Crítica | Mulher do Pai – Uma História Sutil Sobre Relações Complicadas

Um retrato interessante e intrigante sobre uma relação familiar.

O filme brasileiro Mulher do pai, lançado em 2016, é uma das novas adições ao catálogo de abril da plataforma MUBI. Com lindas paisagens, sutileza e uma história íntima, Mulher do Pai consegue se destacar em trazer uma realidade diferente e as complicações entre certas relações familiares.

Cena do filme com Nalu em um dia com neblina procurando por alguém
Nalu está em constante busca por aventuras e uma vida fora de seu lar.

O filme segue Nalu (Maria Galant) e Rúbens (Marat Descartes) e a relação complicada de pai e filha que possuem. Nalu precisa cuidar de seu pai cego após o falecimento de sua avó, que cuidava dos dois como se fossem irmãos. A narrativa então se alterna de modo bem suave entre Rúbens e Nalu, mostrando aos poucos o desenrolar de seus anseios e frustrações.

Relações Silenciosas e Intrigantes

Nalu é uma jovem do interior que só quer escapar da vila em que vive. Sua relação com seu pai não é das melhores. Mesmo assim, os dois demonstram diversos traços similares através do silêncio que carregam e a maneira com a qual lidam com as coisas. Após a morte de sua avó, Nalu ganha responsabilidades adultas com as quais não está pronta para lidar, e isso dificulta ainda mais sua relação com seu pai.

Rúbens, por outro lado, está recluso e abalado pela morte de sua mãe. O personagem é um retrato intenso de um homem que sofreu muitas perdas em sua vida e acaba também perdendo a si mesmo no processo. Sua jornada começa após notar o quanto Nalu cresceu e amadureceu. O caminho de Rúbens o leva em busca de autonomia e uma felicidade que não possui há anos. Marat é incrível no papel, transmitindo com facilidade cada alteração de humor do personagem.

A vida dos dois começa a tomar novos rumos quando Nalu se torna amiga de sua professora de arte Rosario (Veronica Perrotta) e pede que ela dê aulas para seu pai. E apesar do rumo que a narrativa toma a partir desse ponto ser algo bem esperado, as atuações dos personagens e a sutileza das cenas são a força que carrega a obra.

Cena de Mulher do Pai, Nalu e seu pai ao lado de fora de casa conversando
Mulher do pai, de Cristiane Oliveira, lançado em 2016 – Disponível na plataforma MUBI – Reprodução.

Uma das cenas mais fortes do filme ocorre com os 3 personagens juntos. Em uma aula de Rosario, tanto o pai quanto a filha possuem um momento tocante, que diz muito sobre os traumas que cada um carrega. A cena é linda e intensa, mostrando o desejo de uma relação vinda de Nalu do mesmo modo que diz muito sobre os traumas de Rúbens.

Os Detalhes que Fazem o Filme Brilhar

Mulher do pai se utiliza de ideias interessantes tanto na produção como em algumas escolhas filosóficas do roteiro. Vemos desde pequenas coisas, como Rúbens não lembrar de abrir a janela de seu quarto, até o uso de alguns enquadramentos para explorar a sensação dos personagens.

A paisagem e locação têm papel importante em criar as percepções do que cada personagem está passando. O filme possui diversos planos abertos que mostram a vastidão do campo em que vivem, assim como ajudam a retratar a solidão desses espaços vazios. Então, conforme a narrativa avança, esse recurso é utilizado para mostrar mais da pequena vila e desfazer a solidão dos personagens conforme buscam conforto em novas relações.

No entanto, nem todas as cenas são bem utilizadas: existem alguns momentos que podem desgastar por seu ritmo lento além do necessário. Até mesmo pequenos acontecimentos que possuem objetivos mais diretos poderiam ter sido mais pontuais, a fim de trazer um pouco mais de ritmo para a trama.

Nalu e sua professora Rosario em uma estação de trem abandonada conversando
A personagem Rosario é o alivio necessário para a trama e para os personagens.

O filme faz certas comparações que podem causar ambiguidades um pouco desconcertantes. O próprio título mostra o foco na relação de Rúbens e as mulheres de sua vida. Portanto, existe nisso uma leitura possível sobre a função de mulher que é dada para sua filha após a morte da avó. Vemos uma complexidade da filha em tomar um papel que não deseja, mas tendo que lidar com ciúmes que aparecem por querer uma relação saudável com o pai.

Conclusão

Apesar de uma história mais devagar, que pode não agradar a todos, Mulher do Pai tem um elenco forte e uma narrativa inteligente. O roteiro sabe trazer ideias interessantes, bem como pequenos detalhes que representam toda a complexidades dos personagens.

Com diversas leituras possíveis sobre os arcos dos personagens e suas relações, Mulher do Pai possui bastante para se debater. Ele mostra que não precisa de momentos grandiosos ou momentos explosivos para contar uma narrativa instigante e calma.

Em conclusão, Mulher do Pai traz uma proposta de reflexão interessante sobre uma vida mais afastada da cidade grande, sendo outra ótima adição ao catálogo do MUBI.

Confira o trailer do filme:

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Pedro Agnelo Camargo Goes
Pedro Agnelo Camargo Goes

Estudante de semiótica, apaixonado por séries, filmes e games e tudo que envolve cultura. Sempre aberto pra filosofar sobre aleatoriedades do dia a dia

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