Crítica | A filosofia cartesiana de Night Head 2041 na Crunchyroll9 minutos

Anime da temporada que está disponível no serviço de streaming da Crunchyroll, Night Head 2041 apresenta um enredo complexo e é um prato cheio para os amantes da filosofia.

Baseado em uma novel japonesa lançada no ano de 1992, o anime apresenta uma Terra futurista, nos melhores moldes do estilo cyberpunk. Com personagens estilosos e roteiro futurista, o anime é muito mais profundo do que parece.

Imagem do anime Night Head 2041
Imagem oficial do anime Night Head 2041, no qual o estilo cyberpunk é mais do que uma distopia.

Importante lembrar que Night Head é uma franquia que possui várias adaptações e farei a crítica do anime de 2021, Night Head 2041.

Do que se trata Night Head 2041?

Somos apresentados a uma sociedade na qual não há espaço para pensamentos abstratos. Ou seja, acreditar em seres mitológicos, religião ou o simples fato de duvidar de acontecimentos é passível de censura e brutas punições.

É nessa sociedade que vivem os irmãos paranormais Naoto e Naoya. Após serem encarcerados como experimentos, eles conseguem a liberdade. O principal intuito dos dois é procurar alguma pista sobre o passado.

Naoto e Nayoa, irmãos paranormais do anime procurando pelo passado.
Os irmãos Naoto e Naoya na sua busca pelo passado.

Da mesma forma que há o par de irmãos com um passado obscuro, para contrabalancear estão Takuya e Yuya. Esses, por sua vez, servem a uma missão especial para evitar e investigar acontecimentos anormais na sociedade.

É um anime cercado de mistérios, no qual, aos poucos, as peças vão se ligando e a ação ocorre frequentemente. Night Head 2041 também entrega algo entre a ação, o ato do questionamento e a questão da crença.

Um mundo voltado para a racionalidade

Como dito anteriormente, a grande questão do anime é: como funciona e trabalha uma sociedade sem qualquer fato abstrato?

Desde os tempos mitológicos, a sociedade humana vive junto da crença sobre coisas abstratas. Por exemplo, a sociedade grega antiga acreditava nos deuses de sua mitologia. E mesmo com o advento da filosofia, os deuses continuaram presentes na crença da sociedade.

Irmãos Takuya e Yuya, militares ao estilo cyberpunk da franquia Night Head
Takuya e Yuya, o primeiro par de irmãos do anime. Os dois são militares e fiscalizam eventos adversos na sociedade.

Então, é natural ao ser humano acreditar em fatos e coisas que ultrapassam os limites da racionalidade. Mas em Night Head 2041, a simples menção a seres como fadas é passível de punições. O anime mostra uma sociedade cética, na qual é proibida qualquer coisa fora da racionalidade, mas seria esse tipo de comportamento normal para os seres humanos?

Para responder, utilizaremos trechos do livro “Meditações Metafísicas”, do filósofo francês René Descartes, muito conhecido por sua análise metódica da metafísica ou de como o ser humano pode conhecer verdadeiramente algo por si mesmo.

O transbordar do copo:

De acordo com o pensamento do filósofo René Descartes:

“(…) ainda que os sentidos nos enganem às vezes, no que se refere às coisas pouco sensíveis e muito distantes, encontramos talvez muitas outras das quais não se pode razoavelmente duvidar, embora as conhecêssemos por intermédio deles: por exemplo, que eu esteja aqui, sentado junto ao fogo, vestido com um chambre, tendo este papel entre as mãos e outras coisas desta natureza. E como poderia negar eu que estas mãos e este corpo sejam meus?”

DESCARTES, René. Meditações Metafísicas. In. Textos básicos de Filosofia. Pp.75. MARCONDES, Danilo.

Como sabemos, é comum ao ser humano a percepção sensível, ou seja, o contato com os sentidos. Logo, de acordo com Descartes, não seria natural negar a existência dos sentidos, mesmo que esses nos enganem.

No caso de Night Head 2041, a questão é a crença em acontecimentos paranormais ou na religião. E embora acontecimentos paranormais estejam acima do entendimento racional humano, eles são fatos frequentes no anime.

Se no universo do anime poderes paranormais existem e as pessoas conseguem acessá-los, como negar a existência deles? Ainda seguindo Descartes, não se pode negar algo que o corpo logicamente vê e sente.

Foto de Naoto e Naoya junto de seus pais.
Ás vezes, nem tudo é o que parece.

