Entrevista | Richard Pace – O desenhista canadense que roteirizou Batman: Sina Macabra12 minutos

Entrevistamos o autor da adaptação de O Caso Charles Dexter Ward e A Cor que Caiu do Céu, de H.P. Lovecraft, para a versão de Batman, na antiga Elseworlds.

Dia 26 de abril comemora-se mundialmente o Alien’s Day, o Dia do Alien, a criatura da franquia Alien, tanto no cinema quanto nos quadrinhos, que atende pelo “nome científico” de xenomorfo. 

Para comemorar o mês da besta, o Otageek realizou uma série de entrevistas com roteiristas e desenhistas que de alguma forma fizeram parte da franquia ou do universo lovecraftiano (o universo concebido pelo escritor norte-americano H.P. Lovecraft), que serviu de base para a criação do xenomorfo.

Organograma mostra o bestiário lovecraftiano

A concepção da criatura adveio do pintor e escritor suíço H.R. Giger, que se inspirou em Lovecraft e seu bestiário para criar a estética dos xenomorfos. Ninguém percebeu que a Rainha Alien é uma releitura do Grande Cthulhu?

Richard Pace apresenta seu desenho do Demolidor

Richard Pace, ilustrador e roteirista canadense trabalhou com algumas publicações da Marvel como X-Men, Os Novos Guerreiros e seu líder fundador, Radical (Night Thrasher), o personagem Terror da publicação Terror Inc. e Midnight Sons Unlimited. Para a DC, trabalhou com Starman e escreveu, junto com o lendário Mike Mignola, a HQ Batman: Sina Macabra (Batman: The Doom That Came to Gotham), uma releitura de O Caso Charles Dexter Ward com elementos de A Cor que Caiu do Céu, de H.P. Lovecraft.

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Otageekers, com vocês, Richard Pace.

Richard Pace na convenção de quadrinhos
Otageek- Você começou a desenhar ainda criança? Qual a sua idade quando começou a desenhar?

Richard Pace- Algumas das minhas primeiras memórias são de desenhos, então acho que sempre esteve lá. Ouvi dizer que a principal diferença entre os adultos que desenham e os que não desenham é que o primeiro grupo simplesmente não parou.

“A principal diferença entre os adultos que desenham e os que não desenham é que o primeiro grupo simplesmente não parou.”

Otageek- A maioria começa a desenhar ainda criança. Muitos dizem que basta se dedicar que qualquer um continuará a desenhar a vida toda. Basta estudar é necessário talento?

Richard Pace- Eu acho que o talento é superestimado, mas existe. O esforço consciente tem que ser o maior componente. Ter uma inclinação natural para a arte é bom, ter uma formação acadêmica é bom, mas nada supera o ato de desenhar com frequência e fazê-lo com a mente pronta para superar fraquezas ou lacunas em suas habilidades. Estou nessa como profissional há mais de 30 anos e ainda tento melhorar.

Otageek- Qual a sua formação? Onde se graduou em ilustração?

Richard Pace- Eu estudei ilustração de livros no Sheridan College. Foi um curso de três anos; um ano em princípios de arte mais básicos para desenhos, cor e composição, um ano aprimorando essas habilidades mas introduzindo especificações e conceitos mais avançados de ilustração e o último ano com foco maior/menor.

Otageek- Antes de se tornar ilustrador, você já trabalhou em outra área? Já ilustrou algo além de quadrinhos?

Richard Pace- Eu fiz alguns poucos trabalhos para ajudar a pagar as contas já que encontrei mais clientes nos primeiros dias, incluindo um estranho trabalho de colorir antigos filmes e curtas d’O Gordo e o Magro. Como artista, fiz alguns do habitual e até Stranger Things, tanto na série quanto no jogo, mas também desenhei e ajudei a criar adereços pra festas e eventos.  

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Otageek- Seus últimos trabalhos são Imaginary Fiends para a DC Comics, Hack/Slash, The Death Tally e Lovebunny Zoop da Kickstarter e West of Sundown e Barbaric, ambos os títulos da Vault Comics. Pode falar um pouco sobre eles?

