serguei Eisenstein, em 1925, com “O Encouraçado Potemkin”, que introduziu e revolucionou a linguagem simbólica de sequências. 

O medo é a emoção mais primitiva da humanidade

H.P. Lovecraft, escritor estadunidense que revolucionou o gênero de horror, ficção científica e fantasia, lembrava que a “emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido”. Os mitos preenchiam os espaços das lacunas que as civilizações antigas não conheciam. O horror vem desde a literatura, com histórias de mortes misteriosas e mansões afastadas, principalmente do século XIX, com os escritores góticos. “Drácula” (1897), de Bram Stoker, é a obra marcante que acabou por estabelecer o padrão do gênero. O cinema atua como um recurso para representar o fantástico, que sempre esteve presente na imaginação do indivíduo, seja em contos de fadas, romances, comédias e nas produções de horror. 

No fim do século XIX, com o advento do cinema, a Sétima Arte se tornou palco para a personificação de criaturas horripilantes. Enquanto o cinema tratava de contar com atores consagrados, os filmes que exploravam o grotesco surgiam na margem de repúdio da crítica, mas despertavam interesse no público. Além de ter realizado o primeiro filme de ficção científica, George Méliès produz “A Mansão do Diabo” (1896), cuja história é enquadrada por alguns autores como o primeiro filme de horror da história. Entretanto, o gênero só é inaugurado tempos depois. 

Um homem encontra um esqueleto humano sentado em uma cadeira na foto em preto e branco do filme A Mansão do Diabo, de George Méilès.
A Mansão do Diabo (1896) de George Méliès. Foto: Reprodução/Cinema da História

Oficialmente, como aponta a pesquisadora Gabriela Larocca, o horror é fundado após alguns críticos assistirem a duas produções e, assim, categorizar ambos dentro da nomenclatura do gênero. “O surgimento que muitos autores gostam de bater o martelo é o lançamento de ‘Drácula’ e ‘Frankestein’, da Universal nos anos 30. Mas existem filmes que são retroativamente considerados do gênero hoje, mas não na época que foram feitos. Afinal, a ideia de susto e medo existe desde sempre”, ressalta. 

O Expressionismo Alemão surgiu na Alemanha Nazista, e iniciou uma valoração do cinema como arte, visto que para a época, filmar era considerado uma atividade marginal, apenas um entretenimento popular para exibição em circos e feiras. “O Gabinete do Dr. Caligari” de Robert Wiene, lançado nos anos 20, é um dos pertencentes ao gênero. Ao seu lado, “O Médico e o Monstro” (1920), “Nosferatu” (1922) e “O Fantasma da Ópera” (1925), se acrescentam à lista. Muitos apontam o movimento como marco inaugural do gênero, mas a história não é bem assim. “Toda vez que falamos de história do cinema de horror estamos falando do Expressionismo Alemão, porque ele comporta muitos produtores e diretores que vão para os Estados Unidos. Existem muitos elementos do movimento que serão imprescindíveis para o cinema de horror. Entretanto, ele é considerado um gênero por si só, enquanto o horror é outro. Não que exista uma caixinha fechada, muitos gêneros podem se mesclar. Mas a ideia de filmes de horror vem somente depois de ‘Drácula’ e ‘Frankestein’”, aponta Larocca. 

Béla Lugosi interpretando Drácula de 1931 espreita Bunny Beatty, adormecida em seu leito.
Cena do filme “Drácula”, de 1931. Foto: Divulgação/Universal Pictures

Entre as décadas de 30 e 50, a Universal reinou com filmes de horror de baixo orçamento e alta rentabilidade, que passaram a atuar como laboratório para novos cineastas e atores. As produções que iniciaram esse momento do cinema de horror foram as adaptações literárias de “Drácula” (1931), de Tod Browning, e “Frankenstein” (1931), de James Whale. A fase ficou conhecida como “Universal Gothic”, pois revivia monstros clássicos da literatura do século XIX, ajudou a popularizar mundialmente o gênero e foi um marco na história do cinema.

Anos depois, a Universal Gothic entrou em decadência com a saturação de sua fórmula e, então, na década de 60, o cinema de horror passou por uma revolução com o aumento da qualidade de suas produções e a consagração de alguns subgêneros, com filmes relevantes como “Psicose” de 1960, “A Noite dos Mortos-Vivos” de 1968, e “O Bebê de Rosemary” de 1968. A década foi importante para a abertura de portas para o horror moderno no cinema. Os três filmes traziam discussões e críticas sociais da época para o cenário do cinema de horror.

“‘O Bebê de Rosemary’ e ‘A Noite dos Mortos-Vivos’ mostraram que dava para fazer filme de horror e ganhar muito dinheiro”, contextualiza Larocca.

