Entrevista | Cristiano Seixas – O roteirista brasileiro que fez a HQ oficial Alien: The Original Screenplay15 minutos

Dia 26 de abril é o Dia Internacional do Alien (Alien's Day). Para comemorar o mês da criatura, entrevistamos Cristiano Seixas, o roteirista mineiro de Alien's: The Original Screenplay.

Dia 26 de abril comemora-se mundialmente o Alien’s Day, o Dia do Alien, a criatura da franquia Alien, tanto no cinema quanto nos quadrinhos, que atende pelo “nome científico” de xenomorfo. 

Para comemorar o mês da besta, o Otageek realizou uma série de entrevistas com roteiristas e desenhistas que de alguma forma fizeram parte da franquia ou do universo lovecraftiano (o universo concebido pelo escritor norte-americano H.P. Lovecraft), que serviu de base para a criação do xenomorfo.

Organograma com o bestiário lovecraftiano.

A concepção da criatura adveio do pintor e escritor suíço H.R. Giger, que se inspirou em Lovecraft e seu bestiário para criar a estética dos xenomorfos. Ninguém percebeu que a Rainha Alien é uma releitura do Grande Cthulhu?

O criador e suas criaturas

Cristiano Seixas é fundador da Casa dos Quadrinhos, uma escola técnica de artes visuais em Minas Gerais com diploma aprovado pela Secretaria Estadual de Educação. Diretor geral da escola, Cristiano também é diretor de arte e animação, quadrinhista, roteirista. Mestre em Animação Digital pelo pelo Art Institute of California tendo sido interno da Agência Brothers By Choice em São Francisco (EUA) após um bootcamp em cinema pelo New York Film Academy.

Pós-graduado em Gestão de Serviços pelo Instituto de Educação Tecnológica de Belo Horizonte (IETEC) e graduado em Design Gráfico pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo, Cristiano foi Conselheiro da Associação Brasileira de Produtoras Independentes (BRAVI) e criou o Ghost Jack Entertainment, que desenvolve personagens, quadrinhos e games. Ensinou Artes Visuais no curso de Pós-Graduação em Games da PUC-MG e na Universidade Veiga de Almeida (UVA), no Rio de janeiro.

Otageekers, com vocês, Cristiano Seixas:

Cristiano Seixas, em sua foto de perfil no site da Casa dos Quadrinhos
Otageek- Como você começou no roteiro? Sempre trabalhou com HQs ou já fez algo? Se sim, você iniciou nas HQs ou do roteiro (teatro, televisão) foi parar no mundo dos quadrinhos?

Cristiano Seixas- Faço quadrinhos desde criança. Nunca parei, na verdade. O que foi mudando é que, profissionalmente, comecei em publicidade, depois animação. Fazia de tudo, de logo a ilustrações, mas, com o tempo, fui me tornando diretor de criação dos projetos enquanto, paralelamente, produzia quadrinhos independentes com amigos artistas.

Teaser da HQ Calango

Cristiano Seixas- Também fui agente de vários quadrinhistas para o mercado internacional por alguns anos, enquanto trabalhava aqui na Casa dos Quadrinhos, neste processo que conheci o artista Guilherme Balbi. Em 2016 resolvi dar um foco maior em roteiro para quadrinhos em si, criando a revista em quadrinhos Calango com o artista Eduardo Pansica. Depois disso, tenho com roteiro e criação de projetos para quadrinhos e animação minha principal atividade.

Otageek- Como um leitor de quadrinhos, você sempre teve vontade de atuar nesta área como roteirista? Quais quadrinhos despertaram em você o interesse a paixão pela Nona Arte?

Cristiano Seixas- Sempre, desde criança, escrevia e desenhava. Por um tempo tentei fazer as duas coisas profissionalmente, mas não durou muito. Gosto de trabalhar em equipe, gosto de conhecer artistas com estilo e qualidades diferentes. Gosto de editar os quadrinhos independentes que produzimos, então fico sempre entre edição e roteiro, sendo que roteiro é meu grande prazer na Nona Arte.

Otageek- A Casa dos Quadrinhos é uma referência nacional e revelou grandes talentos. Conta pra gente um pouco da história, quais as dificuldades e aquele que foi, pra você o marco mais importante da trajetória.

