Crítica | A Última Floresta e a fuga do formato documental7 minutos

Com elementos incomuns ao formato documental, A Última Floresta nos aproxima da tribo Yanomami e seu lider Davi Kopenawa, que luta para manter as riquezas da Amazônia longe dos não-indígenas.

Nas aulas de História, somos levados a conhecer a criação do Brasil como nós o conhecemos a partir de 1500, quando os portugueses chegaram aqui. Estamos acostumados a uma cultura branca e europeia desde então. Mas antes de tudo, nos 500 anos prévios à “descoberta” do Brasil, já havia povos que habitavam o país. Um deles são os yanomamis, trazidos ao protagonismo em A Última Floresta.

No filme, em um grupo Yanomami isolado na Amazônia, o xamã Davi Kopenawa Yanomami tenta manter vivos os espíritos da floresta e as tradições, enquanto a chegada de garimpeiros traz morte e doenças para a comunidade. Os jovens ficam encantados com os bens trazidos pelos brancos; e Ehuana, que vê seu marido desaparecer, tenta entender o que aconteceu em seus sonhos.

Uehara escuta aviões sobrevoando em A Última Floresta - Otageek
Uehara, uma das personagens principais de A Última Floresta, escuta aviões sobrevoando perto de onde ela toma banho com marido e filhos. Fonte: Reprodução – Belas Artes à La Carte.

Dirigido por Luiz Bolognesi e com roteiro feito por ele e pelo próprio xamã Davi Kopenawa Yanomami, A Última Floresta participou de eventos como o Festival É Tudo Verdade 202 e a 24ª Mostra Panorama e representou o Brasil no Festival de Berlim de 2021. Agora ele faz parte da programação da Mostra Ecofalante de Cinema – Semana do Meio Ambiente: Especial Amazônia (disponível no streaming Belas Artes à La Carte por tempo limitado).

Documentário ou Filme?

O primeiro ponto que chama a atenção em A Última Floresta é que ele foge do formato comum de documentário: apesar de ter seus elementos documentais, muitos deles são trabalhados de forma cinematográfica. Os personagens nunca olham diretamente para a câmera quando dão seus depoimentos ou opiniões. Essa escolha torna-se interessante, pois foge do convencional e pode atrair pessoas que não se interessam muito por documentários.

Inclusive, documentário é o que menos se parece: A Última Floresta, no fim das contas, parece mais um filme, com um roteiro bem definido, personagens com histórias fictícias e até há uma encenação do amor entre os deuses Omama (Nilson Wakari Yanomami) e Thuëyoma (Roseane Yanomami). Essa relação foi uma das partes mais interessantes e bonitas do longa, dando mais lirismo à história.

Thuëyoma encontrando-se com Omama em A Última Floresta - Otageek
Thuëyoma, interpretada por Roseane Yanomami, após ser pescada por Omama. Fonte: Reprodução – Belas Artes à La Carte.

O arco de Uehara (Uehara Yanomami) também quebra bastante o formato documental, além de abordar a visão que a tribo possui em relação aos sonhos: na história, ela é uma mulher que tem que lidar com o sumiço do marido e acredita que ele foi levado pela deusa Yawarioma (Daucirene Yanomami). No entanto, esta parte, por mais que nos faça compreender melhor certas visões e culturas dos Yanomami, não funciona tão bem, pois não conversa muito com a proposta principal do longa.

Apesar disso, mesmo com o documentário sendo roteirizado, em nenhum momento você sente que aquela mensagem é falsa ou irrelevante. Pelo contrário: A Última Floresta é forte e urgente, deixando claro que o tratamento dado aos Yanomami e aos povos indígenas brasileiros não está correto.

A Força dos Yanomamis

A tribo não é retratada de forma frágil ou fraca: os Yanomamis seguem protegendo sua floresta, afastando os garimpeiros não-indígenas para evitar que eles invadam suas terras, apropriem-se de suas riquezas e os envenenem pelo mercúrio, devido à extração de metais.