Em 1968, o diretor Roman Polanski apavorava plateias de todo o mundo com “O Bebê de Rosemary”. Foto: Divulgação/Paramount Pictures

Na década de 70, filmes que ficariam marcados no histórico do gênero foram vistos pela primeira vez. Entre eles, “O Exorcista” de 1973, dirigido por William Friedkin, e “Tubarão” de Steven Spielberg, de 1975. O longa de Friedkin ficou assinado como o primeiro filme de horror indicado na história do Oscar. “‘O Exorcista’ virou um ícone cultural da década de 70. É um grande representante do horror mainstream, do horror que vai para o Oscar. Depois dele, os filmes de possessão nunca mais foram os mesmos. Todos os filmes de possessão, com exceções, estão na margem de ‘O Exorcista’. Ele definiu esse subgênero. E isso não é para qualquer um”, argumenta Gabriela. 

“O Exorcista” é um dos grandes clássicos do cinema de horror. Foto: Divulgação/Warner Bros. Pictures

Rodolfo relembra o impacto cultural que o filme teve na época de seu lançamento, e que mantém até os dias atuais. “‘O Exorcista’ movimentou muito o cinema. Tem um autor que conta que quando a sessão-teste do filme terminou, o William Friedkin encarou uma sala em completo silêncio, porque ninguém sabia o que havia visto. É um filme assustador, mas ele é dramático também. O horror talvez seja menos dramático que a situação em que a mãe e filha passam, socialmente falando. É um filme de estranhamento”, conclui. 

“Tubarão” ganhou três Óscares por Melhor Edição, Melhor Banda Sonora e Melhor Som. Foi o primeiro filme a superar a marca de 100 milhões de dólares de bilheteria, e ser reconhecido pelo título de primeiro blockbuster – obra de entretenimento considerada muito popular e bem-sucedida – da indústria cinematográfica. 

“Tubarão”, o primeiro blockbuster da história do cinema. Foto: Divulgação/Universal Pictures

A década de 80 marcou a ascensão dos “slashers”, filmes de baixo orçamento em que um assassino mata um grupo de jovens com conduta sexual considerada transgressora. Segundo Larocca, o subgênero é tipicamente norte-americano e canadense: “o slasher vem de uma reformulação do cinema na década de 60 com a quebra do Código Hays, que é a censura. A partir do momento que o código cai, você tem a possibilidade de fazer filmes mais violentos, sangrentos e explícitos”. O primeiro slasher nesses moldes é “Halloween”, em 1978. Ele surge em um contexto histórico estadunidense sinalizado pela contestação cultural e da disputa entre grupos, de revoluções do movimento negro e feminista, e a contracultura. No final dos anos 70, se tem uma reação de grupos mais conservadores. 

Em 1978, “Halloween” apresentava o icônico Michael Myers. Foto: Divulgação/Compass International Pictures 

Para os filmes slashers, não adianta apenas matar os personagens. As vítimas devem ser assassinadas de formas violentas. Jason Voorhees, protagonista da franquia “Sexta-Feira 13”, ao atacar e perseguir jovens em Crystal Lake, estaria personificando o puritanismo da sociedade repressora dos anos 1980, que punia metaforicamente os jovens por sua rebeldia em relação ao sexo e às drogas. Sendo uma força propulsora do subgênero, o sexo quase sempre é repreendido e punível por monstros e psicopatas. “É muito comum enxergarmos a proximidade entre o horror e a sexualidade. Muitos autores falam que a sexualidade e a morte caminham juntas; porque a morte é a morte, e a sexualidade é o princípio da vida. Uma é o começo e a outra é o fim. E o horror, desde muito cedo, traz para si essa dicotomia; porque um dos principais temas do gênero é a morte, em suas mais variadas formas, não apenas no que diz respeito ao assassinato. Sexualidade e erotismo chamam a atenção dos seres humanos. Nós temos esse fascínio pelo tema”, explica Gabriela. 

No final da década de noventa, com a decadência dos filmes do subgênero, “Pânico” (1996) de Wes Craven, trouxe frescor ao slasher e influenciou muitas produções que seguiram. “Eu acredito que a partir de ‘Pânico’ nós temos os slashers se reinventando cada vez mais, tentando entender suas falhas e se reinserir no novo milênio. Os slashers de 2023 vão conversar com os jovens de hoje, assim como os da época. O subgênero soube muito bem se reformular e conseguir se manter interessante para quem assiste”, complementa Larocca.

Cena do filme “Pânico” (1996) de Wes Craven. Foto: Divulgação/Paramount Pictures

Lucas Claus, dono da página “Horror no Ar”, ávido na paixão pelo cinema de horror, conta que o primeiro contato com o gênero foi com “A Bruxa de Blair” (1999) de Daniel Myrick e Eduardo Sanchez. “Ali eu já me encantei. Para mim, ‘A Bruxa de Blair’ é um dos melhores filmes já feitos. Desde então, eu nutro essa paixão pelo gênero. Ele me auxiliou em diferentes fases da minha vida”, comenta. Com mais de 32.9 milhões de seguidores no twitter – sem contar as outras redes – Lucas compartilha novidades do mundo do cinema de horror, próximos lançamentos e indicações de filmes do gênero. 

