Entrevista | Jorge Allen – O talento por trás de Realidade Z9 minutos

Das entranhas de Olinda (PE), o escultor Jorge Allen, o monstro por trás de As Fábulas Negras e Realidade Z.

Quem disse que não assustamos ninguém? E não me refiro à nossa atual política, mas às produções nacionais. Não, não estou sendo irônico ou pejorativo. Embora sejamos peritos em ótimos filmes de diversos gêneros, ainda engatinhamos na produção de terror. Não se sabe ao certo o porquê de tal lacuna, já que temos um ávido público consumidor de terror e um rico folclore nacional a ser explorado. Entrevistamos hoje Jorge Allen, ícone do terror brazuca.

O escultor de As Fábulas Negras e Reralidade Z, Jorge Allen, com um cachimbinho e um chapéu, fazendo pose de Marinheiro Popeye.
O escultor Jorge Allen.

Muito além de José Mojica Marins, o nosso Zé do Caixão, infelizmente encaixotado no fatídico ano de 2020, o Brasil vem se destacando cada vez mais em produções de terror. Nesse interim, brota das entranhas de Olinda o escultor Jorge Allen. Bacharel em Escultura pela Escola de Belas Artes da UFRJ, Jorge está na Cidade Maravilhosa, cheia de embustes mil, há 17 anos.

Jorge foi cenógrafo, restaurador e até subgerente da extinta Fosfobox e, segundo ele, acabou caindo nos Efeitos Especiais Práticos por acaso. Entre outros trabalhos, o pernambucano foi um dos responsáveis pelas cicatrizes, arranhões e feridas abertas da série Realidade Z, a versão brasileira de Dead Set, de Charlie Brooker, o mesmo roteirista de Black Mirror.

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Como toda produção tem seus bastidores, vamos conhecer o monstro (e, por “monstro”, estou elogiando) por detrás das câmeras. Otakus e Geeks, Jorge Allen:

Otageek- Como você começou a carreira de Efeitos Especiais Fantásticos? Você disse em seu release que foi “por acaso”. Rs Quando foi (que ano)?

Jorge Allen- Eu comecei meio que por acaso. Eu trabalhava com cenário e namorava uma garota de direção teatral. A garota era da ECO (Escola de Comunicação da UFRJ) e eu era da Escola de Belas Artes, especialização em Escultura. Comecei a fazer cenários e tudo o mais e daí me chamaram pra fazer direção de arte de um curta de zumbis da galera da ECO. Um pouco depois, o Rodrigo Aragão veio dar uma oficina lá no Rio e eu já tava com o projeto com o Dan de fazer umas bizarrices; uns bonequinhos, umas camisas bacanas… e aí a gente mudou o foco pra efeito especial. Assim, do nada! Foi assim  que eu comecei. E… eu continuei. Foi um processo. Foram uns 10 anos de perrengue até as coisas começarem a vingar.

“Foram dez anos de perrengue até as coisas começarem a vingar.”

Daí a gente teve a Nurder. A Nurder acabou e a gente teve a Mapinguari, que fechou por conta da pandemia e agora a gente tá com a recém-criada Morpho FX, cujo foco é mais voltado para aulas. Ainda trabalhamos com set; ainda fazemos caracterizações mas é uma coisa ainda mais profissional. Lecionamos e vendemos materiais.

Otageek- Além de Rodrigo Aragão, vc poderia citar outros filmes, séries e clipes onde trabalhou? Vc trabalhou no Realidade Z, não?

Jorge Allen- O primeiro clipe importante que a gente fez foi de uma banda chamada Doo Doo Doo, chamado Carnaval no Fogo, que a gente fez um zumbizão. Ali foi o nosso primeiro grande trabalho. Clipes eu trabalhei em vários, tanto em direção de arte como assistente de arte como efeitos especiais. Desde o Maldito, com a banda Maldita, com o Zé do Caixão – que é uma das pessoas mais legais que conheci, diga-se – a gente fez uns três ou quatro. Tem um de uma banda chamada Playmoboys, cujo nome da música não lembro, mas a gente fez a nave espacial.

Á esquerda, Jorge Allen e à direita, Rodrigo Aragão. Ambos abraçam um zumbi (entre eles)
Jorge Allen e Rodrigo Aragão

Realidade Z; A Divisão; Bom Dia, Verônica, o sangue todo da série é meu e uma prótese de espancamento que aparece no final eu fiz com o meu sócio, Tomas Gravina. Fizemos um gato morto pro Carcereiros. A gente faz umas pontinhas aí. Mais importante e mais relevante aí foi o Realidade Z e A Divisão. A gente tá fazendo alguma coisa pro Arcanjo Renegado agora – a segunda temporada.  

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Jorge Allen e, ao fundo, uma horda de zumbis no set de Realidade Z
Criador e criaturas

Filmes? Bom, Clube dos Canibais, de Fortaleza, que eu ainda não vi, mas que eu fiz com o Rodrigo Aragão. Com ele também fiz o As Fábulas Negras e o A Mata Negra, A Mesa no Deserto, Destino das Sombras (em que eu nem estava na equipe dele, mas na equipe de arte) e O Cemitério das Almas Perdidas. Isso tudo em território capixaba. A gente deve fazer mais um filme ano que vem em São Paulo.

