Crítica | Notturno – o cotidiano como um campo de batalha no MUBI5 minutos

Notturno é um documentário de 2020, dirigido por Gianfranco Rosi. Filmado ao longo de três anos no Oriente Médio, entre Síria, Iraque, Curdistão e Líbano, o longa mostra diferentes perspectivas de pessoas que convivem diariamente com a guerra, e mesmo não estando na linha de frente, têm suas vidas transformadas pelo impacto e crueldade de uma guerra que há muito dita o ritmo dos seus destinos.

Cartaz do documentário Notturno - Otageek

Logo na abertura do documentário, Rosi já abre nossos olhos para o que encontraremos em seu filme:

“Após a queda do Império Otomano e o fim da Primeira Guerra Mundial, as potências coloniais esboçaram novas fronteiras para o Oriente Médio. Durante as décadas seguintes, ganância e ambição de poder deram origem a golpes militares, regimes corruptos, líderes autoritários e interferência estrangeira. Tirania, invasões e terrorismo alimentaram uns aos outros em um círculo vicioso em detrimento das populações civis.”

Nesse sentido, encontramos em Notturno uma visão sincera daqueles que foram deixados de lado, trocados, esquecidos e estão pagando pelas consequências e escolhas de outras pessoas, por decisões que não estão em seu poder.

O Cotidiano Como um Campo de Batalha

Ao longo do filme, somos presenteados com belíssimas paisagens em plano – predominantemente – aberto, que transmitem a beleza dos lugares – quase como se fosse possível estar lá. A câmera de Rosi permanece sempre estática, como um espectador que, de canto, observa uma realidade se desenrolar à sua frente. Os cenários marcam, nesse filme, um grande contraste com o cotidiano triste e difícil das pessoas que acompanhamos.

As fronteiras que marcam os acontecimentos no documentário são quase intangíveis e nos encontramos em um lugar contemplativo em que não é possível se agarrar a algo concreto e/ou linear, do qual facilmente se extrai conclusões. No entanto, somos consumidos pelo impacto e potência que a história e seus personagens carregam.

Cena do documentário - Otageek

Outra característica de Notturno é que não há muitos diálogos e o impacto do filme vem das imagens que flagram olhares, expressões e momentos que dizem muito sobre tudo que está acontecendo. Quando, no início do filme, vemos uma mãe sofrendo pela morte do seu filho, brutalmente torturado, apenas suas expressões, seu olhar e trejeitos são capazes de transmitir sua dor. O modo como Gianfranco Rosi consegue captar esses sentimentos e traduzi-los de forma tão sensível constrói, imediatamente, um laço com o espectador.

Em outro momento, é apresentada também uma família na qual uma mulher cuida da casa e dos filhos mais novos, enquanto o filho mais velho sai todos os dias à procura de algum trabalho. Pela manhã, essa mulher arruma toda a casa, guarda os colchões e travesseiros que ficam na sala, dobra as cobertas… em meio a isso, Rosi interliga outras narrativas e, à noite, volta a mostrar a mulher arrumando a sala, desta vez para dormir.

Nesses pequenos detalhes de intimidade, o diretor demonstra como a situação de guerra, violência e conflito que essas pessoas vivem é contínua. Não se trata de uma notícia que se lê no jornal e depois deixa de existir, é algo que toma conta de seu cotidiano. A pessoa dorme e, quando acorda, tem essa realidade para enfrentar, dia após dia.

Ali, personagem em Notturno - Otageek
Ali, personagem em Notturno.

É dentro dessa família que conhecemos Ali, uma criança enigmática durante todo o filme, que não diz uma palavra. Suas expressões sempre estão carregadas de um misto de sentimentos que nem parecem ser possíveis de caber em alguém tão jovem. Esse, com certeza, é um dos personagens mais marcantes do documentário e semeia, em quem acompanha um pouco de sua história, diversas questões.

Outro ponto de vista interessante explorado em Notturno é o das crianças e como elas veem o terrorismo. Elas expressam, através de conversas e desenhos, aquilo que imaginam ser os terroristas e o que eles fazem. O resultado é uma sequência de desenhos que retratam muita violência, reflexo da percepção de mundo do que essas crianças viveram até ali.

Cena do documentário - Otageek

Notturno se encerra deixando um silêncio e, no lugar das respostas, inúmeros questionamentos, que prolongam e potencializam ainda mais o efeito arrebatador do filme.

Notturno está disponível no MUBI, juntamente com uma entrevista entre Alejandro González Iñárritu e o diretor Gianfranco Rosi.

Confira o trailer:

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Daniela Palmeira
Olá pessoal! Sou estudante de jornalismo, apaixonada por literatura e cinema! Estou por aí sempre escrevendo e conversando sobre livros, filmes e séries.
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