Crítica | “Gavião Arqueiro” e o que é ser herói9 minutos

“Gavião Arqueiro”, série sobre o (até então) mais irrelevante dos Vingadores, fala sobre representatividade de forma certeira e nos mostra, com maestria, o que é ser herói.

Imagem promocional da série "Gavião Arqueiro", onde vemos, à esquerda, Kate Bishop, e, à direita, Clint Barton, ambos com seus arcos e flechas em riste, no centro do rinque de patinação do Rockefeller Center, em Nova York.
(Esq-Dir): Kate Bishop (Hailee Steinfeld) e Gavião Arqueiro/Clint Barton (Jeremy Renner) em GAVIÃO ARQUEIRO, da Marvel Studios, exclusivamente na Disney+. Imagem de Chuck Zlotnick. ©Marvel Studios 2021.

Depois de 13 anos, 37 filmes, nove séries e alguns bilhões de faturamento, a Marvel finalmente decide realmente nos apresentar a um dos Vingadores. Alguém se importa com o Gavião Arqueiro? Antes dessa série, dirigida por Rhys Thomas e pela dupla de irmãs Bert & Bertie, e baseada nos quadrinhos de Matt Fraction e David Aja para o selo All-new Marvel, a resposta provavelmente era um categórico “não”. Após este breve arco de seis episódios, tudo muda.

O que nos foi apresentado sobre Clint Barton (Jeremy Renner) antes da série era pouco: ex-agente da S.H.I.E.L.D., tinha secretamente uma esposa e dois filhos (família essa usada como um artifício de roteiro bem conveniente em Era de Ultron), e surtou quando os perdeu, indo em busca de vingança durante o período do blip, deixando de lado a identidade de Gavião Arqueiro e tornando-se Ronin, um assassino em busca de vingança.

Inicialmente adaptado do arco do personagem nos quadrinhos do universo Ultimate (as histórias de Aja e Fraction, ainda que fantásticas e praticamente o consenso sobre o personagem atualmente, começaram a ser publicadas em 2012, e a primeira aparição de Barton no MCU foi em 2011, no primeiro cataclisma filme do Thor), sua característica mais interessante é a de ser apenas um cara normal no meio de um monte de superpoderosos.

Mas isso empalidece quando se está constantemente do lado de Natasha Romanoff (Scarlett Johansson), outra personagem que se distingue dos demais pelo mesmo motivo e que teve muito mais carisma e tempo de tela nestes 37 filmes para construir uma relação significativa com os espectadores.

Nesta série, acompanhamos Barton em Nova York, tendo que deixar a família para trás às vésperas do Natal, após um segredo vir à tona: alguém reapareceu usando a fantasia do Ronin, a identidade secreta que Barton assumiu durante os cinco anos em que metade da humanidade sumiu.

Com medo de seus erros do passado ressurgirem, Barton vai atrás de quem assume seu antigo manto – e essa pessoa é Kate Bishop (Hailee Steinfeld), jovem universitária que perdeu o pai nos eventos da invasão chitauri de Nova York em 2012 comandada por Loki e que, apesar de ter pego a indumentária de Ronin por puro e completo acaso, é absolutamente obcecada com Barton.

Kate Bishop quando criança vendo Clint Barton, um cara comum, salvando o dia. Imagem: Divulgação/Marvel Studios© 2021.

É a partir da relação com Bishop que algumas das questões mais importantes da série (quiçá de todo o MCU) são levantadas. Além de gradualmente deixar o personagem mais próximo da versão imaginada por Fraction e Aja (agora, após anos de exposição a explosões, ele é deficiente auditivo, tal como nos quadrinhos), a série o coloca na posição de exemplo, tendo entendido muito bem o que quer dizer “ser um herói”.

Bishop, que já era arqueira antes de ver Barton na Batalha de Nova York, o toma como ídolo após a morte do pai, Derek (Brian D’arcy James), naquele evento. Kate, muito consciente do impacto que Barton teve em sua vida, sempre reforça o fato de que o arqueiro tem um problema de branding e que ele precisa aceitar o fato de que é exemplo para as pessoas, ainda que não queira ser.

Isso é um metacomentário da Marvel, não apenas reconhecendo o quão mal aproveitado o personagem havia sido até aqui, mas também explicitando que reconhecem a importância da representatividade e o fato de que, até o momento, ela era bem escassa e feita de formas questionáveis no MCU.

Aqui, a representação de grupos minoritários não se restringe a um grupo, e não está envolta por uma cobertura de “vamos falar, mas nunca mostrar”, como em Loki, rs outras séries. O personagem-título é deficiente auditivo (coisa que estava sendo reinvindicada pela meia-dúzia de fãs do Gavião Arqueiro, na qual me incluo, há tempos), e a sua principal antagonista, Maya Lopez, vulgo Echo (Alaqua Cox, em seu primeiro papel), também.