Outra história de amor com o gênero pertence a Leonardo Bross, criador da página “Blogue News Terror”. “Desde os meus sete anos sou fã de filmes de horror. A princípio, eu nunca senti medo, pelo contrário, eu amava vivenciar todas as experiências que o horror proporciona. Quando assisti o primeiro ‘Invocação do Mal’, pensei que precisava, de certa forma, me inserir nessa área. Foi aí que criei uma página no Facebook prevendo o lançamento de ‘Invocação do Mal 3’. Foi, de longe, a melhor escolha da minha vida”, complementa. 

Para Gabriela Larocca, um dos motivos do fascínio da humanidade pelas histórias de horror se deve a maneira pela qual elas conversam com a humanidade. “Enquanto indivíduo, e pessoa que gosta de horror, posso dizer que o medo nos dá adrenalina. De um jeito ou de outro, talvez até de forma inconsciente, existem muitos temas que o horror traz, e que num primeiro momento podem nos assustar, mas que nos levam de volta a ele, porque fazem sentido para nossa vida; seja a morte ou o medo de morrer de forma dolorosa. Tem até a questão da morbidez. O cinema de horror é uma espiadinha naquilo que não temos muito como saber”, acrescenta. 

O horror nasce como um dos gêneros cinematográficos que mais se beneficiam do fato do cinema ser um construtor de mundos. Stephen King, escritor norte-americano conhecido pelo título de “Rei do Horror”, diz que o gênero não está interessado na raiz civilizatória que permeia nossa sociedade. Segundo Larocca, o cinema de horror usa de temas para tratar de qualquer elemento: “uma história de fantasma, por exemplo, pode tratar do luto e do trauma. Essa é uma das questões mais interessantes do gênero. Ele pode falar e representar tudo por meio de metáforas e fantasias. Qualquer tema é passível de ser inserido dentro do cinema de horror. Você trata tanto de temas coletivos como individuais”.

A sensação de experimentar o medo sem estar no mesmo ambiente dele, permite que sintamos essa sensação sem nos expor ao perigo. King, no livro “Dança Macabra” (1981), diz que o desconhecido nos amedronta, mas nós adoramos dar uma olhadinha nele. Os monstros do cinema de terror tem um valor alegórico que, muitas vezes, pode parecer distante do real – mas não é. O filme de terror é um convite para entregar-se a um comportamento delinquente. King aponta que é uma válvula de escape necessária para a civilização, uma permissão para que a “sociedade exercite de forma simbólica um aspecto de sua natureza que, no resto do tempo, é exigido que se mantenha sob controle”.

Rodolfo Stancki explica sobre a sensação de não nos expor explicitamente ao perigo, com base em uma analogia de que o horror é como uma montanha-russa: “eu encaro o medo de cair muito rápido, mas eu sei que, salvo o fato de não estar dentro de um parque com perigo, provavelmente não irei morrer em uma montanha-russa. Quando eu vejo um filme de horror, tenho uma experiência meio parecida com a da montanha-russa. Eu estou passando medo em segurança. Quando acender a luz do cinema, ou quando eu desligar a minha televisão, estarei em segurança. A diferença é que a experiência com a montanha-russa acaba ali, já o horror vai permanecer preso em nossas mentes”.

Horror e Terror: dois lados da mesma moeda?

Comumente, os gêneros terror e horror são empregados como sinônimos, sendo que o primeiro, em português, é frequentemente utilizado como tradução para o segundo. No inglês, temos a expressão “horror movies”, que costuma ser traduzida para “filmes de terror” no português. No Brasil, o gênero se popularizou como terror. Quando o medo se constrói de forma menos visceral, e mais psicóloga, no país, é comumente chamado de terror psicológico.  

O dicionário Oxford oferece diversos significados para horror: 1. Forte impressão de repulsa, acompanhada ou não de arrepio, gerada pela percepção de algo ameaçador; 2. Sentimento de nojo, de aversão, de ódio; 3. Sentimento de profundo incômodo ou receio; 4. Caráter do que inspira pavor ou repulsa; 5. Aquilo que se mostra desagradável ou extremamente aborrecido. Enquanto o terror recebe as seguintes classificações: 1. Característica do que é terrível; 2. Estado de pavor; 3. Quem ou o que aterroriza.

Gabriela Larocca aponta que a distinção entre os termos são utilizados com maior ênfase e urgência no meio acadêmico. Segundo a pesquisadora, no Brasil, o gênero é terror, mas em outros países, principalmente nos de língua inglesa, é horror. “A distinção entre os termos vem da literatura, e foi proposta no século XIX por Ann Radcliffe, escritora de romances góticos muito famosa. Isso foi sendo refinado por muitos teóricos, que distinguem o terror como o sentimento do que está por vir, e ter medo daquilo que pode ocorrer. É a ansiedade. E, o horror, concretiza esse medo. Ele é explícito, é a repulsa”, conclui. 

Rodolfo Stancki, ainda completa que o terror é um sentimento de frio na espinha, e o horror é nojento e ameaçador. “O horror é uma narrativa em que você vê o monstro, no qual te mantém horrorizado. Na literatura, por exemplo, temos os livros de terror, como ‘A outra volta do parafuso’ (1898) de Henry James; e os de horror escritos por H.P. Lovecraft. Quando essa distinção vai pro cinema, ela fica esquisita, mas o gênero grande continua sendo o horror”, complementa. 