A cultura indígena é muita rica e plural. Sabe-se que muitos elementos dessa cultura se enfraqueceram com o tempo, aproximando-os mais da cultura não-indígena, e foi muito interessante ver a cultura Yanomami sendo valorizada. O filme passa por diversos aspectos da tribo, como a culinária, a religião, os vestuários e a medicina, e mesmo que elementos não-indígenas surjam em tela, sempre acontecem de forma orgânica e não apresentando um estereótipo do “indígena moderno”.

Indígena yanomami tecendo tapete em A Última Floresta - Otageek
A cultura yanomami é apresentada de forma indireta em A Última Floresta, sem precisar contextualizar tudo. Isso acaba nos deixando mais próximos dos personagens. Fonte: Reprodução – Belas Artes à La Carte.

É interessante ver também a valorização da cultura e da história dentro da própria tribo, e como isso é importante para a preservação dela, visto que é muito comum ver não-indígenas que não conhecem ou ignoram aspectos cruciais da história brasileira (como é o caso das pessoas que defendem uma nova ditadura, por exemplo).

Os Yanomamis têm um foco em defender sua floresta e sua tribo e preservar sua cultura, afastando-se ao máximo do contato com a sociedade não-indígena. No entanto, em alguns momentos do filme, isso é posto em discussão, quando um jovem da tribo se mostra interessado no garimpo e quando Uehara, ao fazer um cesto, diz que seria interessante uma associação de mulheres que produzissem mais cestos e vendessem para pessoas fora da tribo e, assim, conseguissem comida.

Neste ponto, a participação de Davi é fundamental: ele, como xamã da tribo, é responsável por mostrar ou relembrar a importância dos Yanomamis para a manutenção da floresta e que, mesmo que em alguns momentos eles precisem de ajuda externa, nunca seriam totalmente aceitos em uma sociedade não-indígena.

A Preservação da Cultura Yanomami

É sabido que vivemos em momentos complicados. E é angustiante ver o nervosismo de uma tribo ao ver um legado, uma cultura, uma tribo tentando ser apagada constantemente, seja por garimpeiros ou pelo governo que não lhes dá amparo.

Davi Yanomami no quarto de hotel em A Última Floresta - Otageek
Davi Kopenawa Yanomami, xamã da tribo e figura central de A Última Floresta, após palestra na Universidade de Harvard. Fonte: 10ª Mostra Ecofalante de Cinema.

A mensagem de A Última Floresta, mesmo com os lirismos e arcos paralelos, é impactante e de extrema urgência: falta política para a preservação da tribo, que, com o novo governo, se vê cada vez mais abandonada e em perigo. De acordo com o próprio documentário, garimpeiros tentam invadir suas terras e poluem seus rios. A COVID-19 chegou até a isolada aldeia, e isso não seria possível se não fossem as tentativas dos não-indígenas de mexer em algo que não é deles de direito.

Na última cena do filme, Davi está em um quarto sozinho, após uma fala na Universidade de Harvard, e seu olhar é cansado, de alguém que segue lutando todos os dias pelo seu povo. A Última Floresta é uma tentativa de fazer com que alguém se importe e respeite um povo que faz tão parte do Brasil quanto os não-indígenas que habitam este país. Na verdade, com um povo que sempre fez mais parte do Brasil do que os europeus sempre tão valorizados.

Confira o trailer de A Última Floresta:

Mostra Ecofalante é um evento anual, que acontece desde 2012, sempre no primeiro semestre. Na segunda metade do ano, fazem-se itinerâncias em cidades do estado de São Paulo e, em 2018, estrearam com uma itinerância nacional. Ao longo do ano, também realizam-se exibições com parceiros educacionais e institucionais, democratizando o acesso às obras excepcionais de sua curadoria e levando cultura e informação com filmes e debates para cada vez mais lugares.

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Lucas Lima
Bibliotecário, seriador, aspirante a fotógrafo, pseudocinéfilo e viciado em música pop.
Artigos: 8
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