Cristiano Seixas- A gente começou como uma filial da antiga Fábrica de Quadrinhos em BH, lá pro começo do ano 2000, e aprendamos muito com artistas como Marcelo Campos, Roger Cruz, Eduardo Schall, Octavio Cariello, etc. Convidamos eles para uma pequena Comic Com que produzimos em BH e, em seguida, a gente ficou um tempo em São Paulo com eles e voltamos já com a certeza de criação da escola.

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Quando a Fábrica dos Quadrinhos se desfez e nos tornamos independentes, resolvemos ampliar consideravelmente o leque de cursos que a gente lecionava. Logo depois desenvolvemos o primeiro Curso Técnico Profissionalizante em Artes Visuais com foco em quadrinhos, animação e personagens do Brasil, e não olhamos mais para trás. O bom que é um processo contínuo, os cursos evoluem junto com as mudanças e refinamentos deste mercado.

Otageek- Desenhistas brasileiros têm repercussão no exterior. Infelizmente, isso não se dá com roteiristas. Mesmo entre os hermanos mexicanos, vemos mais sua atuação como coloristas e ilustradores do que como roteiristas. A que isso se deve? Como é o mercado para roteiristas brasileiros lá fora?

Cristiano Seixas- Acho que é a falta de espaço dado para roteiristas que não são norte-americanos ou europeus. Isso vem mudando há pouquíssimo tempo. A barreira da língua é claro que é um impedimento maior na função de roteirista do que nas demais funções desta indústria. Mas isso vem mudando, e, acredito, que o reconhecimento mais amplo de roteiristas brasileiros em HQs vai crescer aos poucos, assim como aconteceu com os artistas de quadrinhos nos últimos anos.

“Claro que a barreira da língua é um impedimento maior na função de roteirista no que nas demais, mas isso vem mudando e o reconhecimento de roteiristas brasileiros em vai crescer.”

São pouquíssimos roteiristas brasileiros, que eu saiba, trabalhando no mercado internacional, e, a maioria absoluta também é o artista. Mas acho que vamos ter mais portas abertas, à medida que vamos mostrando a qualidade do nosso trabalho.

Otageek- Além de roteirista, você também atua como desenhista? Se sim, com qual estilo você gosta mais de trabalhar (tirinhas, graphic novels…)? Qual o seu estilo de traço favorito (realismo italiano, mangá, ligne claire ou o expressionismo alemão de Mike Mignola)? 

Cristiano Seixas- Atualmente tenho ilustrado muito pouco, feito mais é layouts, esboços ou photobashs para os artistas poderem ter uma direção mais clara. Agora, quando desenho, gosto mais de explorar a energia do traço e fluidez, o clima e ambientação, do que técnica ou hiper-realismo.

“Moebius é minha referência suprema, pois conseguia criar novos universos com tão poucas linhas e cores.

Gosto de referências como Bill Sienkiewicz, Kent Williams, Tsutomu Nihei, Ben Templesmith e Dave McKean. Mas Moebius é minha referência suprema, mas nem tanto na questão do traço em si, mas como conseguia criar novos universos com tão poucas linhas e cores.

Otageek- Quais os roteiristas influenciam a sua forma de escrever, seja nos quadrinhos ou na literatura? 

Cristiano Seixas- Não sei responder isso de maneira muito clara, mas, com certeza a fase Sin City do Frank Miller é uma grande influência, (Alejandro) Jodorowsky com certeza, e, de alguma forma, deve ter alguma coisa de Alan Moore ou Neil Gaiman, escondidinha, bem lá no fundo (risos).

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Mas acho que também depende do tipo de história, pois até mesmo Garth Ennis se encaixa em algumas coisas que imagino. Em outras, sonho em receber um pouco da poesia e lirismo do Hayo Miyazaki por osmose (risos). Agora, acho que literatura e cinema também influenciam diretamente, mesmo que de forma inconsciente. 

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Otageek- Além de Alien: The Original Screenplay, você já trabalhou com outras publicações da Dark Horse? Já roteirizou Hqs internacionais, mesmo de outras empresas?

Cristiano Seixas- Não, já agenciei alguns artistas para diferentes projetos da Dark Horse, como Buffy A Caça-Vampiros, mas nunca tinha trabalhado com a Dark Horse como roteirista, este projeto foi uma honra.