Horror: “gênero B”?

A primeira cerimônia do Oscar aconteceu em maio de 1929 em um hotel de Los Angeles. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas – a organização por trás do Oscar – entregou os prêmios em um jantar para cerca de 250 pessoas – menos glamouroso do que vemos atualmente. O sucesso e firmamento da premiação como conhecemos hoje, se deu a partir da consolidação do cinema enquanto arte. Logo, o prêmio funcionava como valoração para aqueles que se dedicavam à indústria cinematográfica e, dessa forma, passaram a atuar como termômetros de qualidade e prestígio. “Asas” (1927), o primeiro filme a vencer a categoria de Melhor Filme, apresenta elementos de produções vencedoras do prêmio até os dias de hoje: romance, guerra e luta por sobrevivência. 

Com ingressos custando cinco dólares, a primeira cerimônia do Oscar durou apenas 15 minutos. Foto: Divulgação/Oscars

Foi nesse contexto que a própria indústria passou a hierarquizar os gêneros em diferentes patamares. Durante as décadas de 30 e 40, o horror já fazia parte de um grupo seleto de “filmes B”, obras de baixo orçamento com um sistema de venda de vários filmes para um cinema como unidade, os chamados “block booking”. Essa reserva em bloco foi predominante em Hollywood desde a virada da década de 1930, até ser proibida por decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos. A reserva em bloco significava que um estúdio venderia seus filmes em pacotes com base no tudo ou nada – geralmente exigindo que os cinemas comprassem vários “filmes medíocres” para cada “filme desejável”.  Enquanto os “filmes A” apresentavam musicais épicos, dramas e outros “gêneros refinados”, os “filmes B” traziam faroestes, policiais e histórias de horror. Eram os “filmes medíocres”, segundo os parâmetros da época. A consagração do gênero só chegaria na década seguinte. 

Calebe Lopes, mesmo tendo o horror como força condutora dos seus filmes, conta que nem sempre o enxergou de forma positiva. “A realidade é que durante toda minha vida eu fiz parte de uma família evangélica, onde horror e qualquer coisa do tipo não era tão bem visto assim. Eu cresci distante dessas narrativas e filmes, e quando descobri minha paixão na adolescência, onde passei a gostar de filmes e me considerar cinéfilo, de alguma forma eu tinha muito preconceito com o gênero, achava que era um tipo de gênero menor, como se houvesse uma hierarquia. Para mim era barato, popular, não prestava. E aí, quando eu comecei a me aproximar de alguns filmes específicos, que me levaram a outros filmes, de repente eu percebi que estava gostando. Descobri que é um gênero que me atrai muito, tanto esteticamente quanto de maneira narrativa”, argumenta. 

Pensar a consagração dos espaços de experiência dos filmes de horror é entender a engrenagem de Hollywood. A desestabilização social e econômica da Europa na Primeira Guerra Mundial, foi decisiva para a ascensão dos Estados Unidos à liderança absoluta do mercado internacional de cinema. A quantidade de longas produzidos pelos países não diminuiu no período. Contudo, nada comparado a produção norte-americana, que crescia exponencialmente. Segundo Celso Sabadin, no livro “A história do cinema para quem tem pressa” (2018), a média norte-americana de filmes produzidos entre 1914 e 1918 foi de um filme e meio a cada dia, número que ainda não integralizava os curta-metragens. Para o país, a indústria cinematográfica se tornaria o quinto maior setor econômico do país.  

A cultura cinematográfica dos Estados Unidos levou ao mundo, em 1933, o formato de cinema drive-in, que se tornaria a casa dos filmes de horror, comédia e ação. Os jovens eram os principais interessados nessa nova forma de exibir um filme, além do interesse notável pelo gênero de horror – percursinado pelo drive-in.  A qualidade da película nem sempre era o mais importante. Muitos estudiosos apontam o drive-in como fundamental nas primeiras experiências sexuais dos adolescentes norte-americanos. Com isso, o cinema consagrava-se na experiência de entretenimento, “sem se importar” tanto com o filme. Posteriormente, a partir desse modelo, surge o multiplex, um negócio que consiste no agrupamento de mais de uma sala num mesmo espaço, aplicando a oferta de vários filmes e horários de exibições. Essa lógica mercadológica é, até hoje, a mais popular ao redor do mundo.

Gabriela Larocca, aponta também o surgimento da televisão como impactante no aumento da quantidade de espectadores do gênero. “Quando a televisão entrou na vida do estadunidense médio, na década de 50, muito se falou que o cinema ia morrer. Mas, para o cinema de horror foi o contrário; porque a televisão permitiu que muitos adolescentes da época tivessem contato com filmes antigos, e se interessassem pelos filmes de horror. Muitas emissoras compraram pacotes da Universal de vários filmes, e os colocavam para as pessoas assistirem. Faziam muito sucesso”, explica.

