Crítica | “120 Batimentos Por Minuto”: a militância como ela (ainda) é

Relato semiautobiográfico do realizador Robin Campillo, “120 Batimentos Por Minuto” apresenta um corte histológico da vivência (e militância) LGBT em Paris no início dos anos 90.

Na imagem do filme "120 Batimentos por Minuto", temos Thibault (Antoine Reinartz), vestido com uma jaqueta preta com adesivos do movimento Act Up Paris colados, de frente a uma janela manchada de sangue falso e com cartazes pregados, escritos "ASSASSIN" ("assassinos", em francês). Thibault está manchado com o sangue falso, de forma a parecer que machucou a cabeça.
Manifestação pacífica contra uma influente farmacêutica francesa. Fonte: RTBF.

Imagine uma situação de completo caos social no mundo, em que você está suscetível a ver todos aqueles com quem você se importa mortos, sem saber quem é o próximo, sem saber se vai ser o próximo. Imagine que há apenas uma forma de prevenção efetiva para evitar contrair este mal, mas que as pessoas se recusam a utilizá-la, e as instituições ou abominam ou desencorajam o uso. Imaginou? É uma pandemia. E spoiler: não é a que estamos vivendo hoje.

Relato semiautobiográfico do diretor, roteirista e montador Robin Campillo, 120 Batimentos Por Minuto nos lança diretamente no olho do furacão: em Paris, no início dos anos 90, quando a AIDS ainda era a mais cruel das sentenças de morte, o poder público pouco se importava em conscientizar, e a indústria farmacêutica pouco reagia. Neste cenário, acompanhamos ações da ACT UP de Paris, grupo criado em 1989, dois anos depois do início do movimento original nos EUA.

Por seu caráter um tanto biográfico, o filme eventualmente afunila o seu foco nas relações entre dois personagens centrais dentro da militância parisiense: o ativista soropositivo Sean (Nahuel Pérez Biscayart) e o novato Nathan (Arnaud Valois), que não tem a doença. O grande problema dessa decisão é que essa afunilação começa apenas aos 50 minutos de filme, quando já estamos acostumados com a perspectiva mais ampla a respeito da ACT UP e de seus membros como um todo.

Um espécime do “povo animado” LGBTQIA+, como diria o meme. Fonte: Reprodução.

Desta forma, a obra demora ainda mais um pouco para entrar de cabeça na relação entre Sean e Nathan e, quando o faz, deixa de lado personagens interessantes que poderiam ter sido mais explorados, como Thibault (Antoine Reinartz) e Sophie (Adèle Haenel).

Além disso, também muda drasticamente de um ritmo mais forte e agressivo, como indica o título da obra (que, por sua vez, é referência não apenas aos batimentos acelerados de um coração, mas também ao ritmo da house music, comum na época e que embala algumas das cenas em protestos, baladas e paradas), para um ritmo mais oscilante, por vezes letárgico, muito como o embalo da morte que aguarda, certeira, por Sean.

Apesar de seu ritmo um tanto descompassado, 120 Batimentos Por Minuto não escorrega para o melodrama e o excesso, e tampouco se acovarda diante de dualidades e de áreas cinzas: retrata a comunidade LGBTQIA+ e suas cisões com tanta veemência que, não fosse o tema tão pungente e tão historicamente localizado, poderíamos estar assistindo a uma reunião de um coletivo atual.

As discussões e discordâncias entre os membros da ACT UP de Paris não são poucas, e alguns momentos e decisões parecem risíveis (e, não obstante, por vezes são apontados por personagens secundários como o sendo) diante da tragédia que enfrentavam; mas, no final das contas, estes momentos não nos deixam esquecer que este é um relato extremamente focado nos anos 90 e na vivência de homens gays cis vítimas da AIDS.

Considerando-se isto, 120 Batimentos Por Minuto talvez teria terminado de forma bem mais poética e alegórica se fosse encerrado quase 20 minutos antes, com a cena do Rio Sena vermelho (algo que nunca ocorreu, mas que os ativistas da ACT UP de fato sempre planejaram) ao som das últimas respirações de Sean.

Contudo, o final verdadeiro é muito mais real, mais doloroso, e mais pungente, nos deixando com o amargo gosto de que a luta pelo mais básico direito das pessoas LGBTQIA+ – o de viver – não tem fim.

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Confira o trailer de 120 Batimentos Por Minuto:

Se interessou pelo filme? Ele está disponível no Globoplay, e será liberado de graça neste fim de semana (de 25/06 a 27/06) na plataforma da Reserva Imovision. Também está disponível em mídia física pela Imovision.

Caso tenha dúvidas sobre HIV/AIDS, nós do Otageek recomendamos o Deu Positivo, e Agora?, uma iniciativa da UNAIDS.

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Gabriela Spinola
Gabriela Spinola

Tradutora, mineira, e eternamente emo.

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