Crítica | “The Many Saints of Newark”: Muitos santos, poucos milagres7 minutos

Nova incursão no universo da aclamada série “Família Soprano”, “The Many Saints of Newark” é uma enchente de fanservice: deixa o público comum a um passo de se afogar

Imagem promocional do filme "The Many Saints of Newark". Nela, vemos à esquerda, o personagem Tony Soprano, olhando para a direita, onde está o seu tio, Dickie Moltisanti, acendendo um cigarro. A imagem está em preto-e-branco, com as únicas cores sendo a palavra "Sopranos" em vermelho em um letreiro no canto inferior direito (que diz "The Many Saints of Newark - A Sopranos Story"), e a luz amarela do fogo do isqueiro sendo acendido por Dickie

Impossível falar sobre séries que marcaram os anos 2000 sem mencionar Família Soprano. Carro-chefe da HBO após o sucesso moderado de Oz e antes de True Blood, a série de David Chase ditou o tom para as narrativas de anti-heróis que viriam a ser sucesso nos anos 2000. Sem Tony Soprano, o chefão da máfia com depressão e crises de pânico, certamente não teríamos os Walter Whites e Don Drapers que tanto habitaram a cultura pop nos últimos anos.

Portanto, é compreensível que, devido ao enorme impacto da série, exista uma enorme ansiedade por este filme, um prólogo que se passa nos anos 60 e 70 preenchendo algumas lacunas deixadas na obra original. Estreando 22 anos após a estreia da série, The Many Saints of Newark, que veio diretamente para a HBO Max no Brasil (e foi lançado simultaneamente nos cinemas e no streaming nos EUA, para a insatisfação de Chase), no afã de agradar quem já conhece a história de Tony e sua família, parece assumir o espírito daquela peculiar frase “eu sou fã e quero service” o que não necessariamente é uma coisa boa.

Tomando como ponto de partida os protestos de julho de 1967 em Newark, e mostrando as consequências destes para as famílias da máfia da região de Nova Jersey da época, The Many Saints of Newark já começa com uma narração em off que é um spoiler imenso de eventos que ocorrem na temporada final de Família Soprano. A forma como é feita é um deleite para os fãs, obviamente, mas corre o risco de repelir espectadores interessados em mergulharem na série pela primeira vez.

Isso acontece de várias formas e em muitos momentos: desde piadas internas, frases icônicas sendo repetidas, e rimas narrativas, grande parte do que é exibido e ressaltado neste filme só tem graça para, ou exerce algum interesse, em quem assistiu a série. Isso limita em muito o filme, e acaba deixando qualquer frescor e inovação que a obra possa vir a oferecer por conta daqueles personagens e eventos que ainda não conhecemos, ou sobre os quais ainda não ouvimos falar.

Desta forma, o Dickie Moltisanti de Alessandro Nivola é um completo deleite: ainda que absolutamente nada pudesse ter feito justiça à imagem idealizada e mistificada propagada tanto por Tony quanto por Christopher na série original, Nivola encarna um homem que em muito lembra o Anthony adulto encarnado pelo falecido James Gandolfini na série – temperamental e volátil, é ora carinhoso, ora cruel; agride seus aliados com a mesma mão que os afaga, e não mede esforços para manter o controle de tudo o que conquistou.

Além de Nivola, são notáveis as atuações de Leslie Odom Jr., ícone da Broadway conhecido por Hamilton, interpretando o antagonista Harold McBrayer, que infelizmente é esquecido lá pela metade do filme pela necessidade de Chase e do diretor Alan Taylor de fazerem fanservice, e resgatado de forma pouco útil ; e Ray Liotta, como os irmãos gêmeos Hollywood Dick e Sally – que, sendo duas personalidades conflitantes, agem como espelho e como norte para o personagem de Nivola, e como estudo de caso para os prováveis destinos dos homens daquele mundo da máfia italiana em Newark.

Vale destacar, ainda, algumas das representações de personagens que já conhecemos. Alguns partem para a caricatura, como John Magaro imitando o Silvio Dante de Steven Van Zandt ao ponto de não conseguir entregar absolutamente nada de emoção em uma cena importante por estar mais preocupado em replicar os cacoetes de Van Zandt do que em atuar – e isso, por si só, evidencia uma tremenda falha na direção, que parece ter interpretado esta atrocidade como uma coisa boa, afinal, fanservice.

Alguns, por outro lado, conseguem imprimir originalidade em um papel já tão demarcado e delimitado – aqui, destacam-se Vera Farmiga como Livia Soprano e Michael Gandolfini como Tony.

Se Gandolfini impressiona por conseguir coadunar o garotinho confuso do primeiro ato do filme, interpretado por William Ludwig, e o mafioso volátil e imponente interpretado por seu pai ao longo dos oito anos de exibição original da série; Farmiga, em um toque de gênio, assume não apenas a fisicalidade da personagem arrogante, imponente e insensível outrora interpretada pela falecida Nancy Marchand, como a dilui em traços de personalidade (e de aparência física, vale dizer) de Carmela Soprano, referenciando toda a questão freudiana levantada de forma recorrente pela Dra. Jennifer Melfi na série original. Contudo, a genialidade destas duas atuações é só mais uma das dezenas de coisas que ficam completamente perdidas e morrem na praia se o espectador não conhecer as atuações de James Gandolfini, Marchand e Edie Falco na série.

Por fim, o plot twist final é interessante, e causa um impacto tremendo na lore da série original, mas é apenas isso – não é construído de forma nenhuma dentro da narrativa do longa , e não faz sentido algum para quem não conhece a personalidade vingativa e autocentrada de um personagem em específico, que não tem tempo de tela o suficiente para ser desenvolvido ao ponto de um espectador que o desconheça achar sua ação coerente.

Sendo assim, nos resta apenas questionar qual teria sido o objetivo de Chase e Taylor com essa obra, além do (óbvio) pecuniário, e por qual cargas d’água este filme ter sido lançado simultaneamente na HBO Max, se ele não tem apelo algum para quem não conhece Família Soprano – e, consequentemente, não teria feito uma bilheteria muito grande se tivesse saído somente nos cinemas no meio de uma pandemianão foi uma boa ideia, como implica Chase em todas as suas declarações públicas em que expressa seu enorme descontentamento com a estratégia de distribuição da Warner. The Many Saints of Newark não é Duna para se sustentar nos cinemas desta forma, sr. David Chase, e nem precisava sermas se tanto o queria, que começasse pelo menos com um bom roteiro.

Nem todo fã precisa de service.

Confira o trailer de The Many Saints of Newark:

Leia Também:

E se você gostou do nosso conteúdo, apoie-nos através das nossas redes sociais e acompanhe nosso podcast

Facebook RSS Youtube Spotify Twitch


Receba conteúdos exclusivos!

Garantimos que você não irá receber spam!

Compartilhe essa matéria!
Imagem padrão
Gabriela Spinola
Tradutora, mineira, e eternamente emo.
Artigos: 194
Se inscrever
Notificar de
guest
3 Comentários
Mais velho
Mais novo Mais votado
Feedbacks em linha
Ver todos os comentários

[…] Crítica | “The Many Saints of Newark”: Muitos santos, poucos milagres […]

[…] Crítica | “The Many Saints of Newark”: Muitos santos, poucos milagres […]

[…] Crítica | “The Many Saints of Newark”: Muitos santos, poucos milagres […]