Crítica | Amazônia Sociedade Anônima7 minutos

Documentário mostra ação de mundurukus e ribeirinhos para demarcar suas terras e nos relembra a importância de preservar a floresta amazônica.

A Amazônia é o coração do Brasil, com riquezas e biodiversidade únicos, além de fonte de vida para várias pessoas. E como qualquer coração, seja no sentido literal ou figurado, ela é importante para nosso país. Mas essa importância vem sendo esquecida pela ganância de pessoas que só querem lucrar com a terra, esquecendo-se de todo o impacto que aquele ato pode gerar. O longa Amazônia Sociedade Anônima aborda com maestria essa questão.

Eu me sinto mais brasileiro do que brasileiro. Porque eu fui feito da terra.”

Juarez Saw Munduruku, liderança munduruku da aldeia Sawre Muybu, Itaituba (PA).
Fim de tarde da floresta em Amazônia Sociedade Anônima - Otageek
Vista da floresta amazônica. Fonte: Reprodução – Belas Artes à La Carte.

Em Amazônia Sociedade Anônima, filme dirigido por Estevão Ciavatta, diante do fracasso do governo brasileiro em proteger a Amazônia, índios e ribeirinhos, em uma união inédita liderada pelo Cacique Juarez Saw Munduruku, enfrentam máfias de roubo de terras e desmatamento ilegal para salvar a floresta.

Com produção de Pindorama Filmes, Imazon, Canal Brasil e Coletivo Audiovisual Munduruku, o filme abrange um período de cinco anos, entre 2014 e 2019, e esteve em eventos como o Festival do Rio e a Mostra Internacional de São Paulo. Agora faz parte da programação da Mostra Ecofalante de Cinema – Semana do Meio Ambiente: Especial Amazônia (disponível no streaming Belas Artes à La Carte por tempo limitado).

A terra não é nossa

“Antes nós, povos indígenas, quando foi invadido o Brasil, foi morto por arma de fogo, e hoje não. Hoje o governo quer matar os povos indígenas […] através de projeto.”

Juarez Saw Munduruku, liderança munduruku da aldeia Sawre Muybu, Itaituba (PA)

Apesar da sinopse, o documentário é bem mais abrangente, sendo a situação da tribo munduruku e dos ribeirinhos apenas uma das várias consequências da ganância dos empreendedores e da ineficiência do governo em proteger seu próprio território.

Durante sua duração, somos ensinados sobre todo o processo de grilagem e os furos que são aproveitados para que pessoas mal intencionadas se apropriem e lucrem com a terra de forma ilegal. Uma das partes mais interessantes do filme são os áudios interceptados de grileiros com as explicações dos entrevistados, deixando o telespectador ciente de como se dá todo o processo do crime organizado.

E, de fato, é um crime muito bem organizado: o documentário mostra que o desmatamento ilegal da Amazônia tem uma aparência de legalidade, pois é um processo amparado por papelada, além do fato de ser um processo feito por pessoas com muito dinheiro, o que acaba tornando as poucas ações tomadas contra elas ineficientes.

Trator de grileiros sendo queimado - Otageek
Trator utilizado para desmatar sendo destruído em ação do Ibama. Fonte: Reprodução – Belas Artes à La Carte.

Além disso, há também a ineficiência do governo. E aqui o filme deixa bem claro que não é apenas um governo o culpado, como muita gente gosta de apontar. Apesar de o governo Bolsonaro ser um grande incentivador da apropriação de terras por grandes empresários, a falta de ações vem, também, de governos anteriores.

Isso se percebe pelo fato de o filme ser gravado antes da sua posse, e por dois momentos no longa: um quando mostra que terras públicas invadidas foram legalizadas em pelo menos dois momentos da história brasileira (2009 e 2017), e em uma reunião dos mundurukus com a ex-presidente da Funai, em 2013, quando ela diz que não pode assinar a demarcação das terras ocupadas pela tribo Sawre Muybu, sendo este um dos momentos mais desconfortáveis do documentário.