Além disso, ela também é deficiente física (tem uma perna amputada) e nativa estadunidense. Há, ainda, toda uma gama de sidekicks negros e LGBTQIA+ que, além de serem ícones do swordplay, têm funções bem estabelecidas na trama e não estão ali como meros tokens por suas etnias e sexualidades, e sim pelas suas habilidades e carisma.

Painel dos quadrinhos do Gavião Arqueiro de Matt Fraction e David Aja. Nele, vemos Clint barton e Kate Bishop, abmos com seus arcos na mão e se preparando para atirar. Eles estão em um beco, nitidamente feridos, com ataduras e band-aids visíveis, e é possível ver o aparelho auditivo de Clint em cua orelha.
Clint Barton e Kate Bishop nos quadrinhos de Matt Fraction e David Aja.

É justamente na dualidade entre o personagem-título e sua antagonista que reside um dos maiores méritos da série. Centrado em Maya, o episódio 3, “Echoes”, nos apresenta a história da jovem e de sua relação com o falecido pai, que é o que a conecta com Clint. A série não apenas iguala a trajetória da personagem com a de Bishop, outra que perdeu o pai devido a um evento em que Barton estava envolvido, como também a coloca como igual em relação ao Gavião Arqueiro.

Ambos deficientes auditivos, ele usa aparelho e ela não; ela usa língua de sinais (aqui, a ASL, ou American Sign Language), e ele, ainda que saiba usar, não o faz. Este episódio conseguiu levantar questões debatidas constantemente pela comunidade surda sem ser enfadonho ou explicativo em excesso, e sem parecer deslocado em relação à trama.

É sublime, uma apresentação fantástica de uma personagem que já tem série própria confirmada, e um pouquinho de tudo o que muita gente deseja ver no MCU há tempos. Vale destacar, também, as cenas de ação. Gavião Arqueiro retoma o estilo mais urbano das séries da Marvel na Netflix e nos apresenta a combate mais físicos e lutas mais pé no chão (até os momentos, de forma geral breves, em que as flechas especiais entram em ação, é claro).

O fato é que há um nítido esforço em tornar memoráveis estas sequências, que correm sempre o risco de ficarem genéricas e sem-graça em uma franquia já tão longeva e abarrotada destes momentos. Novamente, o terceiro episódio é o destaque aqui, com a cena de perseguição dos carros valendo-se de um plano-sequência com a mesma técnica utilizada no fim do primeiro ato de Filhos da Esperança (2006), de Alfonso Cuarón.

Outra cena de luta incrível é uma sequência do sexto episódio em que Kate Bishop e outra antagonista brigam sem quererem realmente brigar, e ficam parando e fazendo comentários, piadas e (possivelmente) um flerte. É divertido, inusitado e, sem dúvidas, mais memorável que muito do que vimos nos últimos 37 filmes.

O defeito da série é, contudo, nem sempre se permitir ser realmente uma série. Apesar de seus acertos que são muitos, e provavelmente provenientes da liberdade de poderem fazer o que quiserem com um personagem não tão popular assim do MCU – a série, por vezes, parece um filme recortado, e sua curta duração sufoca a possibilidade de explorarem outras escolhas narrativas e estéticas.

Imaginem o quão interessante (se bem feito e dirigido, claro) seria um episódio inteiro sob o ponto de vista de Clint sem o aparelho auditivo; ou, como nos quadrinhos, um episódio sob o ponto de vista de Lucky, o cachorro. O espaço e a inventividade que encontramos em Gavião Arqueiro são ótimos avanços no que concerne as produções do MCU, mas ainda não é o suficiente.

E a inserção de um vilão maior aqui, aos 45 do segundo tempo, para fazer fanservice e conectar com o filme do MCU que estreou na mesma semana do sexto episódio, sendo que um maior desenvolvimento poderia ter ocorrido desde o terceiro episódio, evidencia que é possível se conectar com o MCU sem que tudo gire em torno da necessidade de se ter uma conexão, mas que ainda é necessário um pouco mais de espaço para que estas criatividades e inventividades possam ser devidamente celebradas e exercidas de forma cada vez mais potente.

(Apesar disso, não posso negar que seria incrível uma segunda temporada que conecte Kate Bishop aos Defensores, trazendo eles para o MCU de forma definitiva. É pedir muito que Jeri Hogarth cuide do espólio da família Bishop? Não, né?)

Os segundos finais, em que Clint e Kate discutem nomes de heroína para ela e ele está prestes a fazer uma sugestão, mas corta para os créditos, com o nome HAWKEYE (que é, afinal de contas, neutro, em inglês) aparecendo, são incríveis e encerram em uma nota alta a trajetória daquele Vingador que nunca foi grandioso, mas que enfim se aceitou como herói. E, como todo bom herói, sabe a hora de agir e a hora de parar – e agora é hora de deixarmos que Kate Bishop assuma o manto e seja a Gaviã Arqueira.

Confira o trailer de Gavião Arqueiro:

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Gabriela Spinola
Tradutora, mineira, e eternamente emo.
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