Crítica | Prata-Viva (2019) – My French Film Festival6 minutos

"Prata-Viva" integra a 11º edição do My French Film Festival e está disponível na plataforma de stream Supo Mungam Plus

Estreia de Stéphane Batut como diretor de longa-metragem, Prata-Viva (2019) é parte dos títulos da 11º edição do My French Film Festival e está disponível na plataforma de stream Supo Mungam Plus, com legendas em português.

Confira a crítica do Otageek, mas atenção: pode conter spoilers.

Personagem Juste em cena do filme Prata-Viva
Vif-Argent (2019). Reprodução: My French Film Festival.

Em Prata-Viva (original Vif-Argent, em francês, e Burning Ghost, em inglês) somos guiados por Juste em sua busca por identidade e aceitação de sua condição. É que ele está morto e seu “novo trabalho” consiste em guiar espíritos na passagem para o além. Habitando entre os vivos, numa espécie de limbo onde não pode ser visto pelos demais, o protagonista é surpreendido quando Agathe o vê. Ela, uma mulher por volta de seus trinta anos e mãe de uma filha, o confunde com um antigo romance.

Lançado em 2019 no ACID Cannes e vencedor do prestigiado Prix Jean-Vigo, o filme é o primeiro longa-metragem de Stéphane Batut, que já possui uma extensa bagagem recrutando casting para outros cineastas, como Xavier Beauvois, Arnaud Desplechin e Bruno Podalydès.

O diretor arrisca com um título instigante (cuja tradução literal seria “mercúrio”), numa obra que mescla elementos oníricos e fantásticos com uma alta dose de romantismo e reflexões sobre o estar vivo e o enfrentamento da morte.

O filme também é estreia no cinema de Thimotée Robart, que interpreta Juste, ao lado da experiente Judith Chemla no papel de Agathe. O longa ainda conta com a participação da célebre cineasta e documentarista italiana Cecilia Mangini, falecida no dia 21 de janeiro deste ano.

Vif-Argent (2019). Reprodução: My French Film Festival
Vif-Argent (2019). Reprodução: My French Film Festival.

O filme inicia com Juste emergindo de um rio, como se sobrevivesse a um afogamento. Ao pedir ajuda a um grupo de jovens, percebe que estes o ignoram, até que um homem, numa cabana próxima, leva-o até um escritório médico. O protagonista é entrevistado por uma médica, Kramarz, que deseja saber mais sobre ele. Porém, Juste não consegue lembrar de seu passado, apenas deseja voltar ao “normal” antes da situação em que está agora. A partir dessa cena, o enredo se desenrola.

De início, o espectador fica tão confuso quanto Juste, uma vez que é difícil distinguir se ele está morto de verdade ou se está, de alguma forma, vivo. E isto se deve para além da interação com Agathe, com os diálogos que o protagonista mantém com um costureiro, Alpha, e sua esposa, Baîlo.

Aliás, quanto à confusão, vale ressaltar a interpretação de Robart, que consegue manter a todo momento expressões fidedignas ao sentimento, o que funciona bem com a vivacidade e a espontaneidade da personagem de Chemla.

Agathe encontra Juste num metrô, logo após ele fazer a passagem de um senhor africano. Ela o segue escondida, mas é descoberta. Ao se encontrarem, a mulher então revela que Juste lembra um antigo affair que tivera durante uma viagem à Turquia com colegas de faculdade. Agathe e Guillaume viveram um romance rápido, mas muito intenso, de forma que ela nunca o esqueceu, mesmo após dez anos. Contudo, Juste afirma não ser quem ela pensa. Apesar disso, ambos começam a viver uma paixão breve e avassaladora.

O contraste dessa relação entre um fantasma e uma mulher viva é acentuado pelos jogos de luzes das cenas: quando o foco recai sobre Agathe, os cenários são iluminados, com abundância de tons amarelo e laranja; com Juste em evidência, tons azul-escuros e baixa iluminação são preponderantes, o que remete à condição de morto-vivo do personagem.

Vif-Argent (2019). Reprodução: My French Film Festival
Vif-Argent (2019). Reprodução: My French Film Festival.

Outras perspectivas são postas em evidência quanto ao estado de cada um, principalmente nas cenas de sexo. Sim, o filme possui cenas de relações sexuais, além de mostrar explicitamente nudez feminina e masculina – o que é bastante curioso e interessante de ressaltar, visto que comumente se expõe o corpo da mulher enquanto o do homem é preservado: não é o que acontece com o filme de Batut.

Segundo o próprio diretor, em entrevista a Serge Kaganski (disponível no presskit do filme, o qual você pode acessar aqui), as cenas pretendem mostrar a subjetividade dessas experiências do ponto de vista de Juste e de Agathe: para ele, a descoberta do amor físico; para ela, uma experiência dúbia que se mescla ao sonho.

“A ideia era evocar duas experiências subjetivas de um momento de amor, reportando ao inevitável mistério do outro. O cinema trata mais frequentemente essas sequências do modo da fusão do que da alteridade.”

Stéphane Batut

Essa relação improvável é interrompida na primeira metade do filme quando Juste é punido por Kramarz devido a uma falta em seu ofício, impedindo que Agathe possa vê-lo. A partir daí as tensões se acirram, os sentimentos se tornam turbulentos para ambos e o protagonista precisa encarar a iminência de sua partida decisiva. Destaque para a trilha sonora, elemento fundamental que compõe esses momentos e acompanha o desenrolar da narrativa em todas as suas nuances.

Por fim, Prata-Viva, tal como o metal ao qual faz referência, é sobre a liquidez de alguém que está presente, mas se esvai, que, assim como o deus romano, transita entre o mundo do vivos e dos mortos. É também sobre quem fica, sobre quem idealiza, sobre quem não supera. É sobre a morte, mas, antes de tudo, sobre a vida.

Assista ao trailer:

Você pode assistir a este e a outros títulos do My French Film Festival na plataforma de filmes independentes Supo Mungam Plus, disponíveis até o dia 15 de fevereiro.

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Rodrigo Gabriel Costa
26 anos, cearense, libriano, graduado em Letras e viciado em café.
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