Os clipes mais viajantes que você já viu (e se não viu, corra!)16 minutos

Desde moleque, nunca curti clipes. Pensando nisso, aqui vai uma seleção dos clipes mais loucos e pitorescos para você assistir.

Desde moleque, nunca curti clipes. Sempre me perguntei qual a graça de ver os integrantes da banda, grupo ou crew se exibindo em frente às câmeras se não fosse com um intuito promocional para eles mesmos.

Lembro-me de quando tinha 15 anos e uma amiga me chamou pra ver uns clipes de hard rock e heavy metal, e eu nem gostava da primeira opção. Na verdade, o que ela queria era ver os cabeludos, que faziam ela babar enquanto deixavam os cabelos voarem aos ventiladores, os quais não apareciam em cena. Aquilo tudo me parecia sem sentido. Mas as músicas eram boas – algumas.

No entanto, os encartes dos álbuns me chamavam a atenção. Não só as ilustrações, mas as fotos dos integrantes ambientavam o que se ouvia ao clima das músicas e das histórias contadas nas letras. E era isso o que eu queria ver: clipes conceituais que passassem a ideia contida nas músicas, tivessem elas letras ou não.

Pensando nisso, aqui vai uma seleção dos clipes mais loucos e pitorescos para você assistir, mesmo que não curta a música, o estilo ou o artista. Não que eles não façam poses e performance (e isso é ótimo!), é que em vez de (ou além de) pagarem de gatões, os artistas (quando aparecem) utilizam da coreografia ou trejeitos para ambientar o que está sendo dito em imagens, tornando suas performances parte da plasticidade inerente ao respectivo clipe. Dancem, Otageekers! Divirtam-se!

Smooth Criminal – Michael Jackson

O que falar do melhor clipe da história? Michael Jackson está em sua melhor performance desde Thriller! A diferença é que no famoso clipe dos zumbis – cuja cena de Michael comendo pipoca no cinema virou gif – os demais dançarinos interagem com Michael praticamente o seguindo, enquanto em Smooth Criminal, cada personagem ou grupo de dançarinos tem sua própria atuação – dançando – o que dramatiza todo o cotidiano da noite da malandragem da época.

Sendo parte do filme Moonwalker (o nome de um dos passos mais famosos de Michael Jackson), o clipe mostra Michael, uma verdadeira entidade, adentrando um salão de jogos que está abandonado há anos. Ao entrar, Michael dá vida ao lugar e todos os gângsteres começam a atuar como quando estavam vivos.

Michael mostra todo o cotidiano da malandragem em sua performance, esquivando-se de ataques, cortejando as minas, participando da jogatina desenfreada, para depois exorcizar todas aquelas almas num estanho momento do clipe que parece um ritual. Sempre achei que o Zé Pelintra resolveu gravar um clipe e encarnou no melhor dançarino da humanidade naquela época para realizar seu intento.

This is America – Childish Gambino

Eu iria colocar este clipe como o primeiro da lista e, sinceramente, acho que This is America foi o único a superar Smooth Criminal. E não só pelo cunho político, mas Childish Gambino (Donald Glover) fez a mesma coisa que Michael em Smooth: fez com que todos os atores/dançarinos do clipe interagissem de forma independente, gerando núcleos de ação conforme a mensagem a ser passada.

Repleto de easter eggs, o clipe traz várias mensagens incutidas nas poses de Gambino, seja remetendo-se a atores negros em tributo aos mesmos, ou a brancos como alfinetadas. O fetiche bélico dos EUA é solapado desde as primeiras cenas e a parte musical, coreográfica, a suposta felicidade do povo negro, é mostrada como um chamariz enquanto as atrocidades e o descaso ocorrem sem que nada mude; ou, como diz Elza Sores: “A carne mais barata do mercado é a carne negra”.

Playsom – BaianaSystem

Apontado como o sucessor espiritual de Chico Science & Nação Zumbi, o BaianaSystem fundiu a proposta de Chico Science com a cultura de trio elétrico, fazendo um som político e dançante; é como um Rage Against The Machine com tempero baiano. A letra de Playsom se vale do recurso do mute* para rimar com a ausência de palavras.   

*botão que cancela o som.

Deeper Underground – Jamiroquai

O Jamiroquai fez um sucessinho em uma época em que algumas bandas lançavam um pop rock alternativo, com uma estética moderninha e uma sonoridade meio disco. Ele contava com um vocalista branco com voz de cantora negra para lançar o seu nu funk-acid jazz-pós-disco. O nome da banda é uma fusão da sigla J.A.M. (Jazz After Midnight) ao nome da tribo indígena norte-americana Iroquai.