Richard Pace- A grande maioria dos trabalhos ali são como capista, onde eu tento destilar a essência do projeto em uma imagem que atrairá o público-alvo com o melhor das minhas habilidades. Espero que as imagens das capas falem por si só e o trabalho seja autoexplicativo.

Death Tally, da Valiant Comics
Capa alternativa da HQ Death Tally

Quando escrevi e desenhei quaisquer desses projetos, eu poderia ir aos comos e porquês das escolhas criativas, mas capas e pin-ups são um processo altamente criativo-reativo em ver o trabalho de outros e usando-os como sua “musa”.

Otageek- Hack/Slah foi publicado, inclusive, por três outras editoras (Devil’s Due Publishing, Image Comics e Dynamite Enterteinment). A série está de volta?

Richard Pace- Não tenho certeza se acabou. Tim (Seeley) tem feito alguma coisa com Hack/Slash todo o tempo em que o conheço, mas com pequenas pausas enquanto dá conta de outro trabalho. Nós até conversamos a respeito de eu desenhar uma história curta para uma futura coleção.

Hack/Slash no traço de Richard Pace
Os personagens Hack e Slash, da HQ homônima, no traço de Richard Pace

Otageek- Você parece ser um grande fã de de terror e rock and roll. Quais artistas te influenciaram? Em ambas as vertentes, terror e música? Tem bandas brasileiras que você conhece ou curte? 
Kurt Cobain no traço de Richard Pace
Kurt Cobain no traço de Richard Pace

Richard Pace- Eu acho que Sepultura deve ser a única banda brasileira que conheço nesse estilo. Quando era moleque, amava Alice in Chains, Kiss e outras bandas de rock teatral. Eu cresci em Winnipeg, Manitoba, que era o principal celeiro de heavy metal da América do Norte na época (e talvez ainda seja), então Judas Priest, Black Sabbath e Iron Maiden foram a trilha sonora da minha adolescência, mas eu também curti David Bowie e a segunda invasão britânica da época, que me eximiram de ser um moleque metaleiro por completo. 

Otageek- O Traço realista italiano esteve em voga até os anos 1980. Nos anos 1990, houve uma ascensão do mangá, que ganhou mais e mais notoriedade, assim como o ligne claire, especialmente após o Batman: The Adventure Series. Mike Mignola parece ter trazido o expressionismo alemão para os quadrinhos e Eduardo Risso misturou todos os estilos. Seu estilo é bastante hachurado e você parece utilizar bastante preto e branco. Com qual deles você tem mais afinidade?

Richard Pace- Eu acho que desenhar com tinta é o que me deixa mais feliz. Eu amo pintar, mas eu sinto que não faço o suficiente para me deixar satisfeito em qualquer instância. Toda vez que decido pintar alguma coisa, geralmente  acaba como mais um experimento em mídia e técnica.

A Morte, do universo de Sandman, Paul MacCartney e Ringo Star, dos Beatles

Com tinta e cor digital, sinto que resolvi minha abordagem ao trabalho, mesmo se terminei fazendo alguma coisa nova para um determinado trabalho. Eu geralmente termino em um estado zen, enquanto que, na pintura, estou sempre naquele estado de pânico moderado sobre o que fazer a seguir enquanto tento não estragar tudo. 

Otageek- 26 de abril é o dia internacional dos xenomorfos, as criaturas que se tornaram mundialmente conhecidas pelo filme Alien, o Oitavo Passageiro e suas continuações. Você já fez algumas ilustrações dos xenomorfos. Você já teve a oportunidade de trabalhar com os quadrinhos do Alien (ou do Predador)?

Richard Pace- Eu adoro desenhar o bicho, mas não sei se gostaria de desenhar um quadrinho oficial. Muitas das sequências e das “histórias nunca antes contadas” têm sido altamente frustrantes. Consigo lembrar de apenas duas boas (Mignola desenhou uma, Killian Plunkett, a outra) enquanto o resto foi, em última instância, dispensável, mesmo as que foram assinadas por artistas talentosos. 

