Crítica | Onde está meu coração – nova série original da Globoplay10 minutos

“Onde está meu coração” foi ao ar em rede aberta no dia 03 de maio, última segunda. O primeiro episódio da nova série original da Globoplay foi exibido durante o quadro Tela Quente. Os 10 episódios já estão disponíveis para os assinantes do streaming.

Onde está meu coração
Pôster original da série.

Escrita por George Moura e Sergio Goldenberg, a mesma dupla responsável por “O Canto da Sereia”, “O Rebu” e “Onde Nascem os Fortes”, a série traz Letícia Colin no papel de Amanda em uma atuação brilhante, como uma médica que vai ao fundo do poço após se tornar viciada em crack. O ótimo elenco conta ainda com Fábio Assunção (o médico David), Mariana Lima (a executiva Sofia), que vivem os pais de Amanda, Daniel Oliveira (o arquiteto Miguel), marido da médica, e Manu Morelli (Júlia) como a irmã mais nova.

A história mostra a realidade por trás da dependência química em um casamento muito bem feito com a ficção. Além disso, foge dos estigmas ao retratar esse problema em uma família de classe média alta, além de abordar o vício em substâncias nos médicos e mostrar as consequências nas vidas das pessoas envolvidas.

“Essa questão, de alguma forma, bate na porta de todo mundo, de qualquer classe social. Quem vive ou já viveu isso pode ter um olhar mais afetuoso para essa questão e não estigmatizar nem criminalizar o dependente químico”, diz Goldenberg. “A gente quer mostrar que é preciso ter perseverança, paciência. Ainda mais com filho. Espero que ajude as pessoas a se verem e pensarem: como eu vou lidar com isso.”

Sérgio Goldenberg, autor da série.

Se as drogas já são um tabu por si só, quando falamos de crack a situação é bem mais embaixo. O crack sempre entra nas estatísticas como uma droga barata e popular e é quase um consenso geral que só se envolve com esse tipo de substância quem possui baixa renda. “Onde está meu coração” vem para quebrar esse paradigma e mostrar uma outra realidade.

ATENÇÃO! O TEXTO CONTÉM SPOILERS A PARTIR DAQUI.

Sophia, Amanda e David.

Realidade na Ficção

O primeiro episódio é todo direcionado para gerar impacto no telespectador sem apresentar fatos de pouca importância, apenas aqueles necessários para a construção da trama. Dito isso, o que precisamos saber? Uma médica é usuária de drogas e já está perdendo o controle da sua vida.

Em sequência, já vem a surpresa: ela não apenas dependente de drogas, mas é usuária de crack ( mas como assim, classe alta não usa só droga “cara”?). Com essa informação, o estereótipo comum na maioria das representações cinematográficas é deixado de lado.

Assim, o foco principal é todo voltado para Amanda (Letícia Colin) e as pessoas mais próximas de sua vida: seu marido, o pai e a mãe, que já percebem a falta de controle da personagem de suas vidas. Desse modo, o final do primeiro episódio traz outro tema importante: a internação compulsória e a efetividade disso.

Deixo aqui um espaço para admirar Leticia Colin, que entrega tudo como a intérprete de Amanda, sem dúvidas uma das melhores atrizes de sua geração.

Amanda depois de perder um paciente.

De acordo com a Revista Brasileira de Medicina do Trabalho, há dados sugestivos que a dependência de substâncias em profissionais da saúde é um problema subestimado. Os médicos passam por situações que facilitam a dependência de drogas.

Alguns fatores de risco para uso de substâncias psicoterápicas entre médicos são frequentemente citados na literatura: acesso fácil aos medicamentos, estresse no trabalho e em casa, autoadministração no tratamento para dor e para o humor e especialidades de alto risco (emergência e psiquiatria). Lembrando que a Amanda faz residência em emergência.

Os médicos trabalham de forma independente, com postura geralmente controladora, falsa sensação de que podem cuidar de si mesmos e que sabem o que estão fazendo. A negação retarda a busca por ajuda e tratamento. Providenciar tratamento para os médicos também não é tarefa fácil, dada sua dificuldade em aceitar o papel de pacientes.

Esse fato pode ser claramente visto em “Onde está meu coração” quando Amanda se recusa a aceitar a dependência e, mesmo com a internação compulsória, acredita ser capaz de melhorar sozinha. David (Fábio Assunção), também médico e o principal responsável pela intervenção, é o único que acredita estar fazendo o melhor pela filha e esse ser o método mais eficaz.

Trailer de ‘Onde Está Meu Coração’.

Quando a intervenção da família se faz necessária, podemos observar um óbvio conflito entre os pais de Amanda e seu marido Miguel. David e Sophia acreditam (e não estão tão errados) que Miguel foi o responsável pela situação em que Amanda se encontra. Com isso, a interferência não é apenas em uma tentativa de recuperação da médica, mas em todos os pontos de sua vida.

