Crítica | Os corações que se curam em ‘A Galeria dos Corações Partidos’

O filme é dirigido por Natalie Krinsky, juntando-se à linha de sucessão de diversos filmes dirigidos por mulheres lançados em 2020. No elenco, temos Geraldine Viswanathan (Não Vai Dar!) e Drace Montgomery (Stranger Things). A obra chega em plataforma digital distribuída pela Sony.

Casal sentado em um velho sofá tomando casquinha de sorvete

O cinema americano está recheado de filmes que se propõem a desconstruir o gênero da comédia romântica, mas muitos deles acabam com o tiro saindo pela culatra e não conseguem finalizar o próprio argumento. Porém, A Galeria dos Corações Partidos está mais preocupado em entregar uma comédia romântica agradável para um público moderno, que busca um entretenimento escapista, ao mesmo tempo em que visa a geração atual.

A história gira em torno de Lucy (Geraldine), que é uma romântica incurável, mas com dificuldades de encontrar um relacionamento longo e duradouro. Após passar por mais um término, ela conhece Nick (Dacre), um jovem quebrado de dinheiro lutando para conseguir montante para abrir o seu negócio. Logo ambos começam uma amizade calorosa, aos poucos se conectando e alimentando um romance enquanto curam os seus corações partidos.

Não é fácil inovar a comédia romântica, mas ‘A Galeria dos Corações Partidos’ foca seu tempo em um comentário social em cima da rapidez que os relacionamentos atuais possuem. Tudo precisa ser rápido, a pessoa automaticamente precisa ser o amor da sua vida em três meses de namoro, mas nenhuma das partes está preocupada em dialogar, apenas fingir sentimentos para buscar uma falsa conexão amorosa.

O relacionamento entre Nick e Lucy consegue se diferenciar por mostrar ao espectador o que falta no namoro moderno. Aqui temos dois jovens apenas se permitindo uma conexão sem o glamour, sem as altas expectativas de um relacionamento e muito menos a vontade de cultivar sentimentos um pelo outro. Apenas passam tempo juntos e vão se encaixando… onde um falha, o outro acerta, e assim criam um relacionamento amoroso verdadeiro.

Dois jovens brincando com uma moldura em uma loja

Esse é o maior acerto de Natalie Krisnky, enquanto roteirista do filme, por ter sido certeira logo no ponto principal da questão. Todavia, se tivesse cortado um pouco do excesso de piadas, causaria menos desconforto no espectador, uma vez que as piadas dentro dos filmes não conseguem ser bem encaixadas, principalmente aquelas ligadas aos movimentos sociais feministas: todas parecem terem sido tiradas de alguma thread do twitter.

O roteiro também perde um pouco de tempo floreando demais a trama com cenas que não somam à narrativa. Percebemos que estão lá apenas para gerar mais piadas que não resultam em muita comicidade. Entretanto, são seguras pelo talento do elenco.

Geraldine tem grandes habilidades para a comédia. Desde ‘Não Vai Dar!’, a atriz tem provado possuir garra para o humor devido ao seu grande carisma e à fluidez de sentimentos, passados em tela com tamanha naturalidade.

Enquanto isso, Dacre segura o papel mais Mr. Darcy (O Diário de Bridget Jones) do filme: um homem ranzinza e introspectivo que, no entanto, vai mudando de perspectiva com a influência da mocinha. E o ator segura esse papel muito bem, fugindo da caricatura estereotipada que o personagem poderia gerar com performances vazias.

Uma jovem mulher encara de forma engraçada um homem enquanto segura um saco de lixo

Natalie, por sua vez, conquista a direção pegando um pouco de cada ator principal e moldando seu próprio estilo, o que é muito incomum para uma diretora fazer. Porém, aqui, Krinsky parece habitar na atmosfera do longa pela ótica de seus atores, dando uma sensação de profundidade ao visual otimista do filme.

A obra cinematográfica, da mesma forma, acerta ao trazer múltiplas visões sobre diversos relacionamentos. Isso dá certa sagacidade ao filme, porque deixa claro, na visão leiga, que o longa está abrangendo diversos formatos diferentes de relações. Mesmo que por apenas alguns segundos, somos capazes de ver como até os mais diferentes padrões de relacionamento se encontram dentro do comentário do longa.

Além disso, há comentários sobre como certos casais se acomodam muito ao invés de buscarem por uma conexão mais profunda, como é o caso de Amanda (Molly Gordon), que está em uma relação obviamente estranha. Enquanto isso, Nadine (Phillipa Soo) parece cair dentro da modernidade, rejeitando os rótulos padronizados e monogâmicos de relacionamento. Assim, ela acaba não se permitindo ter vínculos mais profundos e reais com outras mulheres.

Três amigas deitadas em um tapete rindo e dando as mãos

Lucy, por sua vez, vive remoendo sentimentos mal resolvidos dentro de sua cabeça, ao ponto de não se abrir completamente dentro de uma relação mais intimista. Ela passa muito tempo apenas se enganando com pessoas erradas até que conhece Nick, um homem que a vê por cima de todas as suas falhas, elevando a autoestima da moça e revigorando o brilho em seus olhos. Contudo, ao invés de tomá-la para si, o rapaz incentiva Lucy a conquistar seus objetivos e a viver a vida apenas para ela mesma.

Pelo aqui exposto, mesmo que o filme entregue uma narrativa muito batida, o comentário social acerca dos namoros de Millenials e da Gen Z eleva o nível do que poderia ser um grande prato de mesmice. Portanto, a direção e o roteiro de Natalie conseguem captar bem a essência da mensagem principal do longa e direcioná-la, apesar de algumas vezes se perderem dentro de sua própria visão.

O ponto fraco do filme se encontra na montagem:ela acaba trazendo um ar de aleatoriedade, fazendo com que o espectador se perca em momentos bobos e não consiga pegar os sinais e as chaves essenciais para entender algumas cenas bem mais profundas. Assim, o crescimento de personagens é afetado pelo modelo picotado da trama.

Por fim, ainda que possua pequenos defeitos, ‘A Galeria dos Corações Partidos’ demonstra haver espaço para a comédia romântica contemporânea: trazendo comentários novos e rebuscando narrativas de fórmulas antigas, o filme encontra sua própria identidade. Seria divertido ver mais obras tentando estilos parecidos, porque vale muito a pena dar consciência para esse tipo de humor, que antes era tão problemático e hoje se encontra abordando temas mais sinceros.

Jovem casal apaixonado interagindo em um espaço fechado

Só lembrando que o filme está disponível para aluguel e compra no serviço On Demand da Sony e em operadoras de TV a cabo como Now, Oi Play e Vivo Play. Também se encontra em lojas digitais como Apple TV, Google Play, Looke e Microsoft Filmes, nas resoluções HD e 4K. A exemplo de Adoráveis Mulheres, Bad Boys para Sempre e Um Lindo Dia na Vizinhança, A Galeria dos Corações Partidos também está disponível em um período de 48 horas após o aluguel.


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Riuler Luciano
Riuler Luciano

Jornalista Cultural, Analista de Inbound Marketing e Branding, cresceu lendo quadrinhos dos X-MEN é amante de Cultura Pop e Pequi!

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