O cinema de horror representa uma quebra de parâmetros em relação ao que se convencionou cunhar como arte. Aos olhos do público geral, uma obra de arte é algo belo, que chama atenção por sua harmonia. O cinema de horror trata do contrário: apresenta o bizarro, o estranho, algo que causa um choque visual. Ele funciona também como ferramenta sócio-política para delimitar fronteiras e espaços, colocando em culturas e comportamentos diferentes um estigma demonizado.

Para Calebe Lopes, a questão é histórica: “as narrativas de horror surgem como registro oral. É uma coisa popular, quase uma forma de entretenimento entre as classes mais baixas. Depois de um tempo, essas narrativas foram capturadas pela Igreja Católica a fim de gerar medo e controle na sociedade. Ele não foi abraçado pela burguesia, pela alta cultura, nem pela classe alta. Ele sempre foi taxado como baixo, sujo, vagabundo, sexual e tosco. Como a gente ainda vive em um mundo conservador, a tendência é sempre jogar pra baixo do tapete. O que é irônico, porque no Brasil é um gênero que sempre faz sucesso de bilheteria. Pode ser o filme mais tosco e ruim, mas se você chegar num cinema de shopping agora, terão três ou quatro filmes de horror que você nunca ouviu falar, e nunca irá, mas eles irão dar dinheiro, porque no país as pessoas assistem filmes de horror. É uma relação meio doida“.

Assim como apontado por Calebe, Gabriela reforça que o gênero aborda assuntos que são tabus na sociedade. “Não existe uma data para delimitar esse preconceito. O horror sempre foi um gênero remissivo por abordar assuntos que deixam as pessoas desconfortáveis, seja morte, degradação corporal, mutilação, monstros e essas coisas ambíguas. São temas e imagens que perturbam as pessoas. Desde muito cedo, tem essa questão de ‘porque vou assistir algo tão horrível? Algo que me deixa com nojo?’. O horror confronta muito os nossos medos e os tabus. Ele sempre foi entendido como um gênero de ‘gente que gosta de coisa estranha'”, explica

A engrenagem marcada pela estética da repetição dos clichês, pode atuar como outra questão no que diz respeito aos estereótipos e preconceitos com o gênero. O próprio horror passou a brincar com essa nuance. Em “Pânico” de 1996, o personagem Randy chega a explicar as características de alguns filmes do gênero: “Há certas regras a serem cumpridas para poder sobreviver com êxito no final de um filme de terror. Por exemplo: Número 1 – você nunca pode fazer sexo – Sexo é igual à morte, ok? Número 2 – Não se pode beber nem usar drogas, é o fator pecado. O pecado é uma extensão da primeira regra. Número 3 – Nunca, nunca, em nenhuma circunstância diga: ‘Já volto!’ Porque você nunca voltará. Se você violar as regras acabará morto“.

Randy explicando a engrenagem dos filmes de horror em cena do filme “Pânico” (1996). Foto: Divulgação/Universal Pictures
Era do pós-horror?

Recentemente, uma “nova safra” de filmes de horror conquistou a aprovação da crítica e do público, colocou o gênero no radar de algumas premiações e, consequentemente, abriu uma discussão acerca dessa “nova forma” de fazer horror. A história do gênero, no cinema, é marcada pela percepção de que, ao longo de sua existência, passou por momentos de maior ascensão, e assim como o cansaço provocado pelos slashers no final da década de 90, precisou se reinventar com frequência. 

Gabriela Larocca aponta que “O Silêncio dos Inocentes” anunciou uma nova leva de filmes de horror: “se inicia uma nova onda dos filmes de horror, que muitas pessoas dizem que é o suspense, mas ainda assim é o horror. ‘O Silêncio dos Inocentes’ marca um novo subgênero de filmes que irão chamar a atenção e fazer com que as pessoas se interessem pelo horror”.

O termo “pós-horror” foi utilizado pela primeira vez em 2017, pelo jornalista Steve Rose, num artigo para a revista The Guardian intitulado “How Post Horror Movies are Taking Over Cinema”. O jornalista inventou a expressão para se referir aos filmes de horror contemporâneos que estavam sendo lançados e que, segundo ele, fugiam da fórmula padrão dos outros filmes do gênero. Em suas palavras: “o que acontece quando vai além das convenções estabelecidas e vaga pela escuridão? Você pode encontrar algo até mais assustador. Você pode achar algo que não é assustador. O que pode estar emergindo aqui é um novo subgênero. Vamos chamá-lo de ‘pós-horror’”.

Gabriela expõe que o termo é excludente e desmerecedor para o gênero: “esse termo é péssimo. Se é ‘pós-horror’, então não é horror. Parece que você superou alguma coisa. Dá a ideia de tempo que passou, que sucedeu. Se é filme de horror, é de horror. O que temos é um novo subgênero que nasce e se populariza, ou temáticas diferentes que ganham destaque. Mas que ainda assim está dentro do horror. Para mim, isso é uma tentativa de desmerecer o gênero, porque você está dizendo que está assistindo horror mas não é horror. É como se você quisesse se distanciar do que você está assistindo, porque é melhor. Você não assiste horror. Você assiste ‘pós-horror’”, expõe Larocca. 

