Crítica | No Limite do Mundo – uma viagem convincente pela História8 minutos

Filme histórico de Michael Haussman evita clichês modernos hollywoodianos e se empenha em parecer verossímil.

Estrelado por Jonathan Rhys Meyers (The Tudors), ‘No Limite do Mundo‘ retrata a história real da empreitada do inglês Sir James Brooke, com início em 1839, na ilha de Bornéu. Esse específico desenrolar de fatos no sudeste asiático já inspirou até mesmo clássicos do cinema, como Apocalypse Now (1979).

Jonathan Rhys Meyers e Dominic Monaghan estampam o pôster de No Limite do Mundo como personagens principais.
Jonathan Rhys Meyers e Dominic Monaghan interpretam soldados exploradores ingleses.

No século XIX, o império britânico se fazia presente em todos os continentes do mundo e era conhecido como “o império onde o sol nunca se põe“. Sob o comando da Rainha Vitória, o Reino Unido passou por um período de mudança científica, política, industrial, cultural e militar que ficou conhecido como Era Vitoriana.

Nesse cenário de expansão de um império que já era enorme, conseguir mais uma colônia no sudeste asiático parecia ser tarefa fácil. E a ilha de Bornéu (atualmente correspondente ao território da Malásia e de uma parte da Indonésia) era considerada um prato cheio: uma ilha tropical três vezes maior que a Grã-Bretanha, rica em ouro, carvão e especiarias, além de uma localização marítima estratégica.

No entanto, quando James Brooke desembarca com sua pequena tripulação em Bornéu, em uma missão de reconhecimento de território, tudo começa a sair fora do planejado…

Tripulação composta por quatro ingleses, enviados para explorar e estabelecer relações diplomáticas com Bornéu, no íncio de No Limite do Mundo.
Exploradores ingleses chegam à selva tropical de Bornéu.

No Limite do Mundo: uma verdadeira aula de História

No filme, vemos a trajetória do explorador inglês James Brooke ao chegar em terras desconhecidas e se apegar cada vez mais àquele contexto até se tornar rei. Na ocasião, Brooke precisou desafiar a coroa britânica, bem como lutar contra a colonização, escravidão e o ataque de piratas nas terras de Bornéu.

Com isso, o protagonista teve que aprender a ser um novo homem, com outros costumes e cultura, mas sem abdicar de sua índole – Brooke é contra assassinatos, sacrifícios e escravidão, e prefere a diplomacia à guerra. Ao ser cada vez mais inserido nesse mundo, apega-se e se apaixona cada vez mais pela nova vida que está construindo ali, além de encontrar um par romântico que sempre sonhou.

Motivado a trazer paz à Sarawak, Brooke se depara com situações de conflitos intermitentes entre tribos e resolve intervir. Um fato interessante é que o longa foi filmado no local exato dos acontecimentos (Sarawak, um estado da Malásia, em Bornéu).

Bront Palarae encara James Brooke cara a cara, disputando o controle de Salawak.
O comandante inglês James Brooke entra em conflito com a aristocracia de Sarawak.

Foi difícil para mim não enxergar o interesse romântico entre Brooke e uma princesa nativa como uma inspiração em ‘Pocahontas‘. Mas, se levarmos em conta que casamentos entre europeus e nativos não eram tão incomuns nas colônias, não parece ter sido uma decisão de roteiro tão atípica. Afinal, essa união pode, de fato, ter fundamentos históricos.

Aos poucos, no desenrolar da narrativa, vamos conhecendo mais sobre o passado do protagonista e sua vida pessoal, suas motivações e dilemas, mas sem muitos detalhes. O que mais importa, efetivamente, é que Brooke encontrou em Salawak uma oportunidade de ter uma vida diferente e ser alguém mais importante, com a capacidade de ajudar aquele povo. Esse é o principal combustível que o leva tão longe.

Para mais, a fim de contextualizar a obra e lançar mais informações sobre os personagens, o período, e os locais os quais o filme representa, são passadas informações históricas ao espectador no início e ao final do longa, de modo a interligar os acontecimentos da obra com a História que conhecemos.