Eu já falei da participação do Jamiroquai na trilha sonora do filme Godzilla, de 1998, e o clipe chama muito a atenção. Como estratégia promocional, ele lançou um clipe onde Jay Kay (não, não é a influenciadora digital brasileira) dança, de seu jeito quase tão teatral quanto o de Michael Jackson, esquivando-se dos escombros que caem ante os abalos sísmicos provocados pelo andar de Godzilla. Tudo acontece no cinema, onde está se passando o filme.

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Dancing Cyprine – Omaha Bitch

Muitos vão considerar o clipe machista e sexista, mas Dancing Cyprine representa perfeitamente a tradicional DR* de um casal. O clipe brinca com o metal tradicional ao mesmo tempo em que lhe presta uma homenagem e mostra toda a história de um relacionamento nas performances do vocalista, com sua namorada-microfone, de acordo com as nuances da música.

*Discussão de Relacionamento

The Wall – Pink Floyd

Não preciso falar nada sobre Pink Floyd, mas o clipe de Another Brick in the Wall merece atenção. A cena das crianças sendo “processadas” no moedor de carne após passarem por uma esteira pode muito bem ter servido de base para o game Inside que citei aqui.

A cena da “marcha dos martelos” é ótima e seus simbolismos são muitos, a começar pelas cores dos martelos. O próprio filme (The Wall) merece ser visto e contém animações fantásticas.

Unoder – Under Byen

Under Byen é uma banda dinamarquesa que você precisa conhecer! Com dois vocais femininos, o Under Byen (Abaixo da Cidade, numa tradução livre) tem uma visão pouco ortodoxa do rock. Em vez de guitarras, temos piano, violoncelo, violino e órgãos, além da bateria e percussão, claro. E seus clipes são tão insólitos, imersivos e apaixonantes quanto suas músicas. O clipe da música Plantage foi até feito pela Amanita Design. Mas agora confira o clipe de Unoder

AC Slater – U Got 2

Há um lumpen que habita os esgotos de Nova York carinhosamente apelidado de The Mole People. E o clipe U Got 2, do DJ e produtor musical AC Slater, mostra a jornada de um habitante dos esgotos pela cidade grande, o que é quase uma alusão ao Mito da Caverna.

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The Box – Orbital

Orbital fazia frente a Chemical Brothers na época em que a música eletrônica despontava e os roqueiros de plantão questionavam-se se não seria “o fim do rock”. Diferentemente de Prodigy, essa sim uma banda de música eletrônica, os dois DJs e produtores musicais do Orbital, assim como os do Chemical Broders, não ostentavam algo como como “Nós somos os caras!”, mas algo como “Nós somos a coisa!”

Seus clipes prometiam-nos viajar tal qual suas músicas, ou mesmo mostrar-nos como é a nossa viagem. The Box mostra o protagonista do clipe em estado dopaminérgico, o que é representado por sua visão, a qual nos é apresentada em time lapse.    

Os clipes-anime do Daft Punk

Outra dupla, Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Cristo, tornou-se icônica por seus elmos a la Jaspion e suas músicas chiclete; quase um Kraftwerk blasé. Além disso, o Daft Punk lançou uma sequência de clipes em estilo anime que merecem ser vistos.

Hide U – Kosheen

Kosheen despontou na safra trip hop pouco depois de Morcheeba e Portishead, mas o que o fez bombar mesmo (pelo menos aqui) foi esta canção drum n bass:

O clipe mostra tudo o que se passa por trás das paredes; aquilo que fazemos quando ninguém está olhando, além de uma mensagem de enclausuramento voluntário, como a misantropia. 

Human – Sevdaliza

A iraniana holandesa Sevda Alizadet lançou-se em 2015 como Sevdaliza com a música Bebin, em protesto contra a Ordem Executiva 13.769, assinada por Donald Trump para coibir ao máximo a entrada de imigrantes do oriente médio e norte da África, como prevenção à entrada de possíveis terroristas.   

Sevdaliza flerta com o macabro e o oculto enquanto dança serpenteante ao som de uma batida quase ininteligível. Trata-se da IDM, a Intelligent Dance Music, uma versão ambient do breakcore de Aphex Twin. Fala sério! Você nunca viu o mute* fazer parte da batida!

*botão que cancela o som.