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Já cheguei a lançar três quadrinhos independentes em convenções nos Estados Unidos, mas foi a primeira vez por uma grande editora.

Otageek- Fale de alguns de seus trabalhos com HQs (nacionais ou não), pela Casa dos Quadrinhos ou mesmo antes de ela surgir.

Cristiano Seixas- Acredito que a Calango é meu trabalho mais recente onde me entreguei mais como autor nos últimos anos. Os Caras do Fahrenheit foram quadrinhos que trabalhei anos atrás e acabei republicando parte do material um tempo atrás e foi bem legal.

Capa da HQ Os Caras do Fahrenheit nº1

Mas logo antes da Casa dos Quadrinhos surgir, a gente publicava algumas HQs bem divertidas, sendo que fizemos um Almanacão, logo nos primeiros anos do estúdio, que reuniu um pouco de tudo que a gente queria mostrar na época.

Otageek- Como você conheceu o universo dos xenomorfos? Com o clássico Alien (o Oitavo Passageiro) cuja HQ você roteirizou?

Cristiano Seixas- Ah, sou daqueles meio que fanáticos pelo universo do Alien. Quando vi o primeiro filme eu era muito novo e fiquei muito impactado. O segundo já tinha idade para ir ao cinema, e consegui ver todos os demais filmes da franquia nos cinemas. Também ia acompanhando paralelamente a carreira do Ridley Scott, do H.R. Giger e do Moebius. Coisa de fã hard core mesmo.

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“Sou daqueles meio que fanáticos pelo universo do Alien. Coisa de fã hard core mesmo.

Otageek- O roteiro de Alien: The Original Screenplay bem como a caracterização dos personagens diferem bastante do filme original, afinal, é o original, de 1976. Você seguiu o roteiro original e acrescentou e tirou algumas coisas? Além da caracterização dos personagens, o intuito foi adaptar o roteiro original para uma estética atual?

Cristiano Seixas- No início, foi difícil achar um equilíbrio neste projeto, depois fluiu bem tranquilo. Era uma coisa entre respeitar o roteiro original e deixar ele bem atual e não com cara de coisa dos anos 1970.

“No início, foi difícil achar um equilíbrio entre respeitar o roteiro original e deixá-lo bem atual e não com cara de coisa dos anos setenta.”

Vou dizer que não tirei quase nada, posso ter ajustado algumas cenas pra nova proposta, mas o que me ajudou mesmo foi fazer dobradinha com o artista Guilherme Balbi, pois a gente discutia ideias, eu passava imagens e esboçava umas coisas e ele vinha com ilustrações sensacionais de volta.

Otageek- Um dos personagens na HQ tem o Ægishjálmur tatuado na cabeça. Aquilo foi ideia sua ou do Guilherme Balbi (ou está presente no Original Screenplay)? Você gosta de mitologias, sejam nórdicas ou não?

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Entrevista Guilherme Balbi

Esta foi ideia do Balbi, logo que decidimos a origem do personagem, como não tinha espaço para diálogos que explicassem o passado de cada um deles, a ideia era aplicar detalhes visuais que já dissessem mais sobre cada um deles e o Balbi foi encontrando esses detalhes para cada um.

Otageek- O universo dos xenomorfos, bem como sua concepção, foi baseado nas pinturas biomecânicas de H.R. Giger, que por sua vez se baseou nos mitos lovecraftianos. Você curte H.P. Lovecraft e seu universo dos Grandes Antigos?

Curto sim, com certeza, mas faz muito tempo que não releio nada. Ainda bem que também sou louco por Hellboy, que vai numa vibe parecida e estou sempre acompanhando.

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Otageek- Roteiros de filmes, principalmente o screenplay, possuem diretrizes para os tipos de corte (Match Cut, Jump Cut, etc.), tipos de plano (Long Shot, Close-up, Plongée e Contra-plongée, etc.), e informações como Voice Over (voz do narrador ou pensamentos dos personagens) e Offscreen (quando ouve-se a fala do personagem mas este não está na tela). Isso se dá também nos quadrinhos ou o roteiro é como o de publicidade ou Teleprompter (Imagem de um lado, falas do outro)?