Lucas Claus compartilha da mesma opinião. Para ele, o termo elitiza o gênero de horror, como se houvesse uma espécie de hierarquia de qualidade entre eles. “É um termo que cunha um tipo de horror que já existia. É tudo horror”, explica. 

Para Rodolfo Stancki, o termo cunhado por Steve Rose não existe: “acho que o tipo de filme que ele queria comentar é feito há décadas nos Estados Unidos. ‘Psicose’ e ‘O Silêncio dos Inocentes’ tem elementos do que ele quis dizer com ‘pós-horror’. São filmes que deixam as pessoas estranhas, se perguntando o que é horror. Ele sempre foi um gênero de elementos diferentes, provoca várias sensações. Ele quis tentar nomear filmes que têm sido feitos pela A24, que não são tão inovadores assim”.

Fundada em agosto de 2012 por Daniel Katz, David Fenkel e John Hodges em Nova Iorque, a A24 entrou no mercado apenas como distribuidora, pois só futuramente se tornaria uma produtora. O primeiro lançamento foi “As Loucuras de Charlie” de Roman Coppola em 2012. No mesmo ano, “Spring Breakers”, estrelado por James Franco, Vanessa Hudgens e Selena Gomez, se tornou o primeiro sucesso da empresa. Hoje, é responsável pelos filmes “Moonlight” (2016) “Hereditário” (2018), “O Farol” (2019), “X – A Marca da Morte” (2022) e sua prequela “Pearl” (2022) e “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo” (2022), filme vencedor da categoria de Melhor Filme no Oscar em 2023, e o mais indicado na premiação no mesmo ano. 

Para Calebe Lopes, embora traga maior visibilidade para o gênero, de certa forma, a A24 tem elitizado as produções de horror. “Acaba-se criando uma hierarquia, uma diferenciação, como se esses filmes atuais, feitos pela A24 e os derivados, tivessem existido só agora, sendo que o cinema de terror está recheado de filmes que a A24 faz o tempo inteiro. Temos o Val Lewton, que foi um produtor de filmes baratos dos Estados Unidos nos anos 30 e 40, e que hoje, qualquer filme seu seria lançado pela A24”, explica. 

Rodolfo, embora acredite que a produtora não é “visionária”, ressalta que a mesma tem produzido histórias diferentes do que andamos vendo no cinema tradicional norte-americano.

“Se alguém acompanha festivais de cinema de horror, vai ver filmes tão ou mais inovadores que os feitos pela A24. Só que o A24 faz é colocar esses filmes para fora do cinema. É criar uma base de fãs que vai ver os filmes e admirá-los, é valorizar seus diretores e autores. Eles buscam contar histórias para grandes públicos. O que outros estúdios não estão fazendo”, completa. 

Esnobados pela Academia 

Era 1992, e a 64ª Cerimônia do Oscar acontecia. Sentados nas cadeiras do Dorothy Chandler Pavilion, em Los Angeles, atores, produtores, diretores, roteiristas e outros envolvidos na indústria, aguardavam por saber quem levariam para casa a estatueta mais cobiçada do cinema. Subindo no palco, Kathy Bates, a eterna Annie Wilkes de “Misery: Louca Obsessão” (1990), anunciava os indicados na categoria de Melhor Ator daquele último ano. Aplausos, gritos e euforia vieram acompanhados dos nomes de Robert De Niro, Robin Williams, Warren Beatty, Nick Noite e Anthony Hopkins. Num ímpeto de atenção, suspense e emoção, o vencedor foi anunciado. Era Anthony Hopkins, pelo grandioso “O Silêncio dos Inocentes”, cuja história vinha causando fascínio nos espectadores. Até ali, o filme chegava à marca do seu 4º prêmio da noite. Foi com o nome vencedor na 5ª categoria, que se tornou pertencente a um grupo seleto de vencedores do “Big Five” (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro, Melhor Ator e Melhor Atriz), que incluíam outros dois vencedores: “Aconteceu Naquele Verão” de 1934, e “Um Estranho no Ninho” de 1975. Desde então, ninguém mais. 

O diretor Jonathan Demme e os atores Jodie Foster e Anthony Hopkins de “O Silêncio dos Inocentes” no Oscar, em 1992. Foto: Divulgação/Oscars

Em 1991, “O Silêncio dos Inocentes”, adaptado da história literária do psiquiatra Hannibal Lecter, chegava às salas dos cinemas norte-americanos em plena temporada de dia dos namorados. Comumente, em Hollywood, existem três épocas do ano determinantes para o sucesso comercial de filmes mainstream: o verão norte-americano (entre julho e agosto), onde são lançados os maiores blockbusters dos estúdios; o Natal (dezembro), quando os dramas familiares e as comédias românticas assumem o protagonismo dos lançamentos e o Halloween (em outubro) quando os filmes de terror ganham destaque nos sistemas de exibição. Lançar um filme de suspense em pleno fevereiro, definitivamente não fazia parte da programação rotineira da indústria. Entretanto, a escolha não foi um empecilho para o sucesso da obra. Naquele ano, o filme tornou-se a quinta maior bilheteria em todo o mundo. E, no ano seguinte, com suas cinco categorias vencidas no Oscar, se tornaria o primeiro filme amplamente considerado como um filme de terror a vencer o Oscar de Melhor Filme. 