Tourniquet – Marilyn Manson

Marilyn Manson deu o que falar ao lançar seu personagem andrógino como o Antichrist Superstar em 1996. A pombagira cibernética de TPM dando pinta de arauto do apocalipse já vinha aprontando desde o seu primeiro álbum, com o nome de uma sexy symbol e o sobrenome do psicopata responsável pela morte da esposa – grávida – do diretor Roman Polanski. O quinteto já vinha abrindo shows do Nine Inch Nails e bombou com o cover do Eurythmics, Sweet Dreams (Are Made of This), e, mais tarde, com The Beautiful People.

Mas Tourniquet (do mesmo álbum de The Beautiful People) também merece atenção. Naquele mundo dark imundo, habitado por Manson e sua trupe em seus clipes, o Antichrist Superstar eclode do casulo, tornando-se aquela Mariposa Vitruviana da mitologia da ópera-rock que é o álbum. Em uma balada gótica, Tourniquet nos mostra o personagem construindo um homúnculo a partir de seus desejos e inibições, criando o que seria o parceiro ideal.

God’s Away On Business – Tom Waits

Se Manu Chao faz o seu próprio reggae e Tom Zé a sua própria MPB, Tom Waits faz o seu próprio blues. Ou o blues do diabo! Seu álbum Mule Variations faz Marilyn Manson parecer a Cuca do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Em God’s Away On Business, Waits resolveu fazer o seu próprio The Beautiful People:

Come to Daddy – Aphex Twin

Aphex Twin brilhava como estrela única até que alguém deu nome ao seu estilo e o chamou de breakcore: um estilo de música eletrônica suja, com barulhos e verdadeiras onomatopeias no lugar de letras, além de uma batida que nunca se repete em cada quarto de um ciclo inteiro. Não há o tradicional 4×4 ou 8×8, mas uma sequência quase ininteligível de batidas, sincopadas em um compasso insólito.

Dentre seus clipes, este é o que mais chama a atenção. Trata-se de uma crítica ao poder de audiência da televisão representada no “gênio” do mal, sendo sua “lâmpada mágica” o aparelho de TV. A entidade, que é a alma da emissora, não esconde sua intenção: “Eu quero a sua alma!

Benzin – Rammstein

O Rammstein fez na Alemanha o que Marilyn Manson fez nos EUA. Ou quase. Till Lindemann conseguiu a proeza de fazer rock pesado sem recorrer a praticamente nenhum grito, contando apenas com sua voz empostada e a pronúncia do alemão para criar a atmosfera dark e tecnorgânica que faz do Rammstein a trilha sonora para os quadros de H. R. Giger

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Seu clipes contam com um humordaz que faz o espectador se sentir um monstro por achar graça daquilo que está vendo – ou não. Depende de que tipo de monstro você é. Todo mundo comenta a respeito de Sonne, quando os músicos interpretam mineiros neste mundo onírico em que habitam em seus clipes, como o faz Marilyn Manson, mas se atentem para o clipe de Benzin, onde atuam como bombeiros.

Sober, Stinkfist, Schism, Vicarious – Tool

A banda Tool é pitoresca em suas composições, e não por acaso: em 2001, com o álbum Lateralus, Tool lançou mão da sequência de fibonacci para gravar o álbum, tanto na divisão silábica de suas letras como nos arranjos e tablaturas de bateria.

A música Sober serviu de base para o Orbital criar a sua música Tootled, do álbum The Altogether, de 2001. E fora as músicas, o Tool tem clipes bem loucos que merecem ser assistidos.

Ratamahatta – Sepultura

Em 1996, Max Cavalera estava apaixonado pela cena nu metal da Califórnia e guiou o Sepultura para lançar o que seria a sua versão brasileira: Max entrou numa de ser roots, o que intitulou o álbum que decretou sua saída da banda.

Com batuques e letras – algumas em português – que falavam das queimadas na Amazônia e o genocídio dos povos indígenas, o álbum dividiu o público, mas lançou a banda a um outro patamar. O clipe de Ratamahatta, todo em stop motion com bonecos de massa, não parece um clipe de thrash metal, e é isso que também chama a atenção. Além disso, é uma obra-prima de síntese, já que, mesmo sem a música, a história seria contada sem dizer palavra alguma.  

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Claudio Siqueira
Escritor, poeta, Bacharel em Jornalismo e habitante da Zona Quase-Sul. Escreve ao som de bits e póings, drinkando e smokando entre os parágrafos. Pesquisador de etimologia e religião comparada, se alfabetizou com HQs. Considera os personagens de quadrinhos, games e animações como os panteões atuais; ou ao menos, arquétipos repaginados.
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Tuti Ayroso

Mano!! Nunca imaginei ver Rammstein, Sevdaliza e Daft Punk num mesmo artigo 😅