Sophia se deixa levar pela conversa de Amanda em ser capaz de se recuperar sozinha e acaba tirando a filha da clínica de recuperação apenas um mês após ser institucionalizada. Ainda no segundo episódio, vemos a apresentação de novos personagens, que irão causar outras interferências na vida da médica, incluindo Vivian, uma nova cliente de Miguel e Júlia, a irmã de Amanda.

As Consequências

Em menos de 24h após ir para casa, vemos como ações mínimas podem influenciar em uma recaída. Nesse momento, é respondida uma pergunta deixada no ar ainda no primeiro episódio: quem foi o irmão ou irmã que a família de Amanda perdeu? David Filho morreu afogado quando ainda criança na piscina da casa da família e essa tragédia refletiu de maneiras diferentes em cada membro.

Julia, a irmã, procurou refúgio na igreja a ponto de “sacrificar” sua virgindade, acreditando que se manter “pura” é a única forma de sua família ser feliz novamente. Assim, ela desconta toda a sua amargura na irmã, sendo um grande ponto favorável à recaída de Amanda.

Fatos que vão desde a internação compulsória à saída precipitada e pequenos acontecimentos na vida de Amanda, como uma demissão ou uma briga, levam-na a procurar as drogas para ter picos de felicidade em sua vida. Então vemos a queda do descontrole ao fundo do poço e, por fim, a busca por ajuda.

Tudo passa por uma questão temporal (em poucos episódios) sem se aprofundar muito na queda em si, mas nos aspectos que a levam a isso. Em minha opinião, nada passa do ponto, tudo acontece em uma dose que pode ser absorvida facilmente em clareza e detalhes.

O sofrimento da mãe, o julgamento da irmã, o afastamento do marido e a desistência do pai retratam com perfeição o impacto e as consequências que as ações de Amanda tiveram sobre cada familiar.

Cenas de Amanda em ‘Onde Está Meu Coração’.

“Onde está meu coração” é bastante densa e mostra todas as fases de uma pessoa com dependência química, desde o início até a vida destruída e a passagem nas ruas (isso inclui a decadência ao ponto de vender o corpo para conseguir drogas, mas de modo mais leve), chegando enfim à aceitação e a busca pela recuperação.

Depois de todas essas fases, vemos uma nova Amanda surgir e, em contrapartida, outros personagens se deteriorarem. Um desses é David, que é alcoólatra e retorna ao vício depois de 20 anos de sobriedade.

Apesar de Amanda ser a protagonista e a trama ser centrada em volta de sua doença, muitas partes são destinadas a mostrar como cada personagem é afetado e o efeito que a situação tem na vida de cada um deles, mesmo que não sejam pessoas diretamente ligadas a ela (Amanda).

Onde está meu coração?

Nos últimos episódios, vemos a luta de Amanda para manter a sobriedade e a reestruturação de sua vida e das pessoas afetadas. David é o único que não consegue se recuperar e o seu fim é quase uma chave para a destruição de vez da sua família.

E nesse cenário, vemos uma união inédita entre Júlia e Amanda, que evita uma nova recaída. Desse modo, toda a mensagem da série pode ser vista claramente: o afeto e a aceitação são a principal chave para a recuperação.

O fim da trama é criado de uma forma muito bonita, não apenas mostrando a volta por cima como a busca por ajudar outras pessoas na mesma situação. Amanda usa as nuances que aprendeu durante seu processo e todas as recaídas para iniciar um projeto que seja mais efetivo, de modo que a mesma continue no caminho sem desvios.

A Globoplay foi certeira no timing do lançamento de “Onde está meu coração”, além de abordar um assunto necessário e que, apesar da pandemia, deveria receber mais atenção, principalmente na pressão que os médicos estão passado no atual cenário do Brasil.

As atuações estão impecáveis e ter pessoas no elenco que passaram por situações parecidas é a cereja do bolo para garantir o sucesso de “Onde está meu coração”.

Sinopse:

Em Onde Está Meu Coração, Amanda (Letícia Collin) é uma jovem e brilhante médica, sempre dedicada a seus pacientes. Mas a pressão diária do trabalho dentro do hospital acaba sobrecarregando a moça, que busca algum tipo de consolo nas drogas. Agora, enquanto ela tenta tratar sua dependência química, vê tudo que a rodeia desmoronar: seu casamento com Miguel (Daniel Oliveira), seu relacionamento com a irmã, Júlia (Manu Morelli), e a união de seus pais, Sofia (Mariana Lima) e David (Fábio Assunção).

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Rafaella Moura
Artigos: 36
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