A situação, portanto, mostra-se angustiante, pois o processo de grilagem torna-se cada vez mais intenso devido aos investimentos do governo na Amazônia com hidrelétricas, estradas e projetos minerais, que encarecem as terras. Esse processo também evita que bons investimentos cheguem à região, e há tanto ineficiência como falta de atenção das entidades responsáveis por demarcar terras ou torná-las patrimônio ou unidades de conservação. Assim, as populações que precisam da floresta para sobreviver ficam desamparadas.

Nós somos da terra

Os índios têm mais é que botar a boca no mundo, e nós temos mais é que ficar quietos […] e prestar atenção no que eles estão dizendo […]. Eles são a terra que eles vivem. Eles não são proprietários da terra. Eles são da terra […]. E isso nós temos que aprender com eles.”

Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo – Museu Nacional / UFRJ.

Sem dúvidas, a melhor parte de Amazônia Sociedade Anônima está nos esforços dos povos munduruku e ribeirinho para demarcar suas terras, sem esperar pela assinatura de um governante, na esperança de assim parar as investidas dos grileiros e conseguir proteger a floresta.

Com uma ótima direção e fotografia, nos sentimos próximos da floresta a cada cena em que ela aparece, bem como dos indígenas e ribeirinhos. Seus depoimentos sobre motivações e expectativas são tocantes, deixando claro que não são fracos ou frágeis e que vão tomar todas as ações possíveis para proteger seu território.

Cacique Juarez guiando indígenas mundurukus - Otageek
O Cacique Juarez é uma das figuras mais importantes no processo de demarcação das terras mundurukus e ribeirinhas. Fonte: Reprodução – Belas Artes à La Carte.

É interessante ver a parceria entre mundurukus e ribeirinhos, que têm em comum o fato de depender da floresta e dos recursos naturais para sobreviver. A movimentação dos dois grupos, tanto para incentivar que mais pessoas se juntem à ação, como todo o planejamento para a demarcação das terras, é o ponto alto do documentário. Por isso, acaba sendo um pouco desapontador que a participação deles no documentário seja maior apenas no fim do longa, especialmente quando se leva em conta que esta ação é mencionada na sinopse.

Apesar disso, Amazônia Sociedade Anônima é um documentário competente, que acende o alerta para um tema importante e, infelizmente, pouco comentado. Apesar de sabermos que o desmatamento acontece, não temos noção da proporção, e após o filme não tem mais como ignorar ou fechar os olhos, principalmente com o atual governo.

De acordo com o Cacique Juarez, a situação não melhorou quase dois anos após a demarcação, com o governo Bolsonaro. E o posicionamento do presidente a respeito já é muito conhecido. Por isso, o documentário acaba sendo muito importante para que nossos olhos se abram para o problema e possamos, de alguma forma, nos mobilizar a respeito, pois, como fica bem claro ao fim do filme, nós também viemos da terra e temos o papel de preservá-la tanto quanto mundurukus e ribeirinhos.

Confira o trailer de Amazônia Sociedade Anônima:

A Mostra Ecofalante é um evento anual, que acontece desde 2012, sempre no primeiro semestre. Na segunda metade do ano, fazem-se itinerâncias em cidades do estado de São Paulo e, em 2018, estrearam com uma itinerância nacional. Ao longo do ano, também realizam-se exibições com parceiros educacionais e institucionais, democratizando o acesso às obras excepcionais de sua curadoria e levando cultura e informação com filmes e debates para cada vez mais lugares.

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Lucas Lima
Bibliotecário, seriador, aspirante a fotógrafo, pseudocinéfilo e viciado em música pop.
Artigos: 6
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1 Comentário
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Livia

Muito importante e necessário esse debate, todos deveriam assistir! Eu inclusive já vou correr pra fazer minha parte.

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