Uma obra respeitável e esclarecida

No Limite do Mundo‘ é um daqueles filmes de época que, à primeira vista, podem dar a impressão de pseudo-documentário; ou, no limite, de se enquadrar em um daqueles filmes com orçamento relevante que transitam entre o realismo histórico e a fantasia, com fórmulas-padrão de filmes norte-americanos, como o primoroso “No Coração do Mar” (2015). No entanto, logo nos primeiros minutos, o diretor Michael Haussman já deixa bem claro que o tom realista será seu maior artifício para dar identidade – e propriedade – à obra.

Um dos recursos utilizados para construir uma atmosfera verossímil é a fotografia imersiva. Com movimentos e ângulos de câmera que valorizam o cenário, o diretor coloca o espectador no centro dos acontecimentos, como se assistisse pessoalmente aos eventos e explorasse a selva tropical malaia ao lado dos personagens.

James Brooke e rainha Fatimah se apaixonam.
Jonathan Rhys Meyers e Atiqah Hasiholan formam par romântico no longa.

Além disso, as atuações precisas e talentosas do elenco não se prendem dogmaticamente a estereótipos e dão vida a personagens que poderiam muito bem ser confundidos com pessoas reais. Aqui, Haussman entende o lugar de cada personagem na trama e conduz o elenco com sensibilidade o suficiente para não deixar que se crie arcos artificiais que só deixariam o roteiro mais complexo – e possivelmente cansativo.

Os diálogos, por sua vez, são inteligentes e bem aproveitados para desenvolver a trama e revelar informações sobre os personagens no momento certo. Ademais, é comum encontrar discursos com um pouco mais de profundidade e frases de efeito que normalmente pareceriam clichês, porém, graças ao brilho de atuação do elenco, as linhas de diálogo soam mais naturais do que estamos acostumados.

E para dar mais dinamismo à obra, o diretor opta por cortes rápidos e abruptos, que economizam tempo de desenvolvimento da narrativa e criam atalhos para a história avançar com mais fluidez – dadas as limitações de roteiro –, já que a obra se baseia em fatos reais e não quer fugir muito do script. Portanto, não perde tempo embromando cenas de ação só para agradar o espectador que está acostumado com filmes blockbuster.

Também são inseridas cenas de violência sem corte – mas em proporções críveis – que visam impressionar o espectador com a rispidez da realidade daqueles povos. Empalamentos, decaptações, esfolamentos e desmembramentos ocorrem de maneira nua e crua, mas – por incrível que pareça – com poucos exageros gráficos. O exagero está na situação limite daquele contexto de violência, e não na forma de ilustrar isso.

Mas nem tudo é tão sublime…

James Brooke sentado em seu trono logo após ser delcarado rei de Salawak.
James Brooke é coroado rei de Salawak em ‘No Limite do Mundo’.

Um dos pontos que me chamou a atenção é que os cineastas não questionam as conotações colonialistas da história que estão contando, nem refletem muito sobre as investidas de tropas de salvadores brancos tanto quanto se esperava: além de algumas brincadeiras sobre se os ingleses iriam civilizar seus novos anfitriões ou vice-versa, a justiça de sua jornada nunca é questionada.

Evitando a difícil questão de saber se Brooke é um salvador branco, a visão superficial da narrativa parece sugerir que ele é um imperialista “benevolente” simplesmente porque, ao contrário de seus pares, ele não diz coisas racistas em voz alta e parece querer ajudar aquela civilização a encontrar a paz. Enquanto isso, as políticas e o estilo de governança reais de Brooke, depois que aceita o fardo de assumir o trono de Salawak, permanecem amplamente inexplorados, ofuscados por um enredo de romance e representações intermináveis ​​de costumes nativos sangrentos.

Apesar desses tropeços ideológicos, ‘No Limite do Mundo’ se distingue em seus visuais evocativos da beleza intocada de Bornéu (cortesia do diretor de fotografia Jaime Feliu-Torres) e na intensidade vivida de Meyers. Se o filme não pode deixar de parecer uma relíquia de uma era passada, isso é parte de seu apelo – o sol pode ter finalmente se posto no Império Britânico, mas pelo menos ainda não se pôs neste modo de contar histórias.

O filme chegou hoje (03) ao Brasil e está disponível nas plataformas digitais on-demand.

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André Shazy
Aficionado pelo universo de quadrinhos e super-heróis, sou um admirador nato da sétima arte. Pai de uma shih-tzu e membro de um grupo de RPG, atualmente faço graduação de Geografia na USP e aprendo sobre escrita criativa nas horas vagas.
Artigos: 33
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