Resenha | A Manipulação Em Águas Profundas6 minutos

'Em águas profundas' mexeu muito comigo e foi um livro que me tirou por completo da zona de conforto.

Na resenha de hoje vamos falar sobre o livro “Em Águas Profundas”, da autora Patricia Highsmith, publicado no Brasil pela editora Intrínseca. Trata-se de um suspense psicológico que explora quais são os limites da traição e do orgulho dentro de um casamento destruído.

Capa do livro ‘Em águas profundas’.

SINOPSE DE EM ÁGUAS PROFUNDAS

Vic e Melinda estão longe de ser um casal feliz. Seu casamento é mantido por um acordo nada convencional. Melinda pode ter quantos amantes quiser, contanto que não arraste os dois e a filha para o caos de um divórcio.

Tudo parece bem, mas, com o passar do tempo, Vic começa a se incomodar com os homens escolhidos pela esposa. Então, adota uma estratégia inusitada para afugentá-los, assumindo a autoria do assassinato de um deles.

Só que a notícia se espalha por toda a cidade do interior dos Estados Unidos. E o antes cidadão-modelo, benfeitor, marido mais do que tolerante e empreendedor abnegado vira alvo da maledicência de todos.

Tudo levava a crer que a vida voltaria ao normal quando o verdadeiro assassino é descoberto. Contudo, a revelação da mentira de Vic é o estopim de uma reviravolta nas convicções do próprio e nas relações que mantém com a comunidade, com os amigos e com Melinda e seus vários amantes. O que se cria é uma trama intrincada, repleta de segredos, manipulação psicológica e sangue.

Em águas profundas tem a marca registrada de Patricia Highsmith. Explora os abismos mais sombrios da psique humana e lança luz para o fato de que sob a superfície das personalidades mais pacatas e exemplares podem se esconder as mais sórdidas psicopatias.

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Essa é uma resenha que eu não sei por onde começar. ‘Em águas profundas’ foi o meu primeiro suspense psicológico. Anteriormente a isto, todas as minhas experiências com livros sempre foram com conteúdos mais leves, como romances e ficções.

Eu sou uma leitora que não sabe a hora de parar. Para mim, é muito fácil ler um livro de 300 páginas em um dia apenas, o que não aconteceu neste caso. ‘Em águas profundas’ mexeu muito comigo e me tirou por completo da zona de conforto. Foi uma obra que incomodou do início ao fim e, portanto, cumpriu com o seu papel de forma brilhante.

A princípio, o livro já me deixou em completo choque logo nas primeiras 20 páginas, pois um dos amantes de Melinda diz a Vic que ele tem “muito espírito esportivo” por permitir que outro saia com a sua esposa.

E Melinda não é discreta com seus casos: a cidade inteira sabe sobre todo o ocorrido e Vic aceita apenas para que ela não peça o divórcio. Os motivos que o levam a não querer se separar envolvem duas questões que são, no meu ponto de vista: o ego em primeiro lugar, o qual seria abalado (tudo bem traição, mas divórcio já é demais), e em segundo lugar a filha do casal, chamada Trixie.

Melinda não pede o divórcio e dá a entender que a situação para ela é cômoda, pois tem um certo status social e recursos financeiros.

EM ÁGUAS PROFUNDAS

Ocorre uma situação em específico no livro que justifica o motivo pelo qual a autora escolheu esse título. Porém, eu creio que vá muito além disso.

É importante ressaltar que toda a história ocorre pelo ponto de vista do Vic, ou seja, não temos um narrador confiável. As informações sobre Melinda e todos os personagens são narradas a partir da percepção que ele tem dos fatos, podendo ser altamente manipuladas.

Pensando nisso, desde o princípio eu me atentei ao fato de que não poderia confiar na narrativa do personagem em questão. E mesmo tendo essa percepção, eu quase me deixei ser manipulada. Senti por diversos momentos compaixão, empatia e até mesmo alguns dos sentimentos narrados por ele.

Isso foi um dos motivos que me levaram a ficar desconfortável. Estar na mente do Vic e ler seus pensamentos e sentimentos era perturbador. Justamente por experimentar sentimentos tão controversos durante a leitura, eu demorei muito pra conseguir terminar de ler.

A autora trabalha com muita paciência todos as nuances que levam o enredo a se construir. Isso ocorre de tal forma que todos os personagens são vistos de forma complexa até chegar no resultado final e nas consequências de cada ato e cada situação.

A história não deveria ter nada de surpreendente. A narrativa é algo que aconteceria na vida real com facilidade: esposa trai o marido, o qual aceita a situação desde que ela não peça o divórcio. Contudo, Patricia Highsmith vai muito além. A chave do livro não são os acontecimentos em si, mas o psicológico e as emoções por trás de cada ação.

QUESTIONAMENTOS E CONCLUSÕES

‘Em águas profundas’ foi um verdadeiro desafio. Em alguns momentos eu refleti sobre a escolha da Melinda ser a pessoa infiel da relação. Penso se foi proposital, pelos comportamentos da mulher serem normalmente relacionados e aceitados quando partem dos homens.

Sobre Melinda, ela não aparenta ter a menor consideração pela filha. Sempre trata a menina com grosseria e a ignora na maior parte do tempo. Também traz os amantes para dentro de casa enquanto Vic está presente, chegando até mesmo a interagir com eles.

Além disso, está sempre bebendo e alterada, bem como não faz a menor questão de esconder os seus casos amorosos, colocando Vic em situações embaraçosas e de vexame público.

Já Vic é visto pela comunidade como um exemplo de resiliência, o bom vizinho, pai amoroso e marido dedicado. Ele é o cara que está sempre pela família e não desiste dela apesar das adversidades. Todos gostam mais de Vic do que de Melinda.

Será que o comportamento inadequado seria melhor aceito se partisse de Vic? Ou causaria menos choque? São algumas questões que me fizeram refletir após a leitura.

Apesar de todas as dificuldades que eu enfrentei durante a leitura, não posso deixar de afirmar que ‘Em águas profundas’ é um livro que eu recomendo. Principalmente para todos aqueles que gostam de um suspense psicológico.

Se você está disposto a ver até onde um casamento pode ir quando tudo que sobra dele é orgulho, traição e manipulação, ‘Em águas profundas’ é o livro ideal pra você.


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Beatriz Cintra
Olá galera! Meu nome é Beatriz, sou estudante de jornalismo e completamente apaixonada por livros. Uma twitteira assídua que chora por Harry Potter até hoje.
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