Otageek- Com o grande público consumidor de terror, quadrinhos e metal (música), por que ainda estamos engatinhando no cenário do terror? As plataformas nacionais e emissoras não tem coragem de investir? Por quê?

 

Jorge Allen- A gente ainda está engatinhando porque nesse sentido – e eu já vou juntar com a questão de material – porque não se dava muita importância pra isso no cinema. Não se tinha cinema de gênero no Brasil até pouco tempo. Com essa profusão de séries e filmes que está ocorrendo, boa parte é policial, mas policial tem sangue, tem essa caracterização, tem isso tudo. Ficção científica é uma coisa difícil no Brasil, mas eu faço lá com o Eduardo Kurt.

Sempre foi um mercado underground. Sempre foi uma parada, assim… o “vira-lata” é que gosta.”

Sempre foi um mercado underground. Sempre foi uma parada, assim… o “vira-lata” é que gosta. Agora é que a maioria das pessoas está gostando de ver esse tipo de coisa. Boa parte por causa do The Walking Dead. A série trouxe o terror de volta à boca do povo.

Otageek- Com relação aos materiais de trabalho, eles são escassos no Brasil?

Como tem muito mais gente agora fazendo isso, agora você acha importadoras de silicone platinum, que é um dos materiais que a gente mais usa. Concorrência é sempre legal! Concorrência é sempre bom e na verdade é sempre bom ser amigo dessa concorrência, porque todo mundo trabalha junto e feliz. A gente tá saindo do látex, da espuma do látex, finalmente. A gente tá, no Brasil, o que era em Hollywood, em Los Angeles, vinte anos atrás. Talvez seja um exagero meu, mas é quase isso.

Uma mão decepada cenográfica

“Concorrência é sempre legal! E é sempre bom ser amigo dessa concorrência, porque todo mundo trabalha junto e feliz.”

Otageek- O atual governo prejudicou as produções nacionais do gênero terror e realismo fantástico?

Atrapalhou, claro! O governo atual só atrapalha! A Mapinguari faliu por causa da pandemia. Tinham vários trabalhos fechados e/ou suspensos e o governo não ajudou em nada.

Otageek- Vc já foi vocalista de uma banda de thrash metal, né? O Sick. Conta como foi essa experiência.

Jorge Allen- Foi uma das melhores épocas da minha vida. Era uma banda de thrash metal lá de Olinda, Recife. Foi do c*ralho! Quê mais que eu posso falar do Sick? Foi do c*ralho! 

Otageek- Vc fez a máscara do guitarrista do Gangrena Gasosa. Quais os seus outros trabalhos com efeitos especiais de bandas e clipes?

Eu fui o Omulu (todos os músicos da banda Gangrena Gasosa se vestem como entidades da Umbanda) do Gangrena durante um ano, um ano e pouquinho e também foi muito f*da! Até porque o Gangrena, na minha opinião, é uma das bandas mais relevantes que mistura o horror, mistura misticismo…

A banda Gangrena Gasosa
Gangrena Gasosa

O Gangrena faz melhor o que o Slipknot jamais conseguiria fazer e que o Sepultura tentou fazer uma época. Eu acho que o Gangrena só perde pro Gwar em termos de caracterização e shows… e zoeira nas músicas.

Otageek- Você acha necessário trabalhar apenas o folclore e imaginário nacional como em A Mata Negra, Curupira e outros ou acha que é possível, sim, fazermos terror “universal” com vampiros e outros temas que não abordem a cultura nacional?

Jorge Allen- Eu acho muito importante trabalhar com o folclore nacional. Ele é rico. Ele é cheio de coisas muito mais cabulosas! Por exemplo: a gente tem o lobisomem nacional que não é o lobisomem europeu. É um homem metamorfo. Às vezes é meio porco; às vezes. Meio lobo, meio cachorro. O ideal seria que mais cineastas, mais artistas, se utilizassem da cultura nacional. O que é o Papa-Figo se não o nosso vampiro, o vampiro nacional? 

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Otageek- Vc tem uma filha e isso me lembra Nasce um Monstro? Ela curte o universo do terror? Filho de peixe, peixinho é?

Jorge Allen- Sim. Minha filha é, total, filho de peixe, peixinho é. A mãe dela também gosta muito da temática, principalmente caveiras e tudo o mais. O primeiro filme favorito da minha filha foi O Estranho Mundo de Jack. Depois, Hotel Transilvânia. Só coisa relacionada ao terror.

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A filha de Jorge Allen

Pra você ter uma ideia, os personagens favoritos dela são o Pennywise e o Chuck. E ela se amarra¹! É claro que, como toda criança, ela tem medo do escuro, mas ela vai no nosso ateliê e fica amarradona²! Isso é uma das coisas que me deixa mais feliz na minha relação com ela.

1- Gosta muito, em carioquês.

2- Vidrada

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Claudio Siqueira
Escritor, poeta, Bacharel em Jornalismo e habitante da Zona Quase-Sul. Escreve ao som de bits e póings, drinkando e smokando entre os parágrafos. Pesquisador de etimologia e religião comparada, se alfabetizou com HQs. Considera os personagens de quadrinhos, games e animações como os panteões atuais; ou ao menos, arquétipos repaginados.
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