Crítica | Flee – Nenhum Lugar Para Chamar de Lar4 minutos

Indicada ao Oscar de Melhor Animação, Melhor Documentário e Melhor Longa-Metragem Internacional, Flee – Nenhum Lugar Para Chamar de Lar cativa pela originalidade.

Como alguém que tem A Ganha-Pão (Nora Twomey, indicado ao Oscar de Melhor Animação de 2018) como um dos filmes favoritos, sou suspeita para sintetizar Flee – Nenhum Lugar Para Chamar de Lar, a história de um refugiado afegão como um filme bom. Uma boa crítica é imparcial e deve separar bem gosto pessoal de qualidades técnicas, então em primeiro lugar devo defender minha posição quanto ao filme: quando se tem um objetivo e ele é alcançado sem abrir mão dos encantamentos que são as surpresas que se desvendam, e possui um significado que muito além de entregue é principalmente sentido, este possui uma aura artística. E o cinema não é chamado de Sétima Arte à toa.

Em Flee seguimos a história de Amin Nawabi, nome fictício para proteger a pessoa real por trás da trajetória de um garoto afegão que perde sua casa, liberdade e identidade para a guerra. Amin, prestes a se casar com seu noivo Kasper, conta pela primeira vez o que ele, seus irmãos e sua mãe passaram para sobreviver na fuga para a Suécia, onde o irmão mais velho de Amin já tinha residência. Com pouco dinheiro e vivendo num apartamento pequeno na Rússia pós-União Soviética, eles não podiam trabalhar ou sequer sair na rua sem serem vítimas da corrupção e opressão policial contra imigrantes ilegais. No entanto, a originalidade de Flee mora no intimismo de se sentir na pele de um garoto muito mais profundo que somente mais uma vítima da guerra.

Amin, como adulto, tem uma carreira acadêmica de sucesso e, sem o conhecimento de seu noivo, considera fazer doutorado. Kasper o entende como alguém que não consegue se estabelecer em um lugar só, mas conforme ele confidencia com o entrevistador (um amigo da faculdade) sobre como não gosta de precisar viajar tanto por conta de sua carreira, entendemos que sua dificuldade de encontrar um lar vai muito além de sua história como um refugiado que precisou recorrer a meios ilegais para ter uma vida digna. Em muitos momentos me pego hipnotizada pela perspectiva de uma vida que ninguém deveria precisar viver, onde o que precisam fazer para se manter vivos é ainda pior do que simplesmente morrer. O entendimento de Amin sobre precisar salvar a própria pele, e consequentemente o egoísmo daqueles que o fazem, arrancam dele a esperança de um dia encontrar um lugar onde ele possa ser ele mesmo. Isso porque até hoje precisa viver sob uma história inventada por traficantes, situação que o fez se afastar do próprio passado.

Sua sexualidade é abordada de forma belíssima, não como algo que é descoberto mas algo que se desenvolve com ele e como ele lida com ela enquanto acredita estar sozinho nessa jornada em específico. Flee é um filme com propósito, uma experiência de mudança sobre estar em casa e ser sua própria casa.

Flee – Nenhum Lugar Para Chamar de Casa estreia amanhã, 20/04/2022, nos cinemas brasileiros,

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Clara Lima
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