Crítica | O Buscador, a estreia de Bernardo Barreto na direção4 minutos

Ator de extenso currículo, Bernardo Barreto estreia na direção trazendo originalidade para uma história que já foi contada centenas de vezes: o drama da elite tradicional brasileira.

Enredo

O longa conta a história de Isabella (Mariana Molina), também conhecida por Dhara, que cresceu cercada de luxo mas se apaixona por Giovanni (Pierre Santos), ou Raji, um líder de uma comunidade sustentável que prega o amor livre.

Convidados para o almoço de dia dos pais, Isabella descobre que seu pai está envolvido em um dos maiores escândalos de corrupção do país. Pelo bem das aparências, a família ignora os manifestantes, mas a presença de Giovanni perturba os vínculos frágeis da alta sociedade.

Contrastes Sociais

O Buscador impressiona logo de cara. Com exceção da primeira cena, todas as outras foram rodadas em um plano sequência de caráter intimista, com violentas aproximações e movimentos um tanto desajeitados. O que poderia ser percebido como um erro, aqui se vê como peça fundamental para a construção da bagunça que é uma família moldada por aparências e superficialidades.

A comunidade alternativa Osho Rachana, onde os protagonistas se encontram no começo do filme, é um campo aberto para cenários lúdicos, encenações teatrais e a demonstração definitiva do contraste entre Raji, o líder, e Dhara, sua amada. Nunca os vemos tão despidos de tentações como quando estão ali.

Mas no momento em que se dirigem para a casa de luxo onde Isabella passou a infância, é necessário que se escondam em normas que ditam as tais morais e bons costumes. Giovanni, no entanto, se recusa a deixar de ser quem é para se enquadrar naquela prisão de aparências.

A classe conservadora rejeita o amor livre como uma ameaça do mundo moderno. Mas mesmo a superficialidade da burguesia deixa transparecer a profundidade individual de valores retrógrados aos quais se apegam tão desesperadamente para que não se afoguem neste mar de hipocrisias.

Homem oferece dinheiro para criança no filme de Bernardo Barreto
Os atores Luiz Felipe Mello e Erom Cordeiro em cena do filme de Bernardo Barreto.

Os clichês são praticamento obrigatórios para confeitar as relações interpessoais, mesmo as que se repetem desde os tempos coloniais. Todos são parte de uma “família”, mas todos sabem qual o seu lugar. Os empregados da casa, todos pessoas negras, são como segundos pais das crianças brancas.

Mas, claro, se não servirem os senhores como é exigido, serão descartados como lixo. Esse subtom não chega nem a ser tão discreto: conforme o filme avança, percebemos que cada um ali estaria disposto a pôr no fogo quem quer que seja se for para salvar sua pele e sua imagem. Em suma, é cada um por si e todos pelo status quo.

E no meio dessa tensão, Giovanni é um pássaro livre que se vê pousando em um ninho de urubus. A vitalidade do casal protagonista é gradativamente sugada pela toxicidade do ambiente. A dualidade de Isabella vem à tona com ferocidade, enquanto a luz de Giovanni se apaga um pouco mais a cada interação com os membros da família, e sua luta como o herói dessa jornada é se manter fiel a quem realmente é.

A teatralidade de Pierre Santos é um molde oportuno para construir a narrativa e o jogo cênico, às vezes se desencontrando com o naturalismo cinematográfico. Os personagens são caricaturas de si mesmos. O patriarca é o verdadeiro sentimento de nacionalismo da alta classe: um corrupto que tem como música favorita o hino nacional. A mãe é superprotetora, tanto dos filhos quanto do padrão de vida.

A liberdade sexual e o abuso de substâncias estão escondidos atrás das portas, deixando visível apenas a violência e a infelicidade. A criança, por sua vez, representa o recorte da geração a ser moldado: seu comportamento em cena é influenciado fortemente por quem o acompanha, deixando em aberto a esperança da mudança.

Em crescente construção de uma sinfonia caótica, Bernardo Barreto expõe com simplicidade e intimismo que a maior fragilidade do ser humano é, de fato, o ser.

O Buscador estreia nos cinemas em 29 de Julho.

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Clara Lima
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