Crítica Loki | Episódio 6 – O fim de uma jornada, o início de uma era9 minutos

Episódio final não teve medo de entregar respostas em seus 40 minutos totalmente envolventes, mas inesperadamente discretos.

A manhã desta quarta-feira (14) foi diferente das demais. Hoje, demos adeus – ou melhor, um ‘até logo’ – a essa incrível jornada de Loki, cheia de reviravoltas e subversões que prometem abalar o Universo Cinematográfico da Marvel.

O 6º e último episódio da série do deus asgardiano, intitulado “Por Todo Tempo. Sempre”, finalmente chegou ao Disney+, e com a promessa de uma segunda temporada.

O capítulo de encerramento possui um texto preciso, bem calculado, e uma performance estreante de destaque, os quais se combinam para criar um episódio que deve mudar um universo (ou multiverso) para sempre.

Enfim, a resposta prometida

A clássica intro do MCU nos leva por uma breve viagem através do espaço, na qual ouvimos ao fundo frases marcantes e nostálgicas de outras produções dos personagens do estúdio. Com isso, o sexto episódio de Loki nos coloca exatamente onde queremos estar – no momento exato em que o Episódio 5 terminou.

Loki e Sylvie se veem em uma região desconhecida do universo, encarando um deslumbrante castelo sobre uma rocha flutuante. Eles parecem tão ansiosos para descobrir quem está por trás de tudo quanto nós espectadores e, felizmente, não precisamos esperar muito para que a cortina seja puxada.

E o criador da AVT é ninguém mais, ninguém menos do que ele próprio: Kang (desta vez, não Conquistador). Afinal, o personagem encenado por Jonathan Majors era esperado há muito tempo em Loki, e diversas teorias apontavam pistas e coincidências de que Kang, pelo menos, tinha algum papel por trás da AVT.

Loki, Sylvie e "aquele que permanece" no episódio final da série - Otageek
Loki e Sylvie finalmente encontram o homem por trás da Linha Temporal Sagrada.

Apesar de o episódio nunca afirmar explicitamente: “Ei, olhe, é Kang, o Conquistador!”, é muito fácil juntar as peças. Majors foi escalado para interpretar Kang em Homem Formiga e a Vespa: Quantumania; seu traje na série é muito parecido com o dos quadrinhos; e ele até se refere a si mesmo, em tom sarcástico, como um “conquistador”, em determinado momento.

É mais provável, no entanto, que o personagem denominado por “Aquele que Permanece” seja Immortus, uma variante dos quadrinhos do mesmo personagem, e não sua versão maligna ‘conquistadora’ de mundos.

Desconstrução para a Reconstrução

É inegável que o epílogo desta série da Marvel tenha fugido um pouco dos padrões narrativos aos quais estamos acostumados. Enquanto o final de WandaVision consolidou o verdadeiro potencial de Wanda como Feiticeira Escarlate e o final do Falcão e Soldado Invernal estabeleceu Sam Wilson como Capitão América, infelizmente, o final de Loki é dedicado a preparar o terreno para uma próxima temporada, sem encerrar qualquer arco de personagem.

Toda a situação construída a partir das etapas vencidas por Loki e Sylvie pareciam anunciar um grandiosíssimo confronto final: viajar para uma região inexplorada, passar por uma criatura poderosa que guarda o “tesouro”, entrar no castelo misterioso e digladiar uma batalha épica com o grande chefão. É assim que normalmente seria uma quest clássica (para citar Immortus), mas estamos falando da série do Loki – o óbvio é sempre a última opção.

Sophie Di Martino e Tom Hiddleston se encarando numa sala do castelo de Immortus - Otageek
Loki e Sylvie vão preparados para o confronto em momento clímax da jornada.

Aliás, logo após Loki e Sylvie passarem pela entrada do castelo, eles se deparam com a Senhorita Minutos, que tenta convencê-los numa cena que mais se parece com o momento de aviso antes de uma batalha com o chefão de algum jogo de videogame. Mas tudo não passa de uma máscara para elevar a ansiedade do espectador.

Nada de confronto com chefão aqui. A trama do episódio se concentra no embate verbal entre Loki, Sylvie e Immortus, no qual a dupla de variantes discute as possíveis consequências de encerrar o que vieram fazer: reestabelecer o livre arbítrio e matar o sujeito à sua frente. Mas como bem pontua o sábio, trata-se de um impasse profundamente moral e filosófico: ou continuam vivendo sob uma ordem sufocante onde o livre arbítrio é ilusório, ou criam um caos cataclísmico entre as linhas do tempo.

Em meio a todo o discurso, Tom Hiddleston e Sophie Di Martino, infelizmente, não têm muito o que fazer durante o episódio quando comparados a Majors, mas eles se mantêm e agem efetivamente como representantes do público durante todo o diálogo. Aliás, Majors rouba a cena com sua atuação envolvente e suficientemente carismática, partindo do humor ao drama com muita habilidade.

Jonathan Majors atuando como o personagem denominado de "Aquele que Permanece" - Otageek
Jonathan Majors rouba toda a atenção do episódio para si, ao entregar atuação carismática e habilidosa.