A consagração de “O Silêncio dos Inocentes” naquela cerimônia de 1992, representava uma conquista e um avanço na história do cinema de horror.

“O filme vem em um momento em que o horror era marginalizado dentro da história. Juntamente com o fim da década de 80 e início da de 90, carrega-se o pensamento de que se devia investir mais no cinema de horror. Muitas estrelas se tornaram estrelas por estarem em filmes de horror. A partir dali, começa-se a olhar o gênero a partir de um lugar de menos preconceito”, contextualiza Rodolfo.

Segundo Larocca, nos anos 80, no cinema, temos o reinado do slasher com “A Hora do Pesadelo” (1984), “Halloween” (1978) e “Sexta-feira 13” (1980), e quando “O Silêncio dos Inocentes” é lançado no começo dos anos 90, ele muda o tom dos filmes de horror. “Eu acho que isso é uma das principais questões de quando esse filme é lançado, para além de um filme ‘oscarizado’, que é esse horror mais ‘psicológico’, com muitas aspas. Você ainda tem o grande vilão que é o Hannibal Lecter, mas ele já não é mais nos moldes de Jason [‘Sexta-Feira 13’]. É um bom exemplo do esgotamento dos slashers no começo da década”, finaliza Larocca. 

Anthony Hopkins como Hannibal Lecter em “O Silêncio dos Inocentes”. Foto: Divulgação/MGM Studios

Quantos filmes de terror foram indicados a Melhor Filme no Oscar? A resposta é seis: “O Exorcista”, em 1974; “Tubarão”, em 1976, “O Silêncio dos Inocentes”, em 1992; “O Sexto Sentido”, em 2000; “Cisne Negro”, em 2011; e, recentemente, “Corra!” em 2018. É uma lista pequena se comparada a longínqua existência do gênero. A premiação, que tem por objetivo premiar os “melhores filmes” do último ano, quase não abre margem para que obras de horror sejam incorporadas na lista de indicados, seja pelo histórico de premiar filmes dramáticos, e pelo preconceito com o gênero. 

Dentro dos limites da indústria cinematográfica, foi construída a noção de Alta e Baixa Cultura. Por Alta, entendia-se tudo aquilo que era pautado a partir de um discurso acadêmico, que atingiu o status de clássico. A Baixa Cultura servia para designar o que era popular. Em termos gerais, o horror se enquadrava na segunda categoria. Tudo isso serve para escancarar o elitismo presente na forma como o horror é visto hoje. Seus próprios espaços de congregação, associados a jovens e preços baixos, escancara a visão que a Academia e outros indivíduos têm. “Pânico”, novamente, brinca com a engrenagem que ronda o gênero, e fornece duras críticas aos ideais estigmatizados em torno dele. No quinto filme da franquia, Tara, interpretada por Jenna Ortega, diz só assistir a “horror elevado”. 

Lucas Claus, apaixonado pelo horror, conta que costumava acompanhar a premiação, mas que algo se modificou no meio do percurso: “eu gostava de acompanhar Oscar, mas nos últimos anos, com tantas produções interessantes do horror sendo feitas e ignoradas, não acompanho mais com tanta atenção. No fim, para a Academia é tudo uma questão de lobby”, expõe Lucas. 

Em fevereiro de 2020, a Folha publicou uma matéria a respeito da questão envolvendo a prática de lobby dentro da premiação: “’e o Oscar vai para’… quem tiver grana para fazer lobby com os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. A campanha para emplacar uma produção entre os indicados da premiação, afinal, não depende apenas da excelência dos concorrentes”. No texto em questão, Fernando Meirelles é citado pela sua participação no Roda Viva. Na ocasião, o diretor afirmou que a indicação por “Dois Papas” (2019) não veio de graça. Ele conta que cancelou quatro meses de compromissos para cumprir uma série de festas e debates, e provar que seu filme “merecia ser lembrado”.

Calebe Lopes, a respeito das indicações, aponta outra questão a ser levada em conta: o gênero precisa estar a todo momento provando seu “valor”. “O Oscar é uma premiação americana, eles têm os próprios interesses deles. É uma celebração da indústria, um evento pro mundo inteiro assistir. Tem uma coisa de prestígio. E ao mesmo tempo ele lida com vocação. São centenas de pessoas tendo que assistir filmes, e muitas vezes eles não assistem a todos os indicados. Os votantes só vão assistir as coisas que são mais hypadas, tem toda aquela questão da energia, do burburinho que os filmes acumulam quando lançam. Tem aquela coisa de fazer sucesso, a questão de quem realiza, de que muitas vezes, para um realizador de filmes de horror conseguir certo prestígio, ele precisa ter feito outros filmes antes, talvez que não sejam de horror. Ele precisa fazer com que as pessoas o notem, ele tem que ter um histórico maior”, pontua. 