Seguindo a lógica cartesiana, o ser humano é enganado pelo sonho e a ilusão. E isso é algo muito comum no anime, pois os personagens encontram situações nas quais não há como diferenciar o real do imaginário.

“(…) ou se porventura, sua imaginação (do pintor) for assaz extravagante para inventar algo de tão novo, que jamais tenhamos visto coisa semelhante, e que assim sua obra nos represente uma coisa puramente fictícia e absolutamente falsa, certamente ao menos as cores com que ele a compõe devem ser verdadeiras. (…).

                                                                                                          Idem, pp.76

Pegando o gancho nessa citação, os acontecimentos do anime não são menos reais, por mais absurdo que isso pareça. A realidade não é apenas o que conseguimos raciocinar, mas também o que conseguimos sentir.

Por mais que os personagens neguem habilidades especiais ou fatos com a religiosidade, os sentidos não deixam que esses sejam menos verdadeiros, mas, pelo contrário, fazem com que eles sejam parte da realidade.

A questão crença em Night Head 2041

O anime não aceita interferências divinas, mas a figura de Deus é presente na filosofia cartesiana, por mais que a percepção sensorial impeça nosso conhecimento verdadeiro. Para continuar o pensamento, temos a argumentação sobre o gênio maligno.

Caso exista um ser superior com a intenção de enganar o homem por meio dos sentidos, ou seja, nossa possibilidade de conhecer todas as coisas que sentimos, então deveríamos suspender nosso juízo acerca do gênio maligno.

(…) Suporei, pois, que há não um verdadeiro Deus, que é a soberana fonte da verdade, mas certo gênio maligno, não menos ardiloso e enganador do que poderoso, que empregou toda a sua indústria em enganar-me. Pensarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas exteriores que vemos são apenas ilusões e enganos de que ele se serve para surpreender minha credulidade. (…) Permanecerei obstinadamente apegado a esse pensamento: e se, por esse meio, não está em meu poder chegar ao conhecimento de qualquer verdade, ao menos está ao meu alcance suspender meu juízo. Eis por que cuidarei zelosamente de não receber em minha crença nenhuma falsidade e preparei tão bem meu espírito a todos os ardis desse grande enganador que, por poderoso e ardiloso que seja, nunca poderá impor-me algo.”

Idem. pp 77.

Essa citação resume toda a situação acerca da questão da crença do anime. Se há algo que interfere na forma pela qual eu consigo conhecer o mundo que me cerca, o melhor é suspender meu juízo. Na primeira possibilidade da quebra desse padrão, não devo receber coisas falsas que coloquem meu conhecimento racional em xeque.

Rebeldes contra o regime racional e lógico que é encontrado em Night Head 2041.
Além da presença militar, também há grupos rebeldes que são contra as medidas lógico-racionais.

Night Head 2041 tem seus próprios motivos para negar a existência de seres e fatos sobrenaturais, até mesmo a mais simples alusão a eles. Crer no que não pode ser racionalizado é loucura e os personagens evitam, a todo custo, alusões às crenças.

O conjunto do anime se completa com um governo opressor, digno dos livros do George Orwell, o que intensifica o medo e terror dos personagens ao observar eventos sobrenaturais. Os que, querendo ou não, acreditam ou inserem coisas sobrenaturais na vida diária, são presos em prisões especiais ou até mesmo mortos.

Conspirando contra a sociedade?

Takuya, Yuya, Naoto e Naoya são centrais nesses eventos. Takuya e Yuya vão precisar trabalhar juntos e superar a aversão aos eventos que estão por vir em toda essa distopia. Enquanto isso, Naoto e Naoya necessitam encontrar peças e juntar o grande quebra-cabeça da existência, cujo único rastro são memórias quebradas e os acontecimentos paranormais.

Será que Descartes também seria censurado na sociedade do anime? Com certeza, por mais que o filósofo admitisse uma forma racional de conhecimento, a mínima alusão a Deus já é passível de um destino à la Fahrenheit 451 de Ray Bradbury.

O anime ainda não foi finalizado, mas em cada episódio fica evidente o controle da sociedade (futurista) em algo que deveria ser individual a todos nós: nossa capacidade de compreender o mundo e ter nossas crenças, sejam elas racionais ou não.

Confira abaixo o trailer do anime:

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Thamiris Obana
Professora de Filosofia e Letras, pós-graduanda em Competências Socioemocionais. Girl from São Paulo, gosto de otome game, lasanha e livros.
Artigos: 46
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