Apesar de não ser o Kang que todos estavam esperando, a sensação de decepção com a surpresa agridoce é logo preenchida por uma atmosfera de suspense em torno do personagem que se impõe – e precisa se impor – como peça central do episódio, fazendo com que o espectador se pergunte o que está para acontecer a cada minuto que se passa.

Em meio a tantas explicações, monólogos, embates filosóficos e ameaças, somos levados a uma reviravolta em que Loki e Sylvie se colidem, beijam, fazem as pazes e, em seguida, colidem novamente. A propósito, a única cena de ação do episódio é uma rajada breve – mas emocionante – de lâminas entre os dois, que culmina no momento comovente que todos os shippers aguardavam ansiosos: um beijo frontal completo.

Mas ainda que o beijo finalmente tenha acontecido, vale salientar que os personagens recusaram um final feliz proposto pela Senhorita Minutos, no início do episódio. Uma decisão moralmente correta em prol do “bem maior” acima de si mesmos, é verdade, mas o beijo posterior parece não merecido, principalmente com a química entre os dois se recusando a esquentar para algo além de morno.

Sylvie e Loki se beijam em momentos finais do episódio - Otageek
Sylvie e Loki se beijam, contrariando julgamentos biológicos e sociais.

Há também um realce metafórico que evidencia como as verdadeiras naturezas de Loki e Sylvie são opostas uma à outra. Enquanto um tem uma postura mais calculista, que evita o combate, a outra prefere agir com as próprias mãos e resolver seus problemas o mais rápido possível, de modo imediatista. São temperamentos que se chocam ao longo da série e ganham magnitude nesse episódio. É por isso que Loki e Sylvie parecem tão diferentes, mesmo sendo variantes do mesmo ser: eles não se convergem, eles se completam.

Tá, mas e agora?

O roteiro e a direção são fantasticamente eficientes em não fazer o episódio parecer cansativo, principalmente se levarmos em conta que sua maior parte se passa diante de uma espécie de escritório no meio do nada, recheado de diálogos elucidantes.

Afinal de contas, o que empolgou na série nunca foi a escala épica da sua história de confusão temporal, o dinamismo de suas cenas de ação ou a perspectiva da introdução de um grande vilão. O que tornou a série um sucesso de audiência – com direito, inclusive, à renovação para uma nova temporada – foi a profundidade da história que ela contou.

A questão agora, no entanto, é se a viagem valeu a pena. A série passou tanto tempo estabelecendo conceitos – AVT, Linha Temporal Sagrada, Guardiões do Tempo, Evento Nexus – apenas para destruir nossa compreensão deles no final. Ao menos, a quebra da mitologia construída nesses seis episódios abre um universo de possibilidades para uma trama futura. Podemos esperar qualquer coisa a partir do caos instaurado.

Ravonna conversando com Senhorita Minutos enquanto lê o seu timepad - Otageek
Ravonna Renslayer parte para jornada independente logo após receber arquivos da Senhorita Minutos.

E se a trama dos protagonistas ao lado de Immortus foi bem escrita e dirigida, as subtramas dos personagens secundários foram, contudo, esquecidas e/ou subutilizadas através de participações curtas e inconclusivas. A juíza Renslayer (Gugu Mbatha-Raw) emergiu como uma das personagens mais moralmente complexas da série nas últimas semanas, mas ficou praticamente relegada a uma participação especial neste episódio. É evidente que algo muito maior a aguarda na próxima temporada, mas ainda assim, foi meio decepcionante vê-la tão pouco.

Apesar disso, foram Mobius (Owen Wilson) e B-15 (Wunmi Mosaku) que entregaram o grande gancho ao final do episódio, revelando não serem as mesmas versões que Loki já conhecia. Isso porque a integridade da Linha Temporal Sagrada foi quebrada quando Sylvie matou Immortus, abrindo o multiverso. E parece que Loki terá que se virar em uma realidade comandada pelo déspota Kang, o Conquistador, e achar um meio de reencontrar seus companheiros verdadeiros.

Estátua gigante de Kang no saguão da AVT - Otageek
Estátua de Kang, o Conquistador na sede da AVT, demonstrando que nessa realidade não tem nada a esconder debaixo dos panos.

Sim, o multiverso voltou e não temos ideia da loucura que está por vir, apenas que uma guerra além de nossos pesadelos mais selvagens, com Kang no centro, está chegando. Eu não poderia estar mais ansioso para descobrir o que acontece a seguir ou como Loki e o resto dos personagens do MCU desempenharão seus papéis enquanto a Fase 4 se desenrola.

De agora em diante, parece que Kang, o Conquistador será o grande vilão peso-pesadoà la Thanos‘. É a vez do Déspota Temporal ser o grande responsável por dar dor de cabeça aos nossos queridos heróis nessa nova saga da Marvel que se abre.

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André Shazy
Aficionado pelo universo de quadrinhos e super-heróis, sou um admirador nato da sétima arte. Pai de uma shih-tzu e membro de um grupo de RPG, atualmente faço graduação de Geografia na USP e aprendo sobre escrita criativa nas horas vagas.
Artigos: 19
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