A Moda é passageira. O Estilo, imortal | A semiótica da indumentária6 minutos

Uma homenagem a Pierre Cardin (1922-2020), gênio da arte de criar narrativas através do figurino dos personagens que as vivem

“Prêt-à-Porter”. Com a audácia de dar nome a uma tendência com essa definição (“Pronto pra usar!”), Pierre Cardin, nascido Pietro em Sam Biagio de Callalta, Itália, lançou ao mundo o conceito formalizado no livro de outro monstro da moda, Gianni Versace (The Art of Being You – 1987). Ao invés de seguir a moda, usar sua própria versacelidade poderia inverter a polaridade e fazer com que qualquer pessoa se tornasse um ímã para a moda e não o contrário. Essa é a diferença entre moda e tendência.

Foi partindo dessa premissa que o escritor Willian Gibson – criador de petardos como Neuromancer (1984), a eminência parda por detrás de Matrix, Johnny Mnemonic (1995) (e nem preciso colocar o subtítulo brasileiro, né gente?) e até do roteiro original do pitoresco e, na minha opinião, melhor de todos Alien 3 – lançou o seu Reconhecimento de Padrões (Pattern Recognition – 2003).

A personagem principal é uma Cool Hunter (Caçador(a) de Tendências), uma mina que ganha pra ficar de rolê analisando a styleza alheia pelas ruas e mais variados locais e pescar as novas tendências. De quebra, ainda tem a manha de profetizar qual marca vai vingar ou não.

Mas o que moda tem a ver com narrativa? Tudo! Sabe aquela pergunta capciosa: “A roupa diz quem você é?” Claro! E não estamos falando de classe social, mas da maneira como o indivíduo externaliza o seu mundo interior através do universo simbólico que emana de suas roupas, inclusive – e principalmente – de suas respectivas marcas e designs. O visu do indivíduo dialoga com seu habitat social e a com a urbe. Uma semiótica da indumentária.

Antes da atual, todo o dress code das antigas civilizações e tribos eram necessariamente ritualísticos. E não me refiro apenas à religião. A maneira como o indivíduo se vestia anunciava sua função social, ocupação, profissão, enfim, o personagem social que o indivíduo encarnava na sociedade vigente, seja qual fosse.

Com a modernidade, as pessoas, principalmente os homens, passaram a se vestir meramente como engrenagens do grande sistema e não por acaso Pierre Cardin foi o responsável pelo surgimento da primeira coleção única e exclusivamente masculina.

Após o boom do hippie na década de 1960, o caráter ritualístico e iconográfico das roupas parece ter voltado à ativa na sociedade humana, vide Sandman em Prelúdios & Noturnos, de Neil Gaiman. O Sonho ficara preso durante as décadas de 1930, 1940 e 1950. Na década de 60, o Sonho se libertou.

A indumentária é um storytelling

Dois segundos é o tempo que um agente de RH leva para escanear o candidato a um emprego. O croupier costuma reparar nos sapatos dos apostadores, o que justifica a expressão “pés-de-chinelo”. A carioquice vem quebrar esse paradigma elitista e agrega valor a um tipo de sandália cuja marca já virou sinônimo do modelo, na metonímia mais cool da história. A indumentária É um storytelling.

Se as roupas têm o poder de externalizar o universo simbólico interior do indivíduo em sua semiótica fashion, as peças podem ser não apenas revestimentos, mas verdadeiros apêndices de quem as veste. Assim, Cardin criara o Unissex e não por acaso, o futuro pertence à quebra da simetria bilateral.

A primeira vez que ouvi a expressão que inicia o artigo foi numa entrevista sobre o documentário A Estética do Cangaço, onde Frederico Pernambucano de Mello diz que a estética de Lampião e cia. “(…) passava longe do “marxismo Prêt-a-Porter”.

Lampião percebera que sua indumentária e a de seus companheiros deveria passar uma realeza (Flor de Lis), uma aura transcendental (Estrela de Davi), além de ares de cavalaria (Cruz de Malta), cada característica codificada pelos signos* supracitados.

*Chamo de “signos” em vez de “símbolos”, de acordo com A Lógica dos Signos e Símbolos, de C.S. Pierce, tendo em vista que são ícones e não palavras.

Assim como o bando de Lampião foi talvez o primeiro bonde ostentação, as letras de funk proibido são a atual (e sudestina) literatura de cordel. Espedito Celeiro, costureiro de Nova Olinda, no Ceará, tem em suas coleções o DNA do cangaço mapeado por uma ótica atual e mereceu o documentário A Sandália de Lampião. Como disse uma vez Coco Chanel: “A Moda é passageira, o Estilo é imortal”.

2020 levou muita gente boa (pra não dizer que SÓ levou gente boa) e este artigo foi uma homenagem, um réquiem, a um gênio de uma arte deveras subjetiva: a arte de criar narrativas através do figurino dos personagens que as vivem – a moda. Descanse em paz, Cardin. O admirável mundo novo ainda vai dar muito pano pra manga!

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Claudio Siqueira
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