O xenomorfo no traço de Richard Pace
Otageek- H.P. Lovecraft é uma referência (inclusive para os xenomorfos) e tivemos recentemente a última adaptação de A Cor que Caiu do Céu, com Nicholas Cage. Embora seja desenhista, você atuou como roteirista em Batman: Sina Macabra. O quadrinho é uma adaptação de O Caso Charles Dexter Ward e a capa é de Mike Mignola (altamente influenciado por Lovecraft), com quem você dividiu o roteiro. Qual foi a inspiração para o quadrinho?    
Capa original da HQ Batman: Sina Macabra
Capa original da HQ Batman: Sina Macabra

Richard Pace- Lovecraft foi uma descoberta posterior a Robert E. Howard, então aquele tipo de ficção sobrenatural está nas minhas veias. Eu dei a ideia do projeto ao Mike, ele gostou e demos continuidade. Em termos de inspiração, acho que a minha raiz começa com uma mistura de Lovecraft, (Michael) Moorcock e um pot-porri de contos de fadas e mitos que li quando criança.

Página da coletânea Robert E. Howard's Savage Sword
Página da coletânea Robert E. Howard’s Savage Sword
Otageek- O cinema canadense, bem como o metal, o rock e sua música eletrônica são bastante pitorescos. É como se o Canadá tivesse moderado a sua “hollywoodização”, utilizando cenas que não são tão cliché ou ao menos utilizando-os de forma original. Temos grandes nomes do quadrinhos canadenses como você, James Stokoe e Todd McFarlane. Como é a cena canadense dos quadrinhos e sua perspectiva mundial em relação aos EUA? Como é o mercado para artistas de  quadrinhos no Canadá? Você já trabalhou com cinema (roteiro ou storyboard)? 

Richard Pace- Eu acho que a cena de quadrinhos do Canadá tem sempre um componente vital dos quadrinhos de faroeste. Jeff Lemire (autor de Sweet Tooth, O Velho Logan, Homem Animal dos Novos 52,  Black Hammer…),  como um canadense que é, é quase uma “indústria de um homem só”.

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Eu fiz o design de produção e storyboarding para TV e filme, para o Canadá, bem como projetos internacionais no passado. Não faço isso há um bom tempo… há uns quinze anos.

Otageek- Você teve algumas ilustrações censuradas nas redes sociais por serem muito eróticas. Como você vê essa censura nas suas releituras eróticas dos quadrinhos?

Richard Pace- Eu ainda nunca trabalhei com quadrinhos eróticos, então, não posso opinar com conhecimento de causa. Parece haver uma vasta motivação mercadológica como desculpa por trás da censura, mesmo que seja facilmente exposto como um absurdo. 

A censura no Instagram é apenas uma outra justificativa de como a arte ali postada é, em grande parte, irrelevante para o seus proprietários – o produto real são as pessoas que usam os aplicativos, não as pessoas que fazem arte. Qualquer coisa que possa incomodar os anunciantes é ruim e substitui qualquer preocupação dos artistas que desejam usar a plataforma. 

Otageek- Você fez algumas ilustrações recentemente em favor da Ucrânia e várias contra o racismo e a homofobia. Como você vê a atual situação da invasão da Rússia no território ucraniano? Na sua opinião, qual a motivação por trás dessa guerra?
Jesus confere o celular, em frente a um cinema que exbe os filmes "Segunda Vinda e Segunda Vinda 2: Ele se Ergue, em meio a um festival LGBTQIA+

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Richard Pace- A motivação por trás da invasão é o ego de Putin. Ele teima em relutar que a Ucrânia É um país. O mundo não puniu a Rússia o suficiente por sua coação à Crimeia, portanto, é claro que ele poderia incorrer novamente no mesmo crime. 

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Claudio Siqueira
Escritor, poeta, Bacharel em Jornalismo e habitante da Zona Quase-Sul. Escreve ao som de bits e póings, drinkando e smokando entre os parágrafos. Pesquisador de etimologia e religião comparada, se alfabetizou com HQs. Considera os personagens de quadrinhos, games e animações como os panteões atuais; ou ao menos, arquétipos repaginados.
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