WandaVision | Não estamos todos de luto?8 minutos

WandaVision nos mostra que devemos sim encarar a realidade da maneira como ela é

(ALERTA SPOILER!!!!!!!!!!)

A série WandaVision tem sido o centro das atenções nas redes sociais, seja pelo fato de ser uma produção Marvel ou pela narrativa traçada por Jac Schaeffer. Mas o episódio mais recente até o momento, “Previously On”, abordando as perdas de Wanda desde os seus pais até o seu namorado, é o que mais capta a essência da série. Não pela narrativa em si, mas em como ele se liga ao momento depressivo em que vivemos.

Wanda se tornou uma personagem de fácil entendimento para o público. Suas participações eram quase como Deus Ex-Machina, sempre ajudando algum herói mais essencial para a trama. Até mesmo Guerra Civil, uma trama que poderia ter tratado seus traumas a deixou de lado depois que o embate entre Tony Stark e Steve Rogers cria forma.

De qualquer maneira, o que torna Wanda ligada ao público não são suas cenas de ação onde ela indaga Thanos falando que ele saberá quem ela é. Mas sim, são as motivações de Wanda que trazem um gosto de “quero mais” ao público. De uma forma ou de outra, assim como Maximoff, estamos todos de luto.

Wanda e Visão recém-casados dançando e apaixonados em cena de WandaVision
Wanda e Visão recém-casados dançando e apaixonados

Assim como Peter Parker, todos nós lutamos para ter reconhecimento. Steve Rogers nos encanta com sua bravura e justiça. Tony Stark se encontra com o nosso ego humano. Thor nos lembra que mesmo com perdas, nós ainda somos dignos de grandeza. Mas Wanda Maximoff é a nossa parte que precisa viver e lidar com o luto.

Pode parecer loucura afirmar algo assim, mas depois de 2020, é impossível acreditar que o luto não tenha se tornado parte do nosso cotidiano. Perdemos pais, mães, avós, amigos, parentes distantes, parentes próximos, namorados e até mesmo colegas de trabalho. Todas essas perdas nos tornaram outras pessoas e até mesmo quem jamais perdeu alguém para o Covid-19 ainda precisa lidar com o sentimento de perda.

Pela primeira vez desde 2015, os apelidados “Marvetes” podem conhecer mais de uma das heroínas mais poderosas dentro do escalão da Marvel. Só não é de forma otimista, com grandes efeitos visuais e grande escala. A série opta por formatos menores que homenageiam a televisão americana, porém mostra como Wanda não busca grandeza, apenas uma vida pacata, afetuosa e amorosa com aqueles que ama.

Em WandaVIsion, Wanda grávida e Visão em posição hilária de ataque
Wanda e Visão

Nos dois primeiros episódios, Wanda e Visão concordam em viver uma vida normal como um casal americano. Apesar dos moradores de Westview apresentarem algum dano, o dois optam por seguirem suas vidas.

Já no terceiro episódio, as coisas começam a mudar. Wanda dá a luz a gêmeos, o que a faz lembrar de Pietro e rebuscar uma sensação externa que não havia experimentado na realidade paralela. Mas o que muda tudo é que Geraldine, amiga de Wanda, é a única que consegue entender a sensação da feiticeira.

No episódio quatro, descobrimos que Geraldine é Monica Rambeau, filha de Maria Rambeau. Depois de ter voltado no estalar de dedos do Hulk, ela se depara com a morte de sua mãe, a qual não pôde presenciar. Monica aparenta não ter mais ninguém, uma vez que Carol Danvers não habita a Terra e sua mãe morreu.

O escape de Monica é seu cargo importante na SWORD. Mas após ser sugada para o Hex, a personagem lida com uma crise de identidade, sem saber quem é. Até que Wanda a expulsa da realidade e Monica começa a entender mais das motivações por detrás do eventos causados pela feiticeira.