Cristiano Seixas- Depende do projeto e do artista. Quando já tenho muita intimidade e confiança com o artista posso chegar até o ponto de fazer no estilo “Stan Lee”: passando tudo bem solto por página, material de referência e a página volta pra mim e ajusto diálogos e coisas similares. Trabalho com o Pansica assim e já fiz HQ com o Balbi desta forma. Já neste da Dark Horse foi roteiro bem fechado, dando sugestões dos enquadramentos e voice over ou offscreen para o Balbi, mas ele tinha liberdade para sugerir mudanças.

Otageek- Você já trabalhou com games ou video clipes? Tem vontade de trabalhar?

Cristiano Seixas- Trabalhei com o protótipo de game mobile da Calango, na plataforma Unreal, dois anos atrás e me ajudou a ampliar todo o universo destes personagens, foi uma ótima experiência. Já trabalhei com game para PC há um bom tempo atrás, mas só esta vez. Já trabalhei com casual games* de sites em trabalhos de publicidade, mas tudo de forma mais simplificada.

* Jogos simples, sem história ou gráficos rebuscados e geralmente online, como o antigo Campo Minado.

Claro que ajudar a desenvolver um universo para um game mais complexo está na lista de desejos. Trabalhei com alguns poucos clips para bandas independentes, anos atrás.

Otageek- O que você achou de Prometheus e sua continuação? Ambos os filmes foram muito criticados e as continuações de Prometheus em quadrinhos (Fire and Stone e Life and Death) parecem ter sido ignoradas para a confecção de Alien: Covenant. 

Cristiano Seixas- Sou um dos poucos que gostou de várias coisas em Prometheus, apesar dele ter sim, vários problemas, acho um filme subestimado pois escancarou as possibilidades do universo Alien e começou muito bem. Já Alien: Covenant teve vários equívocos, na minha opinião de fã.

“Sou um dos poucos que gostou de várias coisas em Prometheus. Acho um filme subestimado, pois escancarou as possibilidades do universo Alien.

Otageek- Acha que a inserção dos novos xenomorfos (como o Deacon e o Neomorfo), criaturas (como o Trilobite) e dos Engenheiros (embora estes últimos já estivessem presentes nos quadrinhos) foi fortuita no cânone da série? Acha que eles podem aparecer nos quadrinhos?

Cristiano Seixas- Acho que foi sim. A questão é que, acredito, todos eles podem ser trabalhados de uma forma melhor. Não acho que uma franquia como esta possa existir apenas com o que foi criado no primeiro filme. É sempre necessário expandir, a questão é como fazer isso de forma que fique fiel à proposta original e não se perca completamente.

Otageek- Nos quadrinhos, os xenomorfos e os Yautja (a raça do Predador) se enfrentam sempre, mas só tivemos dois filmes com ambas as criaturas. Acha que eles deveriam fazer parte do cânone da história no cinema, como o fazem nos quadrinhos, talvez até da disseminação da praga no universo?

Cristiano Seixas- Acho bobagem. Acho que estas duas franquias funcionam melhor separadas do que juntas. Como fan service, mesmo para mim, já que sou fã de ambas, isso é até bem divertido, mas acho que eles juntos acabam mais atrapalhando a evolução de cada franquia do que ajudando.

Otageek- Também nos quadrinhos vemos frequentemente outros tipos de xenomorfo, variando conforme o tipo de criatura da qual nasceram. No cinema, isso só aconteceu em Alien 3 quando ele nasce de um rottweiler e nos dois crossovers com o Predador. Acha que deveriam trabalhar mais isso no cinema?

Cristiano Seixas- Sim, não vejo problema nenhum nisso. Agora, fazer isso ficar interessante e com credibilidade para os fãs da franquia, aí é uma outra história. Vai precisar de um roteirista e uma produção que dê conta do recado, tem que realmente ter um sentido forte na história para acontecer, o problema é que parece uma coisa meio aleatória no filme. Estou curioso para ver o que vão arrumar com a série na plataforma HULU.

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Claudio Siqueira
Escritor, poeta, Bacharel em Jornalismo e habitante da Zona Quase-Sul. Escreve ao som de bits e póings, drinkando e smokando entre os parágrafos. Pesquisador de etimologia e religião comparada, se alfabetizou com HQs. Considera os personagens de quadrinhos, games e animações como os panteões atuais; ou ao menos, arquétipos repaginados.
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