A escolha dos indicados e dos vencedores, em todas as categorias do Oscar, ocorre por meio de votação entre os membros da Academia, que passaram a fazer parte dela por meio de um convite. Atualmente, a presidente da Academia é Janet Yang. No que diz respeito à diversidade, por muito tempo, foi composta por homens héteros brancos. Hoje, após críticas, segundo dados do G1, em 2022, os convidados a pertencer ao seleto grupo representam 44% de mulheres, 37% de minorias ou grupos com pouca representatividade, e 50% de países fora dos Estados Unidos. Entretanto, a elitização e a branquitude se mantém. 

Gabriela Larocca aponta a tendência do Oscar a sempre priorizar os filmes de drama. “É uma história conturbada, porque não temos tantos filmes de horror quanto gostaríamos dentro da premiação. Mas, conhecendo o Oscar, faz sentido, porque é uma premiação muito sistemática, ela é muito fechada em si. É uma ideia muito antiga de cinema, que enxerga como uma grande performance, um grande esforço, o filme épico, que envolve um grande esforço, ou um dramático. Isso acaba deixando o horror de fora”, explica. Ela ainda acrescenta que o Oscar já funcionou como termômetro de prestígio, mas que isso não ocorre mais. “Há algumas décadas atrás, ganhar um Oscar era um selo de qualidade. Hoje em dia essa concepção foi desmistificada. Sabemos que quando um filme ganha o Oscar de Melhor Filme, em certas ocasiões, ele não é o melhor daquele ano. ‘Green Book’ (2018) ganhou em 2018, e ele não é um Melhor Filme. Assim como é o caso da Gwyneth Paltrow ter ganhado Melhor Atriz por ‘Shakesapere Apaixonado (1998)'”, conclui. 

31 anos se passaram desde que um filme de horror conseguiu vencer a categoria de Melhor Filme no Oscar. Dessa forma, quando “Corra!” (2017) conseguiu sua indicação em 2018, a impressão foi de que uma mudança estava por vir. Mas não foi bem assim. Segundo Calebe Lopes, para mudar esse cenário, um dos primeiros passos é a troca de votantes. “Eu acho que essa batalha é perdida, de certa forma. Ao mesmo tempo que têm ocorrido mudanças nos últimos anos. Tanto ‘A Forma da Água’ (2017) ganhando o Oscar de Melhor Filme, e ‘Corra!’ ganhando Melhor Roteiro Original, foram indicativos muito bons que a coisa mudou. Parece que vai e vem, que tem ondas. De certa forma, isso é reflexo da indústria, do ciclo do capitalismo, o que está vendendo, o que está bombando. ‘Vamos investir nisso’, mas daqui a pouco ninguém está mais ligando. O Oscar tem essa característica”, argumenta. 

“Corra!” (2017) de Jordan Peele. Foto: Divulgação/Universal Pictures

Na premiação de 2023, Jamie Lee Curtis venceu por seu papel como atriz coadjuvante em “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo” (2002). Em seu discurso, ela aproveitou para agradecer e dedicar o prêmio a todos que apoiaram seus filmes de gênero nos últimos anos. Calebe Lopes relembra o momento em que estava assistindo ao discurso da atriz: “eu adoro a Jamie Lee Curtis, acho ela incrível. Ela fez alguns dos meus filmes de horror favoritos. Eu acho que falta isso. No cinema, assim como na vida, tudo é questão de privilégio, quem está com holofote em si, o que essa pessoa vai fazer? O que é que eu vou falar que pode reverberar de alguma forma no que eu faço? Eu acho que é uma forma em que ela encontrou, em honrar o tipo de filme que ela sempre fez, que a lançou no mercado. O primeiro papel dela é ‘Halloween’, e o grande papel da mãe dela é ‘Psicose’ (1998). Eu espero que o que tenha trazido, é que ela tenha despertado de alguma forma nas pessoas que estão assistindo a querer procurar esses filmes”.

Jamie Lee Curtis, a “final girl” de “Halloween”. Foto: Divulgação/Compass International Pictures

Reconhecer títulos seria uma forma de dar mais relevância ao Oscar, assim como apontado por Mia Goth. Entretanto, entre reconhecimentos e esnobações, a Academia permanece ignorante ao poder do gênero de horror, ainda ancorada nos ideais conservadores do passado. Por outro lado, mudanças podem chegar.

“Um filme de horror ganhar um Oscar hoje é muito mais fácil que antigamente. Existe todo um conceito de expansão, que já não é mais o clássico. Um filme esquisito como ‘Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo’ ganhar, mostra que é bem possível que o próximo seja um filme de horror estranho, que passe algum tipo de inovação, que toque as pessoas e seja minimanente um fenômeno”, pontua Rodolfo.

“O horror sempre vai carregar o estereótipo de lixo. Mas tenho visto mudanças nesses últimos tempos. Acho que produtoras igual a A24 tem conseguido evidenciar esse gênero. Espero que daqui alguns anos a gente possa ter outra conversa”, conclui Leonardo. 

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Isabella Breve
Isabella Breve

Futura jornalista, leitora voraz, amante da Sétima Arte e eternamente fã.

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