Crítica | “Pequena Mamãe” e a insustentável leveza do crescer7 minutos

Meio fábula, meio coming-of-age, “Pequena Mamãe”, o novo longa-metragem da diretora francesa Céline Sciamma, tem uma carga muito maior do que a sua (curtíssima) duração deixa transparecer.

Imagem promocional do filme "Pequena Mamãe". Nela, vemos Nelly, de azul, abraçando Marion, de vermelho. Não podemos enxergar o rosto de Marion, e Nelly está em primeiro plano.

Os pais são o primeiro contato que temos com o mundo. Biológicos ou não, é deles que viemos, e é a partir da ótica deles que são moldados nossos comportamento, nossa moral e nossos gostos. São nosso primeiro referencial.

Em contrapartida, sem filhos não há pais. Biológicos ou não, a chegada de um filho irremediavelmente transforma a pessoa em pai, ou mãe. A torna centro de um núcleo familiar, independente de quantas pessoas nele existam. Sem filhos não há pais – e por isso há palavra para descrever quem perde os pais, ou quem perde o cônjuge, mas não para descrever quem perde os filhos.

Os filhos só conhecem os pais após estes se tornarem pais. Nunca veremos a pessoa que estes foram antes de nós. Tudo o que temos são relatos, fotos, gravações, pequenos vislumbres de toda uma existência antes de que essa relação, tão fundamental mas tão desbalanceada em seu âmago, se desse.

Mas e se pudéssemos ver?

Nelly, Marion e a cabana. Fonte: MoMA

É partindo desse questionamento que Céline Sciamma, a diretora por trás do já icônico Retrato de uma Jovem em Chamas, nos apresenta o seu mais novo longa-metragem. Nele, a avó de Nelly, de oito anos, falece, e os pais da garota são incumbidos da tarefa de esvaziar a casa onde a mãe de Nelly passou a infância. Eventualmente, a garota se aventura a brincar no bosque em torno da casa da falecida avó e, em certo momento, encontra uma menina, da mesma idade, construindo uma cabana.

A identidade de Marion, a menina do bosque, não é segredo em nenhum momento – o filme, afinal de contas, se chama “Pequena Mamãe”. Além disso, em uma cena anterior ao primeiro encontro entre as duas crianças, o pai de Nelly chama a mãe dela pelo nome – que, depois descobriríamos, é o mesmo da menina no bosque. Um detalhe adicional, que reforça tal obviedade, é que Marion é sempre vista usando as mesmas cores que sua contraparte adulta (vermelho, em contraste com as vestimentas sempre azuis e verdes de Nelly, tal como as protagonistas de Retrato). Então, aqui muito pouco importa o plot twist, explicações racionais ou sobrenaturais para o acontecimentoo que vale é a jornada, e o que nos prende a ela é a mesma curiosidade infantil que Nelly sente diante do realismo mágico que vivencia.

A despeito de sua curtíssima duração (apenas 72 minutos), Pequena Mamãe é denso e informa muito, mesmo com poucas palavras. Nada expositivo, o texto de Sciamma vale-se dos silêncios e do não-dito para construir a relação de Nelly com os pais e os questionamentos, assim como as conclusões, aos quais a personagem chega sobre sua vida familiar, sobre si e sobre a vida (e sua finitude).

Um exemplo interessante é o momento, após a partida da mãe, em que Nelly questiona o pai sobre a infância dele. Segundo a criança, ela nunca sabe histórias e sentimentos reais sobre este período da vida dos pais, e sim apenas fragmentos, anedotas pontuais. Ela pergunta, então, do que o pai tinha medo quando criança. Após um momento de hesitação e uma tragada em um cigarro aceso, o pai responde, em tom de segredo: “eu tinha medo do meu pai”. Com meia dúzia de palavras, todo um universo se desdobra e, ainda que este cenário do passado do pai de Nelly não seja desenvolvido, é o suficiente para entendermos o alicerce do distanciamento emocional que há entre ele e o restante da família.

Pequena Mamãe parece um ponto fora da curva na filmografia de Sciamma. Apesar de frequentemente ter se dedicado aos coming-of-age (seus três primeiros longas-metragens, Lírios D’água, Garotas e Tomboy, são histórias de crianças e adolescentes LGBTQIA+ ou racializados se descobrindo e se entendendo no mundo), nenhuma de suas histórias anteriores foi tão suave e acolhedora como esta. Se antes, para Sciamma, crescer era algo cruel e impiedoso, um processo regado a várias violações (sejam físicas ou de confiança); aqui crescer é mágico, é um processo puro e divertido, mas não menos real, sincero e cercado por conflitos e questionamentos.

Este realismo mágico é regado às cores da fotografia fantástica de Claire Mathon que, como em sua colaboração com Sciamma em seu longa anterior, prioriza a iluminação natural, e coloca as cores brilhantes e vívidas do mundo compartilhado por Marion e Nelly em contraste com os tons levemente mais pálidos do mundo em que Nelly vive com os pais. Este mundo “real” não é pálido ao ponto de parecer triste, sombrio e sem vida; ou etéreo, obra de um sonho ou pesadelo (isso Mathon faz brilhantemente em Spencer, em mais um trabalho subestimado pelas premiações); mas sim, apenas levemente diferente – o suficiente para percebermos, porém ainda um mundo vasto e colorido aos olhos de uma criança, apesar de um pouco contaminado pelos traumas e introspecções pessoais de seus pais.

E não é por acaso que, logo após Nelly confrontar justamente um dos conflitos internos de Marion, somos levados à sequência mais visualmente bela do filme, um momento catártico de união e criação de laços ao som de uma raríssima trilha sonora crescente que, apesar de ser obviamente a última parada na estrada antes do adeus, deixa Nelly – e ao público – com a sensação de que a jornada valeu a pena.

E como valeu. Após o mais ambicioso (e mais bem-sucedido) trabalho de sua vida, Céline Sciamma nos mostra que ainda há espaço para filmes curtos e de baixo orçamento nos apresentarem a uma jornada simples e objetiva – e nem por isso menos grandiosa, catártica e necessária do que a de produções de proporções babilônicas.

E nem menos genial.

Confira aqui o trailer de Pequena Mamãe:

O filme está disponível na plataforma de streaming Prime Vídeo, e pode ser alugado ou comprado na Apple TV ou no YouTube Filmes.

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Gabriela Spinola
Tradutora, mineira, e eternamente emo.
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