Crítica| Medida Provisória é um magnífico filme e um olhar para o futuro5 minutos

Há duas semanas nos cinemas, Medida Provisória, filme dirigido por Lázaro Ramos, já levou mais de 100 mil brasileiros para assistir o filme, nele é mostrado um Brasil do qual as pessoas negras temem, juntamente de um discurso de que sua luta nunca irá parar.

Pôster oficial de Medida Provisória. Já nos cinemas!
Pôster oficial de Medida Provisória.

Em um Brasil distópico, é aprovada uma Medida Provisória que “pede” para que os brasileiros afrodescendentes voltem para a África. Seguindo essa premissa, Lázaro Ramos nos proporciona uma pesada, real e infeliz visão de um país que não aparenta ter remorso.

Darei início a esta critica recordando lá da última sequência de cenas do filme, ao som da ilustre Elza Soares temos uma grande combinação de acontecimentos: Os negros que estavam no AfroBunker (A forma como a comunidade de negros que conseguiram se esconder no galpão de uma antiga escola de samba, se autodeclama) saem para as ruas para mostrar que a fictícia Medida Provisória 1888 não conseguiu devolver os afrodescendentes para o continente da África. Junto de tudo isso, se tem vários recortes de cenas atuais, de grandes figuras negras da história brasileira, e acima o rapper Emicida discursa que os negros nunca desistirão e que a luta só começou.

E fiz questão de detalhar tanto esses recortes, porque me lembrou muito o recorte final de Infiltrado na Klan (2018) de Spike Lee. Os dois filmes trazem muito a ideia final de “ao fim, tudo acaba bem” , mas que de repente vem esse rompante te lembrando de tudo o que os negros passaram e passam, mas que já não aguentam mais, há muito tempo.

Sendo este seu primeiro filme, Lázaro Ramos se apresenta como grande contador de histórias. Como ator já amamos saber disso, mas eu, particularmente, amei o ver como diretor e roteirista, ele sempre consegue sustentar o que nos é apresentado, no início vindo aquela sátira pra finalmente chegar e virar tudo do avesso. Ramos também comanda muito bem os tantos planos diferentes, como captando um pânico, mesmo no sorriso mais nervoso do grande e divertido André (Seu Jorge).

Ele deixa o texto e os atores respirarem, não atropela nada, deixando o público visualizar, se chocar e em seguida absorver, mesmo algumas coisas mais doloridas que outras. Mas isso tudo acontece sem perder o ritmo, não fazendo um banquete de novas informações e coisas a se ver, tudo é muito bem calculado e espaçado.

Os três protagonistas de Medida Provisória. Antonio, Capitu e André.
Os três protagonistas de Medida Provisória. Antonio, Capitu e André.

Um grande destaque para o elenco, que contempla a obra.

Junto do já citado, Seu Jorge, temos também a presença da magnífica Taís Araújo fazendo a médica e determinada Capitu, e de seu marido Antônio, feito lindamente pelo ator inglês-brasileiro, Alfred Enoch. O elenco também junta as brilhantes Adriana Esteves como a burocrática e falsa Isabel e Renata Sorrah, com sua interpretação da nojenta vizinha dos três protagonistas. Cada um deles te mostra, da sua forma, um sentimento real sobre a Medida.

Temos Seu Jorge, que até antes do pior momento, continua acreditando que por mais trágico e torturante que a situação esteja, no fim tudo pode melhorar. Sendo o personagem que arranca risadas até nos momentos mais tensos ele nos mostra algo muito humano e real. Taís já nos traz esse sentimento de dúvida sobre o que haverá a seguir, estando grávida em um momento de tanto horror e incertezas, ela pondera sempre sobre o mundo em que trará a criança e se deve mesmo trazer, tirando essa questão de dúvida, todos os atos de Capitu são muito bem pensados e falados. Já Alfred para mim é quem rouba a cena. Começando muito pacífico e disponível para conversas, ao passar da trama, vai crescendo em tela com suas falas e ações, e também angústia de não poder se impor ao que esta ameaçando ele e as pessoas ao seu redor, como também não aguentar mais carregar o fardo de ser o cara que apenas abaixa a cabeça e entende o próximo.

Contra-partindo os três citados acima, vem Esteves e Sorrah com duas personagens tão cruéis quanto sucintas, até porque como fala Isabel em um dado momento “Racista? Eu não, só estou fazendo o meu trabalho”, como se não estivesse amando implementar a medida. Já a vizinha Dona Izildinha de Renata, tem desde o início do filme, seus comentários racistas e ações desnecessárias, mas sempre revestida com a ideia de que no fim de tudo, ela só quer o bem de todos, é claro! Fascinante ver essas personagens tão aterrorizantes mas também simples, sendo interpretadas com tanta maestria. Por atrizes que em seu pessoal, são totalmente o contrário.

Ao fim de tudo, Medida Provisória além de ser um filme extremamente necessário, com um roteiro que entrega tudo BEM mastigado, mas não de uma forma grotesca, também tem uma fenomenal direção, uma fotografia linda, ainda tem um elenco dando aula de como se atua. Este é O filme! Voltando ao início, se fecha tudo com uma sequência incrível, junto da voz da grande Elza Soares.

O futuro escrito no título fica a mercê de escolha, será algo como o caos da Medida apresentada, ou seguirá toda a resistência e lugares de fala conquistadas pela comunidade negra brasileira?

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Vitória Lima
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