Monica Rambeau toca na barreira criada por Wanda
Monica Rambeau

Durante o quinto e o sexto episódios observamos Wanda e Visão lidando com as consequências causadas pelo Hex. Enquanto Visão quer ajudar os habitantes, Wanda continua achando que suas ações não possuem consequências tão grandes. No sexto, a série ainda volta na relação dos irmãos Maximoff, mostrando como Wanda pode estar tão afetada pela perda que nem lembra mais dos eventos de sua vida.

Já no sétimo episódio, Wanda está desgastada após expandir o Hex e minar quase toda a equipe da SWORD, os trazendo para a realidade dela. Ela tem dificuldade para lidar com seus filhos, sente a constante necessidade de continuar negando e ficar sozinha. Mas Monica volta para o Hex e tenta avisar para Wanda que precisa seguir em frente. No fim do mesmo episódio, a vizinha intrometida Agnes se revela como Agatha Harkness, uma bruxa bastante poderosa.

No penúltimo episódio da série, Wanda é convencida por Agatha a mostrar toda sua vida, desde a perda dos seus pais até a morte de Pietro e os acontecimentos de Guerra Infinita. Mas o pior é lembrar o que veio depois da volta de Maximoff. A feiticeira não possui mais ninguém. Enquanto Peter tinha Ned e May, Scott Lang tinha sua família e T’Challa também, a Feiticeira Escarlate se encontrou sozinha.

Imagem de Wanda e Visão sentados observando alguém em Guerra Civil

Wanda precisa lidar com a realidade, deixar sua pseudo vida feliz por uns instantes e mergulhar no seu triste e melancólico passado. Não é muito diferente do que nós estamos vivendo no mundo.

Uma matéria de dezembro de 2020 do jornal da USP buscou debater o fenômeno do luto em períodos de pandemia. O texto usa como base a psicóloga e docente Elaine Gomes dos Reis Alves, que argumenta o fato de todos nós estarmos interessados em observar as mortes alheias, mas em momento algum olhamos para nossos sentimentos, buscando formas de encarar o sofrimento.

Segundo Elaine, tragédias como a boate Kiss e Brumadinho puderam ser sentidas de uma forma ampliada, porque tínhamos uma perspectiva. Mas uma pandemia, como a do COVID-19, não chega a ser algo que a população possa ter consciência da tragédia, uma vez que não vemos uma destruição. Portanto, é difícil buscar uma forma saudável de lidar com as mortes causadas pela pandemia.

A psiquiatra Elisabeth Kubler-Ross, nos anos 60, foi pioneira em analisar como o ser humano avalia e processa o sentimento de luto. Ela avaliou que o homem passa por cinco estágios definitivos do luto – negação, raiva, barganha, depressão e aceitação -, assim consegue lidar melhor com a perda e seguir em frente.

Mas como seguir em frente se continuamos no mesmo cenário?

Visão e Wanda sentados olhando em linha reta para a plateia

Wanda tentando fugir da realidade, Monica precisando lidar com a morte de sua mãe após um período traumático, Agatha Harkness tendo que aceitar a rejeição de pessoas iguais a ela e Darcy observando os acontecimentos do Hex em uma área quarentenada. Parece um pouco com a gente, não é mesmo?

E é aqui que WandaVision nos encontra. Assim como a Wanda, parece que continuamos perdendo e a sensação de luto vai se agravando. Porém, cada um processa o luto de maneira diferente, só que ao mesmo tempo parece uma sensação varrida para debaixo do tapete, sem tempo para sentir. Afetada por todos eventos do UCM, a Feiticeira Escarlate não teve como processar todas suas perdas e o Visão foi a gota d’água.

WandaVision nos mostra que devemos sim encarar a realidade da maneira como ela é, com escapismo de forma dosada. Ao invés de negar o mundo real, ainda precisamos encarar como as coisas estão, aceitar os sentimentos e, quando possível, seguir em frente. Afinal das contas, não estamos todos de luto?

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Paulo Miranda
Nascido e criado no Rio de Janeiro, 20 anos, sou formado em inglês e um estudioso de cultura pop. Sempre tentando buscar e compreender os movimentos que movem a cultura nerd, Atualmente colunista do Otageek e futuro estudante de literatura inglesa.
Artigos: 76
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